ADRIANO
— Papai! Hoje vamos andar a cavalo! — a voz da Cecília ecoou pelo corredor antes mesmo de eu terminar de calçar as botas.
Eu estava me esforçando para dar qualidade de vida à minha filha. Dividia o meu dia em partes iguais, sempre a colocando em primeiro plano. Desde que descobri que ela sofria de ansiedade, tentava fazer de tudo para ser um pai melhor e estar com ela o máximo de tempo possível. Me sentia culpado a maioria das vezes por ter perdido tanto tempo escondido dentro de mim mesmo, enquanto deixava uma doença emocional corroer minha pequena.
— Acho que não ouvi direto — brinquei com ela.
Desde que Cecilia havia voltado a falar eu fingia não ouvir o que ela dizia para fazê-la repetir as palavras, as frases. Ouvi novamente a voz da minha filha era um presente.
— Vamos andar a cavalo! — ela repetiu.
Sorri sem perceber. Ela estava parada na porta do quarto, o cabelo castanho cacheado preso com uma fita, os olhos brilhando como se o mundo inteiro coubesse naquelas palavras.
— Cavalo, é? — perguntei, fingindo pensar. — E quem vai montar com o papai hoje?
— Eu! — ela respondeu, inflando o peito, orgulhosa. — Eu sozinha. Igual gente grande.
Ajoelhei diante dela para ajustar o chapéu pequeno demais para tanta determinação.
— Então vamos, gente grande — murmurei.
O sol ainda estava baixo quando chegamos ao curral. O cheiro de terra molhada da noite anterior misturava-se ao capim e ao couro velho das selas. Era um cheiro que sempre me acalmou, mas naquele dia havia algo diferente. Tudo parecia carregado de lembranças.
Coloquei Cecília sobre a sela com cuidado, segurando firme sua cintura.
— Segura aqui — orientei, mostrando as rédeas. — O Faísca é manso, mas gosta de respeito.
— Igual você — ela disse, séria.
Ri baixo.
— Igual eu?
— Uhum. Quando eu faço bagunça, você fala sério. Quando eu faço certo, você sorri — explicou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Começamos a andar devagar pelo caminho que contornava o pomar. As árvores estavam carregadas, as folhas brilhando ao sol da manhã. Cecília balançava levemente no ritmo do cavalo, cantarolando algo sem sentido.
— Papai? — ela chamou depois de um tempo.
— Oi, meu amor.
— Marja gostava daqui — disse, apontando para as macieiras. — Ela falava que as árvores conversam.
Meu peito apertou.
— Conversam?
— Conversam quando o vento passa — ela explicou. — Marja falava assim: “Escuta, Cecília. Elas estão contando segredos”.
Fechei os olhos por um segundo. A voz de Marja parecia viva demais dentro da minha cabeça.
— E você escutava? — perguntei.
— Escutava! — Cecília riu. — Mas eu só entendia quando Marja traduzia.
Seguimos em silêncio por alguns metros. Eu queria responder algo, qualquer coisa, mas não sabia como tocar naquele nome sem desmontar por dentro.
— Papai… — ela insistiu.
— Diz.
— Eu brincava com Marja de esconderijo no pomar.
— Era mesmo?
— Marja sempre deixava eu ganhar — Cecília disse, com uma pontinha de indignação. — Eu achava que era porque eu era mais esperta do que ela, mas agora acho que era porque ela era boazinha.
Soltei um suspiro pesado.
— Ela era, sim.
— Muito — Cecília concordou. — Ela fazia vozes engraçadas. Como a voz do coelho que falava errado.
Sorri, apesar da dor da saudade.
— Era mesmo?
Cada lembrança era como uma faca lenta. Não cortava de uma vez. Ia fundo aos poucos.
— Papai… — a voz dela saiu mais baixa agora. — A casa ficou quieta sem ela.
Olhei para minha filha.
— Muito quieta — completou. — Antes tinha risada. Agora só tem barulho de gente séria trabalhando.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO