ADRIANO
É tarde da noite e o silêncio da casa pesa mais do que o cansaço do dia. Estou no escritório, a única luz acesa no casarão inteiro.
Assino papéis mecânica e lentamente: notas de compra, relatórios da fazenda, contratos de fornecimento. Coisas práticas, objetivas, que não exigem sentimento. Talvez por isso eu esteja aqui há horas, prolongando tarefas que poderiam ter sido feitas em menos da metade do tempo.
Empurro a última folha para o lado e fecho a pasta com um estalo seco. Acabou. Pelo menos por hoje.
Levanto-me devagar. Apago a luz e fecho a porta. O corredor da sala me espera e meus pés me levam quase por instinto até o armário onde ficam as bebidas. Sinto o impulso incontrolável de abrir, pegar uma garrafa, servir um copo. É automático. Meu corpo pede, minha mente sugere, a memória insiste.
“Só hoje”, uma voz conhecida sussurra dentro de mim. “Você merece. Foi um dia difícil.”
Fecho os olhos por um instante. Sei onde isso termina. Sei exatamente. Garrafa vazia, outra aberta, passos tortos pelo corredor, o gosto amargo na boca pela manhã, a vergonha silenciosa diante dos empregados.
Abro os olhos de novo. Sou eu quem precisa decidir. Estou tentando reconstruir minha vida e enquanto a bebida fizer parte dela não posso seguir em frente.
— Não — digo em voz baixa, quase um sussurro, mas firme.
Viro as costas para o armário antes que a tentação ganhe força. Não vou beber esta noite.
Subo as escadas lentamente.
Quando passo pelo corredor, a porta do quarto de Cecília está, como sempre, apenas encostada. Nunca totalmente fechada. Nunca totalmente aberta.
Reduzo o passo. Empurro a porta devagar, cuidando para não fazer nenhum ruído. O quarto está mergulhado numa penumbra suave, iluminado apenas pela luz do abajur.
Cecília dorme de lado, abraçada ao travesseiro.
Dou alguns passos e me aproximo da cama. Sento-me com cuidado na beirada, sentindo o colchão ceder sob meu peso. Ela não se mexe. Passo a mão de leve pelos cabelos dela, rompendo ali a barreira da distância. Uma distância que se formou logo após o acidente.
Sem perceber, era como se eu estivesse culpando a minha filha por ela estar viva e Antonella e o bebê estarem mortos.
Me deito ao lado de Cecília. O espaço é pequeno, mas não importa. Encolho-me um pouco, viro de lado, ficando de frente para ela. Meu rosto fica na altura do dela.
Sinto um nó subir pela garganta. Não planejei falar nada. Mas as palavras vêm sozinhas, como se estivessem esperando há anos por esse momento.
— Me perdoa, filha — digo em voz baixa, quase um sussurro. — Me perdoa por tudo.
Minha voz falha na última palavra. Engulo em seco e continuo, porque parar agora seria pior.
— Eu sei que não fui o pai que você merecia. Eu sei que me afastei, que fiquei ausente — fecho os olhos por um instante.
Ela se mexe levemente, franze a testa, mas continua dormindo. A mãozinha se aproxima do meu braço, como se mesmo dormindo soubesse que eu estou ali.
— Eu te amo, Cecília. Te amo mais do que qualquer coisa nesse mundo. — Aproximo minha testa da dela. Sinto uma lágrima escorrer pelo canto do olho e cair no travesseiro. Não me importo. Pela primeira vez em muito tempo, não tento ser forte.
— Eu prometo que vou melhorar — continuo. — Prometo que vou tentar de verdade. Por você. Só por você.
Minha mão encontra a dela, pequena, quente. Envolvo seus dedos com cuidado.

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