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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 7

Um segundo antes, eu estava deitada no chão do quarto com Cecilia, as duas ouvindo o silêncio. E então Adriano apareceu e mudou tudo.

Sua expressão de irritação, de desagrado me trouxe de volta à realidade lembrando que o meu lugar não é naquela casa.

Desci as escadas sentindo o coração batendo mais forte que meus passos, sempre carregando a minha sacola. Quando cheguei na sala e me virei em direção à porta, ele estava ali, encostado no batente que dava para a sala. Braços cruzados, semblante duro.

— Aonde você vai? — perguntou.

— Vou embora — respondi sem rodeios.

— A gente precisa conversar — ele disse.

Fiquei parada no lugar.

— No escritório — diz apenas. E vira as costas, esperando que eu siga.

O escritório fica logo ao lado da sala, uma porta de madeira escura, pesada. Ele entra primeiro. Eu entro depois.

Ele se senta em uma poltrona de couro e me aponta a cadeira da frente. Mas eu não sento.

— Cecilia gostou de você.

— Acho que sim — respondo.

— Ela não costuma deixar ninguém se aproximar.

Fiquei calada, aguardando o que viria a seguir.

— Você pode ficar, por enquanto. É temporário. Até vermos no que vai dar.

— Obrigada.

Ele me encarou, olhos escuros, um tom quase de suspeita neles.

— Você viu que cuidar de Cecilia… não é fácil.

— Ela não é difícil — corrigi. — Só está assustada. E… muito sozinha.

Ele virou devagar para me encarar, e havia algo diferente ali. Uma espécie de incômodo, talvez até irritação, como se eu tivesse tocado numa ferida aberta.

— Não fale do que você não sabe. — O tom dele era um aviso.

— Cecília está carente. O comportamento dela é resposta de que ela é uma criança que não recebe atenção.

A reação foi imediata: o maxilar dele travou. Ele respirou fundo antes de falar, como se estivesse segurando palavras muito mais duras do que as que acabou escolhendo.

— Não preciso justificar minha relação com minha filha para você.

— Não estou pedindo justificativa. Só que… ela é uma criança. Parece que tem medo até do som dos próprios passos.

Ele se voltou para a janela, olhando para fora.

— Cecilia não era assim — disse finalmente.

A voz dele saiu diferente. Menos fria.

— Ela ficou… assim… depois da morte da mãe.

Tudo fez mais sentido.

— Sinto muito — murmurei.

— E eu estou tentando fazer o melhor — insisti. — Mas o senhor não facilita. Parece que faz questão de afastar quem tenta ajudar.

A expressão dele mudou rápido — um lampejo de algo profundo e feroz, tão rápido quanto um raio cruzando o céu.

— Eu não preciso de ajuda.

— Mas talvez Cecilia precise — retruquei, baixinho.

O silêncio caiu como uma pedra entre nós. Ele respirou fundo, e por um segundo achei que fosse gritar. Mas a voz dele saiu baixa, ainda mais fria.

— A conversa terminou.

Virei para a porta e saí, enquanto ele permaneceu ali parado, como uma estátua esculpida em dureza.

***

Quando saí do escritório, minhas pernas estavam tremendo de raiva daquele homem.

Resolvi dar uma volta pela propriedade e acalmar os nervos. Depois de algum tempo, parei debaixo de uma árvore e vi a uma certa distância, algumas casinhas todas iguais, pintadas de branco e marrom e deduzi que ali fosse a vila onde moravam os empregados.

Me sentei sobre a raiz enorme da árvore, respirando o ar puro e notei pela primeira vez como tudo ali era bonito e transmitia paz.

Depois de um tempo voltei para casa. Encontrei Cecília na sala sentada no chão, brincando.

Cecília me olhou. Me ajoelhei ao lado dela.

— Acho que vou ficar aqui um pouco mais, Cecília.

Ela me olhou com os olhos brilhando.

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