Quando acordei, o silêncio era outro. Não o silêncio sufocante do furgão, mas um silêncio acolhedor. Abri os olhos devagar, com medo do que encontraria e doeu me mover. Entendi naquele momento que estava no hospital. Um alívio tão grande me atravessou que meus olhos se encheram de lágrimas antes mesmo que eu percebesse.
Virei a cabeça lentamente e parecia que a cena se repetia. Adriano estava ali. Embora a situação fosse outra, ele era sempre o herói que me salvava do perigo.
Adriano se aproximou e segurou minha mão com cuidado. Aquele toque simples desfez algo dentro de mim. Comecei a chorar.
— Você está segura agora — ele disse. — Está tudo bem.
— Eu vi você… — murmurei, tentando organizar os pensamentos.
Ele fechou os olhos por um segundo e respirou.
— Viu, sim — respondeu. — Eu estava lá.
Eu quis saber tudo. Precisava saber.
— A polícia o prendeu? — perguntei com ansiedade.
— Sim.
— Como tudo aconteceu?
Vi no rosto dele que não queria reviver aquilo, nem me fazer reviver. Mas eu insisti, apertando levemente sua mão.
— Por favor...
— Eu cheguei com a polícia — começou. — Chegamos no momento em que ele… — a voz falhou, ele engoliu em seco — …em que ele estava te espancando dentro do furgão.
Fechei os olhos. Uma onda de náusea passou por mim, mas continuei ouvindo.
— A polícia agiu rápido. Tiramos você de lá. Ele foi preso na hora e eu te trouxe direto para cá.
Abri os olhos novamente e encontrei os dele. Ficamos nos encarando sem palavras. Ter Adriano por perto naquele momento me aqueceu por dentro de um jeito estranho, dolorido e bom ao mesmo tempo.
— Tem alguém que precisa falar com você — disse com cuidado.
Antes que eu pudesse perguntar quem, um policial entrou no quarto. Era um homem de meia-idade, expressão séria e olhar respeitoso.
— Boa noite, Marja — disse ele. — Meu nome é Roberto. Vim registrar seu depoimento, se você se sentir em condições.
Olhei para Adriano. Ele assentiu, me apoiando silenciosamente.
— Estou — respondi, apesar do medo que voltou a se insinuar.
O policial se sentou e começou a explicar, com calma, cada passo. Eu contei o que lembrava, desde a festa até o momento em que reconheci a voz de Gino. Cada palavra era difícil, mas necessária. Quando terminei, senti um peso estranho sair do peito.
— Gino está detido — informou o policial. — Já foi encaminhado à delegacia e, após os trâmites legais, será transferido para o presídio.
Minhas mãos tremeram levemente, mas Adriano apertou meus dedos, firme, presente. O policial prosseguiu:
— Gino vinha seguindo os passos da sua amiga Jana há algum tempo — explicou. — Quando soube que ela viria para a fazenda, ele a seguiu. Trouxe um comparsa com ele.
Meu estômago se revirou.


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