Um segundo antes, eu estava deitada no chão do quarto com Cecilia, as duas ouvindo o silêncio. E então Adriano apareceu e mudou tudo.
Sua expressão de irritação, de desagrado me trouxe de volta à realidade lembrando que o meu lugar não é naquela casa.
Desci as escadas sentindo o coração batendo mais forte que meus passos, sempre carregando a minha sacola. Quando cheguei na sala e me virei em direção à porta, ele estava ali, encostado no batente que dava para a sala. Braços cruzados, semblante duro.
— Aonde você vai? — perguntou.
— Vou embora — respondi sem rodeios.
— A gente precisa conversar — ele disse.
Fiquei parada no lugar.
— No escritório — diz apenas. E vira as costas, esperando que eu siga.
O escritório fica logo ao lado da sala, uma porta de madeira escura, pesada. Ele entra primeiro. Eu entro depois.
Ele se senta em uma poltrona de couro e me aponta a cadeira da frente. Mas eu não sento.
— Cecilia gostou de você.
— Acho que sim — respondo.
— Ela não costuma deixar ninguém se aproximar.
Fiquei calada, aguardando o que viria a seguir.
— Você pode ficar, por enquanto. É temporário. Até vermos no que vai dar.
— Obrigada.
Ele me encarou, olhos escuros, um tom quase de suspeita neles.
— Você viu que cuidar de Cecilia… não é fácil.
— Ela não é difícil — corrigi. — Só está assustada. E… muito sozinha.
Ele virou devagar para me encarar, e havia algo diferente ali. Uma espécie de incômodo, talvez até irritação, como se eu tivesse tocado numa ferida aberta.
— Não fale do que você não sabe. — O tom dele era um aviso.
— Cecília está carente. O comportamento dela é resposta de que ela é uma criança que não recebe atenção.
A reação foi imediata: o maxilar dele travou. Ele respirou fundo antes de falar, como se estivesse segurando palavras muito mais duras do que as que acabou escolhendo.
— Não preciso justificar minha relação com minha filha para você.
— Não estou pedindo justificativa. Só que… ela é uma criança. Parece que tem medo até do som dos próprios passos.
Ele se voltou para a janela, olhando para fora.
— Cecilia não era assim — disse finalmente.
A voz dele saiu diferente. Menos fria.
— Ela ficou… assim… depois da morte da mãe.
Tudo fez mais sentido.
— Sinto muito — murmurei.


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