— Por que tem tanta certeza de que algo aconteceu na minha casa?
Provavelmente eu estava errada. Não deveria ter perguntado aquilo, nem falado com Noah como se eu não soubesse que os Swtz eram de fato a banda podre daquela história, mas eu precisava saber mais e a única forma que existia era provocando.
— Consegue me contar sobre uma prova que tenha tirado nota ruim na escola? Ou sobre um ursinho de pelúcia que você adorava na adolescência? Talvez outra coisa, qualquer coisa normal que acontece todos os dias, com todas as pessoas no mundo. A data da sua primeira menstruação, Aurora?
Comecei a refletir sobre aquilo.
Não tinha as respostas, nenhuma delas, quase como se a minha vida fosse um buraco negro que apenas meu pai e Solange conhecessem o que havia dentro.
Eu tinha fragmentos, ideias vagas, memórias perdidas entre um castigo e outro, mas nada que pudesse responder aquelas perguntas aparentemente simples.
— Quero falar com Solange.
— Eu já fiz isso, Magricela. Fiz todas essas perguntas, mas preciso que acredite em mim e entenda que até quando te fiz mal, foi porque te amei.
— O que aconteceu, Noah?
A história que ele contou me deixou completamente sem reação. Parecia loucura, mas fechava as lacunas na minha mente.
— Sua mãe foi tirada do caminho pelo seu pai, mas a ideia foi de Solange. Ela colocava um calmante forte nas coisas que dava para Isabella. Desde muito antes de se tornar amante do seu pai. Foi assim que ela conseguiu se aproximar. A forma como a empregada tomou o lugar da patroa.
— Está dizendo que ela drogava a minha mãe para transar com o meu pai dentro da nossa casa enquanto recebia para limpar?
— Sim e que continuou fazendo isso com você depois que Isabella foi internada. Eu não deveria ter investigado tantas coisas, mas quando descobri eu tive medo de que as coisas pudessem ser piores do que isso.
— Não tem como algo ser pior do que drogar uma criança, Noah!
O olhar de Noah mudou de repente e ele me segurou tão apertado em seus braços que, por um segundo, eu tive a sensação de que ele estava tentando impedir que eu respirasse.
Quase como se soubesse que, se me soltasse, eu não conseguiria juntar as partes que se partiam dentro de mim a cada descoberta.
— Tem.
A resposta de Noah não foi carinhosa, saiu sem preparo, como se ele não tivesse mais escolha a não ser compartilhar aquele horror comigo, e foi exatamente isso que me fez perceber que eu também já tinha passado do ponto de retorno.
Senti o medo crescer dentro de mim com a voracidade de um monstro que se apossa da alma de sua vítima. O choque se espalhava pelo meu corpo partindo do meu coração.
Ainda assim, tentei ter coragem o bastante para não recuar.
— Então fala.
Noah fechou os olhos por um instante, passou a mão pelo meu cabelo e demorou mais do que deveria para organizar aquilo, e foi nesse tempo que eu entendi que a verdade não era só feia, era pesada demais até para ele, e Noah nunca tinha dificuldade com nada.
— Você não lembra de nada, mesmo? Nem da piscina.
Meu estômago virou na mesma hora, não pelo que ele disse, mas pela forma como disse, como se aquela fosse uma peça que já estava no lugar e eu era a única que ainda não conseguia enxergar o desenho completo.
— Já falou disso antes.
— Porque é onde tudo começa.

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