Karina colocou uma pilha de papéis na minha mão, com um sorriso perverso de quem sabe exatamente o que está fazendo.
— Confere isso. Agora. O senhor Blanc não tolera erros, e a senhorita Nunes nunca me entregou um gráfico errado. Tente não ser inútil.
Passei a manhã perdida em números. Demorei para entender o que eu precisava fazer. Errei já na primeira soma. Karina parou atrás de mim e gritou para todo o setor ouvir.
— Você é burra ou só lerda? O senhor Blanc não tem paciência com incompetência.
Ela me empurrou da cadeira e assumiu o teclado. Os outros funcionários pararam para olhar.
— Eu posso fazer, só me mostra como.
— Sei. Para mim está bem óbvio o porquê de ter sido contratada, e com certeza não foi um currículo que colocou na mesa do diretor de RH.
— Não, eu...
Não tinha como me defender sem explicar que nunca tinha estado em uma empresa daquele tipo antes.
Continuar ali significava lidar com os olhares que me julgavam. Tentei sair, mas Karina me chamou e ordenou que eu fizesse a leitura dos contratos dos últimos dez anos.
— Simples e sem necessidade de pensar. Você só vai procurar os valores e anotar em um caderno. Consegue fazer isso? Copiar.
— Consigo, Karina. Afinal, mantenho os meus olhos no trabalho e não no meu chefe, como te vi fazendo com o Noah!
Todos olharam para nós duas, e eu só percebi que tinha alterado o tom de voz quando notei a atenção do setor inteiro voltada para mim. Karina ficou vermelha.
— Senhor Blanc para você. A única pessoa que podia chamar o presidente do grupo pelo nome era a noiva dele, a senhorita Suzanna. Imagino que não queira se comparar a tanto, não é mesmo?
Olhei para os contratos. Quis responder que jamais me compararia à noiva de Noah, porque eu era a esposa do homem que aquelas mulheres disputavam como abutres.
Mas a realidade me fez respirar mais fundo.
Eu também era só mais uma disputando a atenção de Noah Blanc.
Li aqueles contratos focada em aprender, e não apenas em copiar. Achei que, se eu compreendesse todos os detalhes por trás dos negócios da Família Blanc, eu teria alguma vantagem para negociar com Noah.
Algumas horas depois, o setor ficou vazio. Todos saíram para almoçar, e confesso que meu estômago também estava roncando. Eu não tinha comido nada o dia todo.
Fui até a sala da presidência. Mas Noah não estava lá. Perguntei para a recepcionista.
— O senhor Blanc saiu para almoçar com a senhorita Karina. Eles têm assuntos que precisam tratar fora da empresa.
Peguei o celular e me afastei de todos antes de ligar.
— Alô.
— Estou com fome e não tenho dinheiro.
— Funcionários levam marmita ou usam o refeitório. A comida é gratuita. O RH não te informou?

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