Valéria simplesmente apareceu sem avisar, o que, se tratando dela, já era o esperado.
Quando ouvi a campainha tocar na mansão, fui até a porta atender e lá estava ela.
— Posso entrar? — perguntou.
Fiz um gesto pra que entrasse e me afastei da porta.
Já sentadas no sofá da sala, Valéria disse sem cerimônias:
— Não vou entrar com o recurso.
Fiquei sem ter o que dizer, surpresa.
— O processo acabou — ela continuou. — A guarda é do Vinícius e eu vou cumprir o acordo de visitas que ficou combinado.
— Certo — disse com cuidado, pra não começar alguma guerra por causa de alguma palavra atravessada.
Mas Valéria não parecia armada dessa vez.
Me olhou pela primeira vez de forma cálida.
— Ele mudou — ela disse. — O Vinícius. Eu praticamente vi ele crescer e pode não parecer, mas gosto dele.
Ela parou um pouco, ajeitando o tecido do vestido e olhando pra baixo.
Depois de alguns segundos, voltou a olhar pra mim.
— Eu tinha grandes expectativas quando minha filha se apaixonou por ele. E mais ainda quando engravidou. Mas ele não a amava.
Valéria fez uma pausa maior dessa vez.
Percebi que estava tentando não deixar as emoções tomarem conta, manter a pose de durona.
Quando sentiu que estava forte o bastante pra continuar, ouvi sua voz de novo:
— Quando Marcela descobriu a doença, eu esperei muito do Vinícius. Pensei que ele tivesse a obrigação de estar com ela, mesmo não sendo o marido da minha filha. É que ela o amava. Desde sempre. Desde pequena. E parecia injusto que ela sofresse tanto sem ele ao lado.
Ela suspirou.
— Mas assim foi.
— Valéria, eu sinto muito.
Tentei reconfortá-la, colocando minha mão sobre a dela.
Sentadas lado a lado, temi que tivesse estragado tudo com aquele gesto, porque ela franziu as sobrancelhas.
Mas logo em seguida apertou minha mão, apreciando o contato.
— Foi erro meu. Eu esperei algo dele que não era recíproco.
Valéria me olhou com seriedade, como se estivesse prestes a contar um segredo importante.
— Ele mudou. Você foi a responsável. Não sei o que aconteceu entre vocês, mas o Vinícius de hoje é o Vinícius que eu sempre quis que ele se tornasse. Eu sabia que ele tinha muito amor pra dar e que podia ser um ótimo pai.
Concordei com a cabeça.
— Sei que o Thales vai estar em boas mãos — ela continuou. — Com o pai e com você.
Fez uma pausa.
— E eu te respeito por isso.
Valéria concluiu:
— Isso não quer dizer que a gente vai tomar café juntas, nem que vou ser sua amiga agora.
— Não se preocupe, eu entendi — respondi, achando graça.
O que também arrancou um pequeno sorriso dela.
*
Tinha fila na calçada.
Fiquei parada na esquina, meio sem reação.
A lanchonete do meu pai estava irreconhecível.
E, quando digo isso, é um baita elogio, porque agora realmente parecia uma lanchonete.
Mais do que isso, a entrada tinha ficado tão profissional que daria inveja a qualquer rede de fast-food por aí.
Ainda assim, eu conseguia enxergar a personalidade do meu pai.
O prédio era todo preto, com luzes de LED vermelhas, janelas grandes de blindex e um letreiro lindo numa fachada com o logo — um hambúrguer mordido no "o" de Ernesto.
Hamburgueria do Ernesto brilhava em luzes de neon.
Lá dentro estava ainda mais lindo.


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