Eu estava sentada no pátio da escola, com as pernas cruzadas sobre o piso morno de sol, observando aquele pequeno círculo que se formava à minha frente.
As crianças estavam acomodadas em roda, algumas inquietas, outras curiosas, todas com os olhos atentos às minhas mãos. Sempre que começava uma aula de Libras ali fora, sentia como se o mundo diminuísse de tamanho, como se nada além daquele espaço existisse. Não havia ruídos que me distraíssem.
Quando o sinal que indicava o fim da aula soou, eles se levantaram aos poucos, alguns me abraçando, outros apenas acenando com as mãos em despedida. Fiquei ali por mais alguns segundos, observando-os se afastarem em pequenos grupos, sentindo uma paz estranha e boa se espalhar dentro de mim.
Trabalhar ali ainda parecia um milagre.
Eu me levantei devagar, sentindo um leve peso nas pernas, algo que atribuí ao tempo sentada no chão. Caminhei em direção ao prédio principal, atravessando o corredor largo que dava acesso à sala dos professores.
Era horário do lanche, e aquele espaço costumava ficar mais animado: cheiro de café fresco, vozes baixas, risadas contidas, o tilintar de xícaras e colheres.
Empurrei a porta com o ombro e entrei.
Elena estava lá, como quase sempre, sentada à mesa comprida perto da janela. Ela folheava uma revista, usando os óculos na ponta do nariz, os cabelos negros presos num coque frouxo. Quando me viu, levantou os olhos e sorriu daquele jeito tranquilo que parecia acolher sem invadir.
— Aula no pátio hoje? — perguntou.
— Sim— concordei, sorrindo de volta. — Foi uma boa experiência hoje. Percebi que eles gostam muito de estar em um espaço maior do que a sala de aula. Ficaram mais atentos… mais do que o normal.
Ela fez um gesto afirmativo com a cabeça, como se aquilo confirmasse algo que já sabia.
Caminhei até o balcão onde ficava a cafeteira. O cheiro do café era intenso, reconfortante. Peguei uma xícara branca, simples, com o nome da instituição impresso em azul.
Enquanto o líquido escuro escorria, senti um leve embrulho no estômago, quase imperceptível. Ignorei. Nos últimos dias, meu corpo parecia reagir a tudo de forma exagerada: cheiros, sons, cansaço. Eu atribuía aquilo à nova rotina, ao acúmulo de emoções, à vida tentando se reorganizar depois de tanto caos.
Levei a xícara até a mesa onde Elena estava e me sentei de frente para ela. Segurei o café com as duas mãos, sentindo o calor atravessar a porcelana. Era um gesto automático, quase um ritual. Soprei de leve antes de levar à boca.
O primeiro gole foi um verdadeiro pesadelo. Assim que o líquido tocou minha língua, um enjoo súbito e violento me atravessou como uma onda. Meu estômago se revirou de forma tão abrupta que não houve tempo para pensar, apenas para reagir.
Coloquei a xícara de volta sobre a mesa com um movimento brusco, levantando-me de um salto.
— Marja? — ouvi a voz de Elena, distante.
Não respondi.
Saí praticamente correndo da sala dos professores, levando a mão à boca, o coração disparado. O corredor pareceu longo demais, estreito demais. Cada passo era uma luta contra o corpo que se rebelava sem aviso. Empurrei a porta do banheiro feminino com força e me inclinei sobre a pia no exato momento em que o enjoo venceu.
Vomitei.
Foi intenso, inesperado, doloroso. Meu corpo se curvava sozinho, como se quisesse expulsar algo que não pertencia ali. Meus olhos lacrimejaram, as mãos tremeram apoiadas na borda fria da pia. O som ecoou alto no banheiro vazio, cruel, impossível de ignorar.
Quando finalmente cessou, fiquei ali, respirando com dificuldade, sentindo o gosto amargo na boca, o estômago vazio e contraído. Abri a torneira com mãos trêmulas, enxaguei a boca, joguei água no rosto.
Meu reflexo no espelho parecia estranho: o rosto pálido, os olhos um pouco fundos, uma expressão que misturava susto e confusão.
Encostei a testa no vidro frio do espelho por um instante. Alguma coisa dentro de mim não estava certa.
Quando retornei para a sala dos professores, Elena levantou os olhos da revista e perguntou:
— Está tudo bem?
— Está sim, obrigada.
Senti o olhar dela demorar sobre mim, me analisando inteira.
E quanto a mim decidi que iria fazer uns exames. Se estava doente era melhor me tratar logo, porque não queria em hipótese alguma, perder aquele emprego.
***
O telefone tocou quando eu estava na cozinha arrumando a mesa para jantar. Quando vi o nome de Jana piscando na tela, meu coração aqueceu.
Atendi no segundo toque.
— Ei, sumida! — eu disse, tentando soar leve.
Do outro lado veio aquela risada que sempre me salvou dos dias ruins.
— Olha quem fala! — ela respondeu.
As palavras me fizeram lembrar dos meus primeiros dias na fazenda.
Houve um pequeno silêncio. A conexão falhou por um segundo, e eu imaginei ela do outro lado do mundo, no enorme e distante Texas, tentando ajustar o fone enquanto caminhava apressada.
— E aí? — perguntei. — Como você está?
Ela suspirou, mas era um suspiro bom.
— Estou bem. Cansada. Mas bem.
— Os estudos estão puxados?
— Muito. Aqui ninguém pega leve. Professores exigem participação o tempo todo. Trabalho em grupo. Debate. Apresentação.
— E você está dando conta.
— Estou… — ela hesitou. — Mas ainda me embaraço às vezes, com o idioma.
— Mesmo?
— Eu começo uma frase confiante e, no meio, esqueço uma palavra. Aí fico gesticulando, inventando sinônimo, misturando português no meio.
Eu sorri. Ela gargalhou. E eu senti o quanto precisava ouvir aquela gargalhada.
— Mas escuta — ela disse, mudando o tom. — Eu tenho uma novidade.
— Me conta logo!
— Eu estou namorando. — Jana falou e suspirou.
— O quê?
— É. Eu sei, eu sei. Você vai dizer que eu sempre disse que não queria namorar ninguém aqui.
— Eu ia dizer isso.
— Pois é. A vida adora me contrariar.
— Quem é ele?
— Ele se chama Dylan. A gente começou estudando junto. Depois café. Depois mais café...
— E agora namoro.
— Agora namoro — Jana repetiu.
Eu ouvi algo diferente na voz dela. Uma maciez.
— Você está feliz?
— Estou. Pela primeira vez… eu acho que estou gostando de alguém de verdade.
— Como assim “de verdade”?
— Não é paixão barulhenta. Não é aquela coisa de provar nada para ninguém. É tranquilo. Eu me sinto confortável. Eu posso falar errado perto dele e ele não ri. Ou ri comigo.


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