Levantei da cama e segui até o banheiro para fazer minha higiene matinal. Quando voltava para o quarto, ouvi o toque do telefone. Assim que o peguei vi o nome de Adriano e meu coração falhou uma batida.
Fiquei alguns segundos encarando o visor, sentindo uma mistura confusa de medo, expectativa e um fio absurdo de esperança que eu não queria admitir que ainda existia. Pensei em não atender. Pensei em deixar tocar até cair. Pensei em tudo o que eu diria se atendesse… e em tudo o que eu não teria coragem de dizer.
Atendi.
— Adriano…? — falei, num fio de voz que saiu mais frágil do que eu gostaria.
Houve um pequeno silêncio do outro lado. Um ruído leve, como se o telefone tivesse sido apoiado em algum lugar.
— Marja… — disse uma voz feminina, conhecida demais para não doer. — É a Benedita.
— Benedita… — respondi, engolindo em seco. — Aconteceu alguma coisa?
— Marja… — Benedita continuou — o seu Adriano ligou pra você porque… porque a Cecília quer ouvir sua voz.
Eu entendi tudo imediatamente. Ele fez a ligação, ouviu minha voz e não quis falar comigo. Contudo, havia uma questão mais urgente naquele momento.
— A Cecília está bem? — perguntei num sussurro.
— Ela tá deitada, quietinha. Desde ontem. Com febre. O médico já veio. Disse que não é coisa do corpo… — Benedita hesitou. — É coisa do coração.
Fechei os olhos.
— Ela não falou — Benedita disse, como se eu pudesse ter esquecido. — Mas ela pediu do jeitinho dela. Pegou o telefone, abraçou e não soltou. Só sossegou quando ouviu chamar seu nome.
Minha garganta se fechou de vez.
— O telefone tá aqui perto dela — disse Benedita. — Pode falar, Marja. Ela tá ouvindo.
Respirei fundo. Uma, duas, três vezes. Quando falei, minha voz já não era mais firme.
— Oi, meu amor… — comecei, devagar, como se estivesse entrando num lugar sagrado. — Oi, Ceci.
Houve um som do outro lado. Um movimento leve. Um suspiro pequeno.
— Sou eu, tá? A Marja. — Minha voz falhou no meu próprio nome. — Eu sei que você tá dodói… e eu queria muito, muito mesmo estar aí agora.
Engoli o choro que ameaçava sair.
— Você lembra quando a gente fazia aquele jogo de adivinhar as nuvens? — continuei. — Você sempre achava formas que eu nunca via. Eu achava que estava vendo um cavalo, e você… — sorri entre lágrimas — você via um dragão inteiro.
Minha mão tremia segurando o telefone.
— Você é a menina mais forte e inteligente que eu conheço, sabia? Você fala com tudo: com o olhar, com o jeitinho de segurar a mão da gente… com esse coração enorme.
Ouvi um som baixo. Benedita fungou.
— Eu tô com saudade, Ceci — falei, agora sem conseguir segurar o choro. — Muita saudade. Todo dia. Toda hora.
As lágrimas começaram a cair, quentes, desordenadas.
— E eu te amo. Amo demais. Do tamanho do céu inteiro… e um pouco mais.

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