Lucila
Já passava das onze da manhã quando Lucila terminou de instruir as crianças na sala de atividades. Hoje ela decidiu ir para o trabalho onde era responsável pelo desenvolvimento de crianças deficientes, mais cedo. Assistiu somente duas aulas na faculdade, e já se dirigiu para o Instituto Mãos Ativas.
Esse lugar foi sua primeira conquista.
Não foi com o dinheiro do pai ou sua influência que conseguiu construir esse instituto. Na verdade, enquanto estava buscando patrocínios e ajudas filantrópicas, ela nem mesmo usava seu sobrenome. Lucila não queria que as pessoas envolvidas no projeto o fizessem por interesses corporativos ou para cair nas graças de seus pais.
Ela queria que quem se envolvesse no Mãos Ativas tivesse amor pelas crianças, responsabilidade social, e preocupação com o futuro desses pequenos que precisavam ser inseridos na sociedade sem serem massacrados por suas deficiências.
Com a ajuda de Ícaro, que já era experiente com ongs e filantropia, ela desenvolveu o projeto social quando ainda estava no primeiro ano de faculdade.
Ele ficou com a parte de engenharia e arquitetura, que era a sua área, e ela com toda a parte burocrática, pedagógica e de desenvolvimento.
Lucila participou de várias reuniões para formar um grupo que estaria disposto a financiar esse projeto. As pessoas se sentiam mais confiantes em perceber que ela tinha vivência no assunto, pois também era deficiente.
Quando eles a viam conversar em libras, eles acreditavam em sua sinceridade, e em seu comprometimento.
O Instituto Mãos Ativas não era um lugar elitista. Na verdade ele ficava entre um bairro de classe média e um de classe baixa. Ele foi feito pensando nas crianças que não tinham acesso a terapias, a recursos que poderiam ensiná-los, onde teriam várias atividades para aprimorar seus sentidos.
Hoje, mais de dois anos após sua inauguração, ele já atendia duzentas e quinze crianças e adolescentes. Havia ganhado notoriedade entre os governantes e recebia muitas doações de materiais pedagógicos adaptados.
Lucila não ficou com a diretoria mesmo sendo seu projeto. Ela gostava de estar em contato direto com as crianças, por isso dava aulas de artes e de libras.
Esse era o lugar onde ela encontrava propósito para sua vida. Entre sorrisos calorosos, agradecimentos com o olhar, e vitórias desvalorizadas para o restante do mundo; ela se sentia feliz. Suas crianças eram o que moviam seu coração, e tudo o que ela queria era que crescessem preparados para enfrentar tudo o que a vida lhes reservasse.
Lucila sorriu acariciando os cachinhos de Bianca. Uma de suas alunas, que nesse momento pintava um girassol com tinta guache. A menina mulata de cabelinhos negros, olhou para ela e fez um “Amo você, Lucy” em libras.
Uma batida na porta chamou sua atenção.
Ela olhou para o quadrado de vidro, e viu o rosto da diretora. Rosana sorriu para ela, esperando que ela se dirigisse até lá. Lucila abriu a porta, e se deparou com sua colega de trabalho ao lado de uma mulher que parecia saída de uma capa da Vogue.
Loira, alta, esguia, de olhos verdes vibrantes, maquiagem impecável, e estilo único.
Lucila soube que ela era uma mulher influente somente com um olhar. A sofisticação de seu porte e pose, o perfume caro, tudo nela irradiava beleza e poder.
Por um momento, ela se sentiu insignificante perto dessa beldade. Pensou no suéter preto liso que usava, que agora tinha manchas de tinta amarela; a saia de crepe azul navy que escondia seus contornos e a sapatilhas de couro caramelo que não lhe davam altivez nenhuma, longe da loira que usava scarpins cor de creme com salto agulha.
- Lucila, eu gostaria de te apresentar a senhorita Kutisk. – a loira estendeu a mão comprida. Ela usava um anel de noivado com uma pedra enorme de diamante. – Ela trabalha com uma importante firma de advogados, que estão interessados em nosso trabalho. A senhorita Kutisk está aqui para conhecer o instituto.

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