ADRIANO
Entrei na clínica com aquele passo que a gente aprende a controlar quando não quer demonstrar nada. Cecília apertava minha mão com força. Não olhava para frente, não olhava para os lados. O olhar dela ficava preso em algum ponto invisível, como se o mundo ao redor fosse barulho demais.
A psicóloga veio nos receber com um sorriso treinado, gentil, desses que não invadem, apenas aguardam.
— Bom dia, Cecília — disse ela, se abaixando à altura da minha filha.
Cecília não respondeu. Ela ainda não conseguia falar com estranhos e eu não a pressionava. Eu tinha aprendido que o silêncio dela era proteção.
Beijei a testa da minha filha, sentindo aquele cheiro que ainda era de infância.
— Papai espera aqui — murmurei, ao sentir a ansiedade dela.
Ela soltou minha mão devagar, como quem solta algo precioso com medo de não reencontrar. A psicóloga fez um gesto suave, e as duas seguiram pelo corredor. Fiquei parado alguns segundos a mais do que o necessário, olhando até Cecília desaparecer na curva do corredor. Sempre era assim. Toda vez parecia a primeira. Toda vez parecia uma despedida grande demais para algo que duraria só uma hora.
Sentei na recepção.
As cadeiras eram confortáveis demais. Daquelas que convidam a ficar, a esperar, a pensar. E pensar era exatamente o que eu menos queria. Cruzei as mãos, observei as pessoas entrando e saindo, cada uma carregando seu próprio peso invisível. Ali ninguém estava inteiro. Ninguém vinha por acaso.
Foi então que ouvi meu nome.
— Adriano, como vai? Você sumiu. Estamos sentindo sua falta.
Levantei o rosto devagar. Reconheci antes mesmo de confirmar. A voz tinha aquele tom firme, seguro, de quem já viu gente demais cair e levantar — e cair de novo.
— Como vai, Armando? — respondi, levantando-me.
Apertamos as mãos. O aperto dele era forte, honesto, sem exagero. Armando estava um pouco mais grisalho do que da última vez que o vi, mas os olhos continuavam os mesmos: atentos, perscrutadores, como se estivessem sempre avaliando o que não era dito.
— Faz tempo — ele comentou, com um meio sorriso. — Pensei que tinha resolvido desaparecer de vez.
— A vida… — comecei, depois parei. — A vida foi acontecendo.
Ele assentiu, como se entendesse exatamente o que isso significava. Porque entendia. Armando não era do tipo que precisava de explicações longas. Ele trabalhava com silêncios, com pausas, com recaídas. Com gente como eu.
— Está aguardando alguém? — perguntou, olhando em volta.
— Minha filha — respondi. — Sessão com a psicóloga.
Os olhos dele suavizaram.
— Cecília, não é?
— É.
— Como ela está?
Respirei fundo antes de responder. A verdade nunca era simples.
— É um pouco complicado. Às vezes ela parece melhorar, outras vezes não. O emocional dela é sempre instável.
— Bom te ver, Adriano — Armando disse, de repente.
Armando era bom nisso também: saber a hora exata de se retirar.
Levantou-se, ajeitou o paletó, e antes de se afastar colocou a mão no meu ombro. Um gesto simples, mas carregado de significado.
— Teremos reunião hoje à tarde — disse, olhando direto nos meus olhos. — Aparece lá.
Não foi um convite qualquer. Foi um lembrete de que eu precisava voltar a tentar. Foi um chamado. Uma porta entreaberta.
Antes que eu respondesse, ele já se afastava pelo corredor, misturando-se às outras pessoas, às outras histórias.
Fiquei ali, parado por alguns segundos, sentindo o peso daquela frase cair sobre mim.
“Aparece lá.”
Como se fosse simples assim. Como se bastasse levantar e ir. Como se eu não estivesse o tempo todo lutando contra as partes de mim que preferiam ficar.
Olhei em direção ao corredor por onde Cecília tinha ido. Pensei nela. Pensei no que eu devia a ela. Pensei no que devia a mim mesmo.
E considerei verdadeiramente a possibilidade de voltar ao Centro de Reabilitação.
***

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