A semana não poderia estar pior para Marina Gomes.
Primeiro, o motor do carro - uma caminhonete que viu seus melhores anos nos anos 80 - quebrou de vez. O mecânico foi claro: "Só um milagre, mocinha". Depois, o ônibus para a universidade passou lotado três vezes seguidas, deixando-a na calçada com a mochila pesada e a paciência esgotada. E agora, já atrasada para a prova de Química Orgânica, ela corria pela calçada estreita da Avenida das Essências como se o diabo estivesse atrás.
Trinta minutos. Eu preciso de trinta minutos. Se eu conseguir falar com o professor antes...
Ela fez a curva sem olhar.
O erro foi fatal.
O som da buzina foi o primeiro sinal - um estridente alarme que perfurou sua distração. O segundo foi o vento cortando seu rosto quando ela pulou para trás, desequilibrando-se e caindo de bunda no meio-fio. A bolsa - uma ecobag surrada - se abriu, fazendo seus papéis voarem, os livros caírem para fora e a maçã, seu lanche, rolar calmamente pelo asfalto.
O carro, um sedã preto brilhante, daqueles que custam mais que o apartamento dos seus pais, parou a centímetros de suas pernas.
Marina ficou imóvel, o coração disparado, sentindo o cheiro de pneu queimado e o próprio desespero subindo pela garganta.
A porta do motorista se abriu.
Um senhor de meia-idade, uniforme impecável, aproximou-se com pressa.
- A senhorita está bem?
- Eu… você quase passou por cima de mim? - Marina se levantou num ímpeto, a adrenalina transformando o medo em fúria. - O senhor não sabe dirigir, não?
O motorista piscou, surpreso.
- Como assim?
- A faixa! - ela apontou para o chão, onde as listras brancas ainda estavam visíveis. - Eu estava na faixa de pedestre! O senhor tem obrigação de parar!
- Mas a senhorita estava correndo...
- Correndo ou não, a preferência é minha! Isso é o básico do código de trânsito!
O homem hesitou, claramente sem saber como responder. Enfiou a mão no bolso e tirou várias cédulas de cem reais, colocando-as nas mãos dela que antes gesticulavam mostrando a faixa.
- Olha, me desculpe o transtorno. Toma aqui para o susto…
Marina arregalou os olhos.
- O senhor está tentando me pagar?
- É só para...
- Eu não quero seu dinheiro! Eu quero...
Ela nem terminou a frase. O vidro traseiro escuro do carro desceu lentamente, e uma voz grave cortou o ar como uma lâmina.
- Sr. Jorge. Resolva isso rápido. Estamos atrasados.
Marina sentiu um arrepio percorrer a espinha. Não pelo que a voz disse, mas pelo tom. Frio. Autoritário. Como se ela fosse um inseto atrapalhando o caminho de gente importante.
O motorista se inclinou na direção da janela, visivelmente pressionado.
- Senhor, a moça está na faixa de pedestre...
- Não me importa quem está onde. Resolva.
O sangue ferveu nas veias de Marina.
Ela não sabia quem era o dono daquela voz. Não sabia de onde ele tinha vindo. Mas sabia, com uma certeza absoluta, que nunca tinha odiado tanto alguém em tão pouco tempo.
O motorista se virou para ela, já puxando mais notas da carteira.
- Moça, por favor, aceite isso aqui. Meu chefe está com muita pressa...
Marina não respondeu. Não ao motorista.
Ela deu a volta no carro, ignorou o olhar de pânico do homem, e parou em frente à janela aberta.
E lá estava ele.
Um homem que mais parecia uma escultura - trinta anos, no máximo, ela calculou - sentado no banco de couro como se o carro fosse seu trono particular. Terno escuro, cabelos castanhos meticulosamente penteados, olhos verdes que a examinavam com uma frieza que a fez estremecer.
Mas ela não recuou.
- Então é você - ela disparou. - O grande chefe que não pode esperar cinco minutos porque o mundo vai acabar se ele chegar atrasado na reunião.
Ele ergueu uma sobrancelha. A primeira reação que demonstrava.
- A senhorita está bem, como posso ver. Não houve danos. Por que o escândalo?
- Escândalo? - Marina quase riu. - Você quase me matou!
- Meu motorista quase te atropelou - ele corrigiu, com uma calma infuriante - porque você entrou correndo na frente. E você está viva. Respire. Pense. Siga em frente.
Marina sentiu a fúria subir pela nuca como fogo.
- Isso é sério para você? Minha vida é só um inconveniente no seu dia?
Ele a encarou por um longo segundo.
Depois, para sua surpresa, seus lábios se curvaram, não em um sorriso, mas em algo próximo de uma curiosidade irritada.
Ele tirou a carteira do bolso interno do paletó, retirou um cartão e o estendeu para ela.
- Meu contato. Se tiver algum problema de saúde por conta do susto, me procure.
- Não vou precisar.
- Guarde mesmo assim.
Marina hesitou.
- Não vou usar.
- Guarde.
Ela pegou o cartão apenas para provar que não tinha medo.
Gustavo Ricci
Gerente Geral Essência Cosméticos
Ele subiu o vidro.
O carro partiu. Uma das rodas passou por cima da maçã que ficara esquecida no asfalto, explodindo a fruta em um estalo seco.
Marina ficou parada na calçada, segurando o cartão como se fosse uma bomba.
- Seu arrogante - ela sussurrou.
O cartão foi para o bolso. Não porque ela pretendesse usá-lo. Mas porque, de alguma forma, jogá-lo fora parecia uma admissão de derrota.
E Marina não estava pronta para perder.
Na volta para casa, depois de perder a prova (e passar a tarde inteira remoendo o episódio), Marina jogou o cartão na gaveta de tralhas e tentou esquecer.
Claro que não conseguiu.
O rosto do homem - os olhos verdes, a arrogância, o terno impecável - a perseguiu durante o jantar, durante o banho, durante a noite mal dormida.
Quem ele pensa que é?
Ela não sabia.
Mas, por algum motivo, tinha a sensação incômoda de que descobriria.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor
A história é boa, pena que hoje em dias, autores usem a IA para criar os enredos. Frases e modelo de escrita que estão saturadas. A gente lê e já sabe que houve uso da IA. Está difícil achar alguém que não use. Esses dias li uma história da Amazon, chamada "Um ponto de partida" da Jay Roslyn e do começo ao fim, fui lendo e dizendo pra mim mesma "se tiver indícios de IA, nem leio mais. Mas não tinha até pq quando a autora escreveu, era 2018. Pensa em como fiquei feliz por algo tão natural e bem elaborado. Essa daqui também está natural, mas infelizmente, os vícios de linguagem da IA, estão presentes. No mais, eu até que gostei bastante....
Também não consegui lê os últimos capítulos inteiros, mais amei a história, e o final, não teve enrolação! Parabéns pra quem escreveu 👏🏼...
Eu amei o livro, a plataforma não cobra em real?!Fiquei sem o ultimo capitulo, mas gostei muito da história....