Saí da escola naquele dia com a sensação de que algo dentro de mim tinha se deslocado do lugar. Não era apenas o mal-estar físico, nem o constrangimento silencioso de ter passado mal diante de colegas.
Era uma inquietação antiga, insistente, que vinha me acompanhando havia dias, talvez semanas, e que eu vinha empurrando para debaixo do tapete da rotina, fingindo que não existia.
O portão da instituição se fechou atrás de mim com um estalo metálico. Caminhei até a calçada, respirei fundo e chamei um carro de aplicativo. Enquanto aguardava, minha mão foi instintivamente até o ventre. Não havia dor naquele momento, apenas uma estranheza, uma presença silenciosa que eu não sabia explicar.
Durante o trajeto, encostei a cabeça no vidro da janela e observei a cidade passar. Pensei em Adriano, contra minha vontade.
O carro parou em frente ao laboratório de análises clínicas. Desci devagar, paguei a corrida e fiquei alguns segundos parada na calçada, olhando para a fachada branca, limpa, impessoal. Havia dias que eu passava diante daquele lugar e seguia adiante, sempre encontrando uma desculpa: falta de tempo, cansaço, medo. Medo, principalmente.
Entrei.
Fui até o balcão de atendimento, informei meu nome, entreguei os documentos. Sentei-me na cadeira da sala de espera, cruzando as pernas com cuidado. Meus dedos brincavam com a alça da bolsa, abrindo e fechando, abrindo e fechando, num movimento repetitivo. O coração batia forte demais para uma tarde aparentemente tranquila.
Fui chamada pelo meu nome.
Levantei-me e segui a técnica de enfermagem por um corredor estreito. Ela me explicou rapidamente o procedimento, como se eu já não soubesse. Estendi o braço, senti o elástico apertar, a picada da agulha. Observei o sangue escuro escorrendo para o tubo transparente. Era estranho pensar que uma resposta tão grande podia estar contida em algo tão pequeno.
— Pode aguardar alguns minutos na recepção — ela disse, retirando a agulha e colocando um curativo.
Assenti, agradeci e voltei para a sala de espera.
Sentei-me novamente. Agora, o tempo parecia ter desacelerado de propósito. Cada segundo se esticava, pesado. Minha mente corria solta, revisitando sinais que eu havia ignorado: o atraso, o enjoo constante, o cansaço fora do normal, a sensibilidade aos cheiros, a tontura repentina. Tudo se encaixava de forma assustadoramente clara.
Meu nome foi chamado novamente.
Levantei-me com as pernas levemente bambas e caminhei até o balcão. A atendente me entregou um envelope pequeno, fechado. Branco. Simples. Nele estava algo que eu temia e desejava ao mesmo tempo.
— Qualquer dúvida, procure seu médico — ela disse, automática.
Assenti, segurei o envelope com cuidado excessivo, como se ele pudesse se desfazer nas minhas mãos. Afastei-me alguns passos e me sentei numa das cadeiras. Não tive coragem de abrir imediatamente. Minhas mãos tremiam.
Então, com um movimento lento, rasguei a lateral do envelope. Retirei o papel dobrado. Abri. E meus olhos encontraram a palavra que fez o mundo parar.
Positivo.
Por um instante, tudo ficou em silêncio. O laboratório, as pessoas, os sons ao redor desapareceram. Era como se eu estivesse dentro de uma bolha, suspensa no tempo. Meu coração disparou, depois pareceu errar o ritmo, como se não soubesse mais como bater.
Levei a mão à boca.
Grávida.
A palavra ecoava dentro de mim, grande demais, pesada demais. Grávida. Eu aqui, sozinha e grávida.
Uma mistura avassaladora de emoções me invadiu ao mesmo tempo: medo, espanto, incredulidade, uma alegria tímida que eu não me permitia assumir, e uma tristeza funda, quase doída.
Continuei com o papel aberto nas mãos, relendo, como se o resultado pudesse mudar se eu olhasse de novo.
Minha respiração ficou curta. Pensei em tudo o que havia acontecido nos últimos meses: a fuga, a fazenda, Adriano, o amor que nascera no meio do caos, a expulsão, a solidão, o recomeço. Tudo parecia convergir para aquele momento.
Uma vida estava começando dentro de mim.
Fechei os olhos e deixei que as lágrimas corressem livres. Não era um choro alto, nem desesperado. Era silencioso, profundo, carregado de uma aceitação lenta e dolorosa. Havia medo, sim. Um medo imenso. Mas havia também algo novo, quase esquecido: esperança.
Passei a mão pelo ventre ainda plano, num gesto instintivo, protetor. Não sabia como seria o amanhã. Não sabia como enfrentaria o passado, nem se Adriano algum dia saberia. Não sabia como criar uma criança sem o apoio de alguém, nem se estava pronta para isso.
Mas ali, naquele instante, uma certeza se impôs com força inesperada:
Eu não estava mais sozinha.
***
Desci os três degraus da entrada do laboratório com cuidado, como se o chão pudesse se abrir. A rua estava comum — absurdamente comum. Carros passando, uma senhora puxando um carrinho de compras, um rapaz falando alto ao celular.



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