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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 8

Quando finalmente entrei no quarto e fechei a porta atrás de mim, senti como se o peso do dia inteiro caísse de uma vez sobre minhas costas.

Joguei minha sacola no chão e sentei na beira da cama. Lembrei do celular e peguei o aparelho no fundo da sacola. Eu o tinha desligado logo que subi no ônibus. O medo ainda estava tão grudado em mim que o simples ato de ver a tela acender me deu arrepios.

Assim que o celular ligou, vibrou sem parar. Mensagens. Chamadas perdidas. Notificações. O nome de Jana piscava várias vezes. O coração disparou. Meu único pensamento naquele momento foi: “meu padrasto morreu ao cair da escada”.

Abri a primeira mensagem. Depois a segunda. Depois todas.

“Marja, pelo amor de Deus, onde você está?”

“Você sumiu! Estou surtando!”

“Me liga assim que vir isso.”

“Eu fui na sua casa. Aconteceu alguma coisa?”

“Marja, atende!”

Engoli seco. As mensagens continuavam, cada uma mais desesperada do que a outra. Respirei fundo, procurando coragem, e apertei o número dela. A ligação completou antes mesmo de dar o segundo toque.

— MARJA?! — a voz dela ecoou tão alta que eu tive que afastar o celular. — Onde você está? Meu Deus, você está viva? Por que sumiu assim?!

— Eu estou bem — murmurei. — Desculpa, eu… eu precisei ir.

— “Precisou ir”?! — ela repetiu, indignada. — Você foge de casa, some, não atende ninguém! Eu pensei que você… sei lá! Você não faz ideia do que passou pela minha cabeça!

— Eu deixei uma mensagem, Jana…

— Deixou, uma mensagem rápida, que não explicava nada e que só aumentou a minha preocupação. Quando eu fui na sua casa e encontrei aquele… aquele desgraçado lá, com a cabeça enfaixada e não vi você, quase tive um troço.

Meu coração quase parou.

— Então, ele está vivo?

— Claro que está; infelizmente.

— Ele… falou alguma coisa? — minha voz saiu fina. Pequena.

— Falou. Disse que vai te encontrar. Que você vai pagar caro. E nós o conhecemos bem. Sabemos que ele não vai desistir.

Senti o chão do quarto sumir por um instante.

— Aconteceu algo, não foi, Marja?— Jana perguntou.

Houve um rápido silêncio. Em seguida Jana perguntou novamente:

— Ele te estuprou?

— Não! Ele tentou, mas eu me defendi e ele caiu da escada. Caiu sozinho, não foi culpa minha.

— Ele mereceu.

— Por isso...eu não posso voltar. Não posso. Ele vai acabar comigo.

— Eu sei — ela disse rápido. — Olha, você não fez nada de errado, só se defendeu. Mas precisava ter me falado! Eu ia te ajudar!

— Pelo menos está empregada. Já não é tão ruim.

— Sim — concordei com ela.

— E me manda mensagem sempre que puder. Não desaparece de novo.

Nos despedimos, e quando a ligação termina, jogo meu corpo para trás, a cabeça caindo sobre os travesseiros.

Seguro o celular por um tempo, observando a tela escura refletir meu rosto cansado.

Penso em minha mãe e uma dor funda me invade sem pedir licença. Fico inerte, deixo o celular cair ao lado. E muito tempo depois ainda estou deitada na cama, na mesma posição, olhando para o teto.

Percebo que não tive tempo de viver o luto com tudo ao meu redor acontecendo tão depressa.

De repente sou tomada por uma crise de riso nervoso. Depois do riso, vem o choro. Não um choro contido, mas um choro alto, descontrolado. Me sinto uma criança abandonada.

Não sei se vou conseguir sem minha mãe. Mas agora tudo acabou. Eu estava sozinha no mundo. Não tinha irmãos, nem parentes próximos. Minha mãe também era filha única. Então, não me sobrou ninguém.

Naquele momento, a casa toda estava quieta. Um silêncio assustador, medonho. E a frase de Jana ficou ecoando na minha cabeça:

“Ele disse que vai te encontrar e que você vai pagar caro”

Fechei os olhos e inspirei fundo.

Não. Aqui ele não me encontraria. Eu só precisava continuar invisível.

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