ADRIANO
Cheguei em casa com o sol a pino, o estômago reclamando de fome e a cabeça ainda presa em números, contratos e decisões que eu vinha empurrando como quem empilha caixas sem olhar o peso real delas.
Benedita não apareceu sorrindo na varanda como era de costume. Ela surgiu hesitante, esfregando as mãos, o rosto tenso como se carregasse uma notícia que não queria ser a mensageira.
— Seu Adriano… — ela começou, e só o jeito como disse meu nome já me fez parar no meio do passo. — A Cecília tá dormindo desde ontem à noite. Não acordou pra nada. Nem pra comer. E tá quente… quente demais.
Senti um aperto seco no peito, desses que não doem de imediato, mas avisam que algo está fora do lugar.
— Febre? — perguntei, já subindo as escadas antes mesmo da resposta.
— Eu acho que sim. Passei compressa fria, mas ela não reagiu — Benedita me seguia falando ofegante.
O corredor do andar de cima parecia mais longo do que nunca. Empurrei a porta do quarto devagar, como se o barulho pudesse acordar algo pior do que o sono.
Cecília estava encolhida, o rosto avermelhado, os cabelos grudados na testa suada. O peito subia e descia num ritmo pesado, irregular. Aproximei-me da cama e toquei sua testa. Afastei a mão no mesmo instante. Estava quente demais.
— Filha… — chamei baixo.
Ela se mexeu um pouco, um gemido curto escapou dos lábios, mas os olhos não abriram.
Peguei o termômetro na gaveta, com dedos menos firmes do que eu gostaria de admitir. Esperei os segundos mais longos da minha vida. Quando vi o número, senti o chão oscilar sob meus pés.
— Benedita! — chamei alto. — Vou ligar pro Gonçalo.
— Sim, senhor — respondeu ela, obediente. — E que o doutor possa vir logo. A pequena não pode esperar.
O telefone quase escorregou da minha mão. Gonçalo Alcântara atendia sempre rápido, como se estivesse permanentemente à espera de urgências.
— Gonçalo, é o Adriano. Preciso de você aqui. Agora.
— O que houve?
— Cecília está com uma febre muito alta. Ela não reage desde ontem.
— Já estou a caminho — ouvi a voz de Gonçalo finalizando.
Desliguei, sentei-me na beira da cama e segurei a mão pequena da minha filha. Ela apertou meus dedos com força inconsciente, como se soubesse que eu estava ali, mesmo sem acordar.
A espera foi torturante. Cada minuto parecia um julgamento silencioso. Eu tentava racionalizar: crianças ficam doentes, é comum, febres vêm e vão. Só que havia algo diferente, que eu não sabia o que era, mas percebia que não era somente o efeito da febre.
Benedita caminhava para lá e para cá e de repente ela falou:
— Marja faz muita falta. Se ela estivesse aqui já sabia o que fazer; já teria resolvido tudo.
Não sei com que expressão facial olhei para Benedita, mas percebi ela se encolher e baixar a cabeça.
Gonçalo chegou.
— Bom dia, Adriano — ele me cumprimentou com um aperto de mão.
— E então, como essa mocinha está? — perguntou, dirigindo-se à Cecilia.
Observá-lo examinar minha filha foi uma tortura particular. Ele apalpou, ouviu, mediu, fez perguntas que eu respondia automaticamente, sem realmente escutar a mim mesmo.
— Não há sinais claros de infecção — disse por fim, ajeitando os óculos.
— E... — indaguei com ansiedade.
— Os pulmões estão limpos, a garganta está normal. A febre é real, mas… — ele hesitou.
— Mas o quê? — perguntei, talvez ríspido demais.
— Parece doença emocional.
A palavra ficou suspensa no ar como um peso que eu não queria pegar.
— Emocional? — repeti.
— Sim. Acontece mais do que a gente imagina, especialmente com crianças sensíveis. O corpo fala quando a mente não consegue.
Ele me olhou com atenção demais, daquele jeito que médicos fazem quando sabem que estão prestes a tocar num ponto delicado.
— Aconteceu alguma coisa por esses dias? Alguma mudança? Algum choque?
Respondi automaticamente:
— Não!
A palavra saiu limpa, rápida, convincente demais. Vi quando Benedita me olhou, discordando silenciosamente.
Gonçalo assentiu, mas não pareceu totalmente satisfeito.



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