A chuva fina que caía sobre Lisboa naquela manhã de quarta-feira parecia lavar não apenas as ruas de paralelepípedos, mas também as últimas resistências de Vivian. Desde o beijo no saguão três dias antes, algo fundamental havia mudado entre eles - um limiar cruzado, uma barreira derrubada. Agora, quando ela olhava para Eduardo, não via mais apenas o perseguidor incômodo, mas o homem cujos lábios ainda sentia nos seus nas horas quietas da noite.
Sentada à mesa de sua pequena varanda com vista para o Tejo, Vivian organizava mentalmente os detalhes da viagem a Madri. A exposição "Arte y Rebeldía" no Museu Reina Sofía era uma oportunidade única - não apenas para a galeria, mas para ela. Matheus praticamente a implorou para ir, vendo naquilo a chance de estabelecer contatos europeus que poderiam alavancar a carreira de ambos.
- Dois dias - ele dissera na ligação na noite anterior. - Vai, aproveita, faça bons contatos. E, Vivian... - sua voz baixara, - não se preocupe com nada aqui. A galeria está em boas mãos.
Ela sabia o que ele não dizia - que estava torcendo para que ela vivesse algo além do trabalho, que encontrasse em Madri não apenas arte, mas um pedaço de si mesma que deixara para trás.
A mala aberta na cama testemunhava sua indecisão interna. Roupas profissionais para as reuniões, sim, mas também um vestido fluido que dançava ao redor de suas pernas quando ela se movia - um presente de Alice "para emergências românticas", como dissera com uma risada. Vivian ainda não decidira se o vestiria.
O toque na porta a fez saltar. Não era o som suave do vizinho do lado - era sua própria porta. Ao abrir, encontrou Eduardo no corredor, segurando dois copos de café e com um jornal português sob o braço.
- Bom dia - cumprimentou, estendendo um dos copos. - Trouxe café. Do lugar que você gosta aqui na esquina.
Ela aceitou o copo, sentindo o calor reconfortante. - Obrigada. Você não precisava...
- Eu sei - ele interrompeu suavemente. - Mas quis.
Seus olhos encontraram os dela, e o ar entre eles pareceu carregar o peso do beijo não mencionado. Nos últimos dias, haviam compartilhado cafés, refeições, caminhadas - sempre com essa nova tensão pairando, sempre com essa pergunta não respondida: o que aquele beijo significava?
- Então - ele começou, apoiando-se na ombreira da porta. - Madri.
Ela ergueu uma sobrancelha. - Como você...?
- Alice me mandou uma mensagem - ele admitiu, parecendo ligeiramente constrangido. - Disse que se eu fosse "incomodá-la" de qualquer maneira, que pelo menos me certificasse de que você não dirigisse cansada.
Vivian não soube se ficou irritada ou comovida. - Ela não devia...
- Ela se preocupa com você - Eduardo completou seu pensamento. - Todos se preocupam.
Ela tomou um gole de café, ganhando tempo. A verdade era que a perspectiva de dirigir sozinha por seis horas até Madri a assustava um pouco. A Espanha era terra desconhecida, suas estradas um mistério.
- Já aluguei um carro - ela disse, mais para convencer a si mesma do que a ele. - E reservei um hotel.
- Cancele - a resposta foi simples, direta. - Eu também aluguei um carro. Um BMW Série 5 - ele viu sua expressão e completou rapidamente: - com todos os sistemas de segurança, espaço suficiente para suas pastas, e fará o trajeto em cinco horas em vez de seis.
- Eduardo...
- Ouça - ele se inclinou para frente, sua voz baixa e séria. - Deixe-me levá-la. Não como seu ex-marido, não como seu perseguidor. Como... seu assistente temporário. Seu motorista. O carregador de suas pastas.
O absurdo da situação quase a fez rir. Eduardo Braga, um dos homens mais ricos do Brasil, oferecendo-se como seu motorista particular.
- Por que? - ela perguntou, genuinamente curiosa.
- Porque nos últimos dias - ele disse, seus olhos fixos nos dela, - percebi que as únicas horas em que me sinto completamente vivo são aquelas que passo ao seu lado. E a ideia de você dirigir sozinha por estradas desconhecidas... me aterroriza.
Havia uma honestidade crua em suas palavras que desarmou suas defesas. Nos velhos tempos, ele nunca teria admitido medo - muito menos teria admitido que algo o aterrorizava.
- Preciso pensar - ela disse, recuando para o apartamento.
- Tudo bem, saímos depois do almoço? Tenho uma reunião antes disso.
- Eu disse que ia pensar - Ela retrucou.
- Eu vou de qualquer forma, melhor economizarmos gasolina, você sabe o planeta agradece. - Ele saiu satisfeito.
A porta fechada não trouxe a clareza que Vivian esperava. Pelo contrário - cada argumento contra a ideia parecia fraco quando confrontado com a imagem de Eduardo como seu motorista particular. A praticidade da oferta era inegável, mas era a vulnerabilidade dele que a comovia.
Vivian bateu à porta no horário do almoço, equilibrando um pote de salada e outro com peixe grelhado.
Eduardo abriu, surpreso, o aroma discreto da comida misturando-se ao ar frio do ar-condicionado.
- Você já almoçou? - ela disse, levantando as embalagens.
Ele deu um meio sorriso e fez um gesto para que ela entrasse. A sala de jantar se transformara em um pequeno escritório improvisado: duas telas enormes exibiam gráficos e contratos, papéis espalhados ao redor do notebook.
- Você, como sempre, meu anjo salvador - ele murmurou, e o estômago roncou alto, confirmando as palavras.
Vivian riu baixo, balançando a cabeça.
- Certo, vim pra discutir a viagem. - Ela pousou os potes na mesa e cruzou os braços. - Você pode me levar. Mas sob as minhas condições.
Seus olhos brilhando. - Quais condições?
- Você dirige - ela começou, contando nos dedos. - Nada de música alta. Paradas a cada duas horas. E absolutamente, definitivamente, nenhuma tentativa de... bem, de nada.
- "Nada" sendo...? - ele perguntou, um sobrolho levemente arqueado.
- Você sabe o que quero dizer - ela respondeu, sentindo seu rosto corar.
- Condições aceitas - ele disse solemnemente. - Embora deva dizer que "nada" cobre um território bastante amplo. Podemos pelo menos conversar?
- Conversa é permitida - ela concedeu. - Agora me deixe terminar de arrumar as malas. Partimos em uma hora.
O sorriso que iluminou seu rosto foi tão genuíno, tão desarmante, que ela precisou fechar a porta rapidamente antes que mudasse de ideia.
Uma hora depois, o BMW prateado esperava na frente do prédio, suas linhas elegantes parecendo um tanto deslocadas na rua estreita do Príncipe Real. Eduardo carregou as malas colocando no porta-malas com uma eficiência que sugeria que ele realmente levava a sério o papel de "assistente temporário".
- Você trouxe apenas isso? - ela perguntou, observando a pequena bagagem dele.
- Aprendi a viajar leve - ele respondeu, abrindo a porta do passageiro para ela. - Recentemente.
A estrada para a Espanha revelou-se mais bonita do que Vivian imaginara. Depois de atravessar a ponte sobre o Tejo, encontraram-se em estradas que serpenteavam através de colinas cobertas de oliveiras e vinhas, o sol de verão pintando tudo com uma luz dourada.
Nos primeiros cinquenta quilômetros, reinou um silêncio tenso. Vivian olhava pela janela, consciente de cada movimento de Eduardo - as mãos firmes no volante, o jeito como seus olhos escaneavam a estrada, até mesmo sua respiração calma e medida.
- Está confortável? - ele perguntou depois de um tempo. - Posso ajustar o assento...
- Estou bem - ela interrompeu, mais bruscamente do que pretendia.
- Certo - ele disse, e o silêncio retornou.
Foi apenas quando cruzaram a fronteira para a Espanha - um marco quase imperceptível se não fosse pela mudança na sinalização - que a tensão começou a diminuir.
- Lembra daquela vez que dirigimos para Paraty? - Eduardo perguntou, sua voz suave quebrando o silêncio.
A memória atingiu Vivian com força total - um fim de semana espontâneo no início do casamento, foi o mais próximo de uma lua de mel que eles tiveram. Tinham pegado a estrada sem destino certo, encontrando uma pousada à beira-mar onde passaram dois dias rindo, amando, sendo apenas eles mesmos.
- Lembro - disse ela, a voz mais suave, tingida de nostalgia. - Eu insisti em parar em cada barraquinha de beira de estrada.
- E você me deu essa pulseira. - Ele ergueu o braço, exibindo as sementes polidas que, ao lado do relógio caríssimo, formavam um contraste quase simbólico. Um hábito tão antigo que ele já nem percebia mais que ainda a usava.
Vivian deu de ombros, um pequeno sorriso triste curvando os lábios. Aquelas contas eram um lembrete silencioso de que, apesar de tudo, nem tudo entre eles havia sido ruim.
Na primeira parada, em Badajoz, encontraram um pequeno café que servia churros com chocolate quente tão espesso que quase precisava ser comido com colher. Sentados em mesas de metal na calçada, com o sol aquecendo seus rostos, pela primeira vez desde que deixaram Lisboa, a conversa fluiu facilmente.
- Me conta sobre a exposição.
- É sobre artistas que desafiaram regimes políticos - ela explicou, animando-se. - Desde a Guerra Civil Espanhola até os movimentos de resistência contemporâneos. Há uma peça - um diário bordado de uma artista chilena durante a ditadura - que Matheus acha que poderíamos trazer para o Brasil.
- Bordado? - ele pareceu intrigado.
- Ela não tinha acesso a materiais de arte - Vivian explicou, seus olhos brilhando com entusiasmo. - Então usou linhas e agulhas para documentar a resistência. É... comovente. E poderoso.
Ele a observou enquanto ela falava, uma expressão suave em seu rosto que ela não via há anos. - Você ama isso, não é? Esse trabalho.
- Amo - ela admitiu, surpresa por quão facilmente a confissão saiu. - É... real. Tangível. Diferente de...
- Diferente de relatórios financeiros e reuniões de diretoria - ele completou. Pela primeira vez, sua voz não trazia amargura, apenas compreensão.
- Algo assim. - Ela sorriu, leve. - Eu ainda gosto dos relatórios, dos números e de todo o resto, mas ver tudo isso se transformar em algo real... é incrível. Gostei de estar envolvida em todo o processo.
De volta ao carro, a atmosfera havia mudado. O silêncio não era mais tenso, mas contemplativo. Vivian observava a paisagem espanhola passar - as fazendas brancas cintilando ao sol, os rebanhos de ovelhas pontilhando as colinas, os pequenos pueblos que pareciam presos no tempo.
Foi então que ela notou - realmente notou - as mãos de Eduardo no volante. Como seguravam com confiança, mas sem tensão. Como seus dedos batiam levemente no couro no ritmo da música suave que agora tocava no rádio - algo clássico e instrumental, nada do que ele costumava ouvir.
- Você mudou sua playlist - ela comentou.
Ele pareceu surpreso. - Você se lembra da minha playlist?
- Lembro de você ouvindo aquela banda de rock agressivo o tempo todo - ela disse. - Principalmente quando estava estressado.
- Eu estava sempre estressado - ele admitiu. - E esta... - ele fez um gesto em direção ao sistema de som, - é mais fácil de dirigir. Menos... intensa.
Era uma metáfora muito precisa, pensou Vivian. O Eduardo que ela conhecera era intenso em tudo - no trabalho, no amor, até mesmo em sua diversão. Este homem ao seu lado era... mais suave. Mais contemplativo. Ainda Eduardo, mas uma versão que respirava entre as notas, em vez de tentar dominar a música.
A segunda parada foi em Mérida, onde as ruínas romanas surgiram do solo como ossos antigos sob o sol. Caminharam entre templos e teatros em ruínas, a história pesando o ar ao seu redor.
- É estranho - Eduardo comentou, parando diante de um arco triunfal que mal se sustentava. - Tudo isso... impérios que duraram séculos, e agora são pedras que turistas fotografam.
O quarto de repente pareceu muito menor, o ar muito mais denso. A cama dominava o espaço, um elefante na sala que nenhum deles ousava mencionar.
- Regra um - Vivian começou, contando nos dedos. - Lados definidos da cama.
- Concordo - ele disse sério. - Eu fico com o lado esquerdo.
Ela quase sorriu. Ele sempre preferira o lado esquerdo.
- Regra dois - ela continuou. - Roupas... adequadas.
- Pijamas completos - ele concordou. - Eu trouxe um.
- Regra três - ela tomou fôlego, - absolutamente, definitivamente, nenhum... toque.
- Nenhum toque - ele repetiu, mas seus olhos disseram algo completamente diferente.
Enquanto ele trazia as malas do carro, Vivian examinou o quarto. Era simples, mas limpo, com paredes de pedra exposta e um chão de madeira encerado. A janela dava para um pátio escuro, e o único som era o vento sibilando através das frestas.
- O banheiro é... interessante - a voz de Eduardo a fez pular.
Ela olhou para a pequena porta que ele indicava. O banheiro era minúsculo, com um chuveiro que mal tinha espaço para uma pessoa, e a água quente, segundo o proprietário, durava "cinco minutos, no máximo".
- Perfeito - ela resmungou. - Simplesmente perfeito.
A tensão sexual no ar era tão espessa que quase podia ser cortada com uma faca. Cada movimento, cada olhar, cada respiração - tudo era carregado, significativo. Quando suas malas estavam no quarto e a porta fechada, ficaram parados um de frente para o outro, como dois pugilistas avaliando seu oponente antes da luta.
- Eu posso... dar uma volta - ele ofereceu. - Deixar você se arrumar para dormir.
- Não seja ridículo - ela disse, pegando seu pijama. - Eu uso o banheiro primeiro. Você espera aqui.
- Aqui - ele repetiu, seu olhar caindo na cama antes de retornar rapidamente a ela. - Certo.
O banheiro era ainda menor por dentro do que parecia. Vivian se trocou com movimentos rápidos, seu coração batendo forte. O pijama de seda - outro presente de Alice - de repente parecia absurdamente inadequado, quase convidativo. Quando saiu, sentindo-se vulnerável e exposta, Eduardo estava parado na janela, olhando para a escuridão.
- Sua vez - ela disse, sua voz um pouco trêmula.
Ele acenou com a cabeça, pegando sua própria mala sem olhar para ela. Quando a porta do banheiro se fechou, Vivian deixou escapar um suspiro que não sabia estar guardando.
A cama parecia enorme, ameaçadora. Ela sentou-se na beirada do lado direito - seu lado, sempre seu lado - e puxou as cobertas. O som da água correndo no banheiro a fez imaginar coisas que não deveria - gotas escorrendo por seu corpo, suas mãos...
- Pare com isso - sussurrou para si mesma, enterrando-se sob as cobertas.
Quando Eduardo saiu do banheiro, vestindo um pijama de algodão simples que de alguma forma o fazia parecer mais vulnerável do que nu, o ar no quarto mudou novamente. Ele parecia... caseiro. Acessível. Perigosamente atraente.
- Tudo bem? - ele perguntou, sua voz suave na penumbra.
- Perfeito - ela mentiu, fingindo dormir.
Ele apagou a luz, e o quarto foi envolto em escuridão. Vivian ouviu seus passos cautelosos enquanto ele se aproximava da cama, sentiu o colchão ceder quando ele se deitou, a distância entre eles parecendo um abismo intransponível.
Por um tempo, apenas o som da respiração deles preencheu o silêncio. Então...
- Vivian? - sua voz era um sussurro na escuridão.
- Sim?
Outro silêncio. Então, o som de ele se virando. Ela podia sentir seu calor através do espaço que os separava.
- Estou feliz por o carro ter quebrado - ele admitiu, sua voz tão baixa que ela quase não ouviu.
- Por quê?
- Porque significa que tenho mais algumas horas com você.
A honestidade crua da declaração fez seus olhos se encherem de lágrimas. Como ele podia ser tão diferente? Como podia o mesmo homem que a magoou tão profundamente agora a comover tão completamente?
- Eduardo... - ela começou, mas não sabia como terminar.
- Não diga nada - ele interrompeu suavemente. - Apenas... durma. Amanhã é um novo dia.
Mas o sono não veio - pelo menos não para Vivian. Ela ficou deitada na escuridão, consciente de cada respiração dele, de cada movimento sutil. A tensão sexual que pairara sobre eles o dia todo agora se transformara em algo mais profundo, mais perigoso - uma intimidade que ia além do físico, que tocava em algo fundamental que sempre existira entre eles.
E quando, na hora mais escura da noite, seu braço encontrou o dele no meio da cama, nenhum deles se afastou. Seus dedos se entrelaçaram, um gesto tão natural quanto respirar, e naquele momento, Vivian soube que as regras que estabelecera haviam sido quebradas muito antes de serem feitas.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor
A história é boa, pena que hoje em dias, autores usem a IA para criar os enredos. Frases e modelo de escrita que estão saturadas. A gente lê e já sabe que houve uso da IA. Está difícil achar alguém que não use. Esses dias li uma história da Amazon, chamada "Um ponto de partida" da Jay Roslyn e do começo ao fim, fui lendo e dizendo pra mim mesma "se tiver indícios de IA, nem leio mais. Mas não tinha até pq quando a autora escreveu, era 2018. Pensa em como fiquei feliz por algo tão natural e bem elaborado. Essa daqui também está natural, mas infelizmente, os vícios de linguagem da IA, estão presentes. No mais, eu até que gostei bastante....
Também não consegui lê os últimos capítulos inteiros, mais amei a história, e o final, não teve enrolação! Parabéns pra quem escreveu 👏🏼...
Eu amei o livro, a plataforma não cobra em real?!Fiquei sem o ultimo capitulo, mas gostei muito da história....