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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 95

ADRIANO

— Papai! Hoje vamos andar a cavalo! — a voz da Cecília ecoou pelo corredor antes mesmo de eu terminar de calçar as botas.

Eu estava me esforçando para dar qualidade de vida à minha filha. Dividia o meu dia em partes iguais, sempre a colocando em primeiro plano. Desde que descobri que ela sofria de ansiedade, tentava fazer de tudo para ser um pai melhor e estar com ela o máximo de tempo possível. Me sentia culpado a maioria das vezes por ter perdido tanto tempo escondido dentro de mim mesmo, enquanto deixava uma doença emocional corroer minha pequena.

— Acho que não ouvi direto — brinquei com ela.

Desde que Cecilia havia voltado a falar eu fingia não ouvir o que ela dizia para fazê-la repetir as palavras, as frases. Ouvi novamente a voz da minha filha era um presente.

— Vamos andar a cavalo! — ela repetiu.

Sorri sem perceber. Ela estava parada na porta do quarto, o cabelo castanho cacheado preso com uma fita, os olhos brilhando como se o mundo inteiro coubesse naquelas palavras.

— Cavalo, é? — perguntei, fingindo pensar. — E quem vai montar com o papai hoje?

— Eu! — ela respondeu, inflando o peito, orgulhosa. — Eu sozinha. Igual gente grande.

Ajoelhei diante dela para ajustar o chapéu pequeno demais para tanta determinação.

— Então vamos, gente grande — murmurei.

O sol ainda estava baixo quando chegamos ao curral. O cheiro de terra molhada da noite anterior misturava-se ao capim e ao couro velho das selas. Era um cheiro que sempre me acalmou, mas naquele dia havia algo diferente. Tudo parecia carregado de lembranças.

Coloquei Cecília sobre a sela com cuidado, segurando firme sua cintura.

— Segura aqui — orientei, mostrando as rédeas. — O Faísca é manso, mas gosta de respeito.

— Igual você — ela disse, séria.

Ri baixo.

— Igual eu?

— Uhum. Quando eu faço bagunça, você fala sério. Quando eu faço certo, você sorri — explicou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Começamos a andar devagar pelo caminho que contornava o pomar. As árvores estavam carregadas, as folhas brilhando ao sol da manhã. Cecília balançava levemente no ritmo do cavalo, cantarolando algo sem sentido.

— Papai? — ela chamou depois de um tempo.

— Oi, meu amor.

— Marja gostava daqui — disse, apontando para as macieiras. — Ela falava que as árvores conversam.

Meu peito apertou.

— Conversam?

— Conversam quando o vento passa — ela explicou. — Marja falava assim: “Escuta, Cecília. Elas estão contando segredos”.

Fechei os olhos por um segundo. A voz de Marja parecia viva demais dentro da minha cabeça.

— E você escutava? — perguntei.

— Escutava! — Cecília riu. — Mas eu só entendia quando Marja traduzia.

Seguimos em silêncio por alguns metros. Eu queria responder algo, qualquer coisa, mas não sabia como tocar naquele nome sem desmontar por dentro.

— Papai… — ela insistiu.

— Diz.

— Eu brincava com Marja de esconderijo no pomar.

— Era mesmo?

— Marja sempre deixava eu ganhar — Cecília disse, com uma pontinha de indignação. — Eu achava que era porque eu era mais esperta do que ela, mas agora acho que era porque ela era boazinha.

Soltei um suspiro pesado.

— Ela era, sim.

— Muito — Cecília concordou. — Ela fazia vozes engraçadas. Como a voz do coelho que falava errado.

Sorri, apesar da dor da saudade.

— Era mesmo?

Cada lembrança era como uma faca lenta. Não cortava de uma vez. Ia fundo aos poucos.

— Papai… — a voz dela saiu mais baixa agora. — A casa ficou quieta sem ela.

Olhei para minha filha.

— Muito quieta — completou. — Antes tinha risada. Agora só tem barulho de gente séria trabalhando.

Capitulo- 95 1

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