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A BABÁ E O FAZENDEIRO VIÚVO romance Capítulo 98

ADRIANO

Entrei no Centro de Reabilitação exatamente às quatro da tarde. Nem um minuto antes, nem um depois. Olhei para o relógio no pulso como se aquilo fosse um sinal, uma espécie de compromisso silencioso comigo mesmo. O prédio continuava o mesmo: discreto demais para quem passava pela rua, quase invisível, como se não quisesse ser encontrado. Talvez fosse isso. Ninguém vinha ali porque queria. Vinha porque precisava.

Empurrei a porta de vidro e fui recebido por aquele silêncio peculiar, quebrado apenas por passos distantes e vozes baixas. O corredor parecia mais longo do que eu lembrava. Ou talvez eu estivesse andando mais devagar. Cada passo ecoava dentro de mim com um peso diferente do que havia sido da última vez.

Enquanto caminhava, flashes do passado insistiam em surgir. Lembrei das primeiras semanas de tratamento. Do entusiasmo falso, da sensação enganosa de controle. Eu entrava ali, sentava, ouvia, balançava a cabeça como quem entende — e entendia, sim — mas, ao sair, parava no primeiro bar discreto do caminho.

Um copo. Depois outro. “Só hoje”, eu dizia. “Amanhã eu tento de novo.” Amanhã virava semana. A semana virava desistência. Até que parei de ir. Mais fácil não encarar do que admitir o fracasso.

Parei diante da porta da sala grande. Respirei fundo antes de entrar. O ar parecia mais pesado ali dentro, carregado de histórias que não cabiam em palavras simples. As cadeiras estavam dispostas em círculo, como sempre. Um círculo honesto, sem hierarquias, sem esconderijos. Ou se entrava nele por inteiro, ou não entrava.

Havia cerca de doze pessoas. Homens e mulheres de idades diferentes, rostos marcados de formas diferentes também. Alguns eu reconheci. Outros eram novos. Todos tinham algo em comum: o álcool tinha atravessado suas vidas como um trator sem freio.

Armando estava lá.

Quando me viu, levantou-se imediatamente. Veio em minha direção com aquele jeito firme e tranquilo que sempre me desarmou. Apertou minha mão com força.

— Que bom que você veio, Adriano — disse baixo, para que só eu ouvisse.

Assenti. Não confiei na minha voz ainda.

Escolhi uma cadeira qualquer e me sentei. As mãos apoiadas nos joelhos. O corpo um pouco rígido. O coração acelerado.

Armando retomou a condução do grupo, como se minha presença fosse apenas mais um detalhe — e era. Ali ninguém era mais importante que ninguém.

As falas começaram.

Uma mulher contou sobre o casamento perdido, sobre acordar sem lembrar onde estava, sobre o dia em que o filho pequeno pediu para ela parar de beber. A voz dela tremia, mas não quebrava. Um homem falou da demissão, do orgulho ferido, da vergonha de ser visto caído na calçada. Outro falou da recaída recente, da culpa esmagadora, da dificuldade de recomeçar.

Eu ouvia tudo. Absorvia tudo.

Cada palavra parecia encontrar um lugar dentro de mim. Eu me via em cada história, mesmo quando os detalhes eram diferentes. A negação. A raiva. O medo. A solidão. O álcool como anestesia e veneno ao mesmo tempo.

Desde a primeira vez que pisei ali, eu só tinha feito isso: ouvir. Nunca falei. Nunca tive coragem. Dizer em voz alta parecia definitivo demais. Parecia dar nome a um monstro que eu preferia fingir que não existia. Eu era um homem forte, um fazendeiro respeitado, um pai. Como poderia ser também um alcoólatra?

Mas a verdade não muda só porque a gente se recusa a dizê-la.

Um homem baixinho e gordo terminou de falar. Ele enxugou o suor da testa, respirou fundo e sentou. Houve aquele breve silêncio que sempre vinha depois de um depoimento forte. Armando olhou ao redor, esperando.

E, antes que eu pudesse pensar melhor, minha mão se levantou.

Senti um frio atravessar minha espinha no mesmo instante. Meu coração disparou. Pensei em desistir, abaixar a mão, fingir que nada tinha acontecido. Mas já era tarde. Armando me olhava. Algumas pessoas também.

Capitulo- 98 1

Capitulo- 98 2

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