O corredor se tornou uma longa e perigosa ponte para Lucila. Eram só três a quatro passos, no máximo, mas para ela, aquilo pareceu ter quilômetros.
Ela olhou para a porta fechada, e pensou em como se comunicaria com ele. Mordeu os lábios de frustração, seria preciso o celular até nesse momento para dizer o que ela queria?
Não. Se recusava a levar o aparelho e parecer ainda mais incapaz do que já se sentia.
Fechou os olhos por alguns instantes e deu seu salto de fé para fora do quarto. Suas pernas tremiam incontrolavelmente, quando ela finalmente bateu na porta. O som de alguém se movendo sobre o chão de madeira veio de lá de dentro, em seguida, uma resposta.
- Entre.
Suas mãos úmidas e gélidas giraram a maçaneta, e a porta cedeu com um ranger suave. Lucila adentrou o quarto pouco iluminado, com o cheiro forte de Bourbon e charuto caro prevalecendo como uma nuvem espessa.
Vitório estava de pé, próximo a janela que dava em uma pequena sacada para a face externa da villa. Lucila fechou a porta atrás de si, e só então, ele se voltou para olhar em sua direção.
A pouca luz deixava parte do rosto dele oculto pelas sombras da noite, e a parte iluminada se manteve inabalável ao vê-la. Os olhos dele faiscaram como orbes de prata quando ele a analisou dos pés à cabeça, suas feições endurecendo a cada segundo.
Lucila deu um passo na direção dele, quando ela parou no meio do quarto, e levou a mão ao laço do roupão, Vitório praticamente se materializou na frente dela, segurando sua mão, a impedindo de concluir sua ação.
Ela levantou o rosto para ele, em seus olhos, todas as suas esperanças, seus sentimentos, a vontade de sentir uma vez mais o carinho e o toque dele. Mas a rigidez dos músculos de Vitório, a frieza em seus olhos, e o pulsar da veia latejante em sua têmpora, denunciavam seu completo aborrecimento.
- O que pensa que está fazendo, Lucila? – ele perguntou rispidamente.
Seus olhos piscaram com aquelas palavras. “Como assim, o que eu estou fazendo? Acabamos de nos casar, é a nossa primeira noite juntos” ela pensou, sem compreender exatamente o que ele queria dizer com aquelas palavras tão firmes.
“É a nossa noite de núpcias, eu pensei que...” O hábito fez com que ela reproduzisse os gestos, se expressando em libras.
Vitório uniu as sobrancelhas em um franzir quase as unificando. Seus olhos, como dois faróis implacáveis a analisaram friamente. Ele segurou seus braços.
- Não entendo essa linguagem. – ele fechou os olhos, praguejando para si mesmo. Seu maxilar ficou mais anguloso, cerrado firmemente. – Lucila, ouça...
Naquele momento, ela percebeu que isso foi um erro. Ela não devia ter procurado por ele, muito menos vestida assim. Lucila se encolheu, se sentindo exposta, ridícula, vulgar e desesperada.
Ela tentou dar um passo para trás, mas Vitório continuava segurando seus braços. Lentamente ela balançou a cabeça em negativa, as mechas de sua franja acompanhando o movimento; queria que ele entendesse que ela não insistiria.
Engolindo em seco, ela arrumou o robe transparente, praticamente colando o tecido contra o corpo trêmulo. Se sentia tão diminuída, tão boba e inadequada.
- Lucila, nosso casamento não pode ir além do que já temos. – ele disse, trazendo uma onda de frio sobre ela. – Nós seremos um casal para todos os efeitos, mas não pretendo tocar em você dessa maneira.
As batidas violentas dentro de seu peito pararam por uma fração de segundos. Aquelas palavras, ditas daquela forma tão cortante, foi o mesmo que ser atirada do alto de um penhasco, na água congelante.
Os tremores se tornaram mais evidentes, e ela se amaldiçoou por ser tão tola, por evidenciar seu estado de espírito.
Vitório a soltou, e se virou, praguejando.
- Isso não era para ser assim...! – passou a mão pelos cabelos, e se voltou de novo. – Você é só uma menina, nem deveria estar aqui, vestida desse jeito, droga!
Lucila permaneceu parada ali, como uma estátua viva. Não havia parte dela que não fosse atingida por aquelas palavras como se centenas de agulhas perfurassem seu corpo todo de uma só vez. Sua visão ficou turva, ela se encolheu um pouco mais.
- Isso.... – ele fez um gesto com as mãos, indicando os dois. – Nunca vai acontecer, entendeu?
Vitório se virou, voltando para a sacada com o charuto entre os dedos.
- Agora volte para o seu quarto, e não faça mais isso.
Ele estava ali a poucos passos dela, mas agora parecia a quilômetros de distância. O quarto, tão amplo e sofisticado sob a luz tênue das arandelas de ferro, tinha se transformado em uma prisão silenciosa, onde cada objeto assistia silenciosamente à sua humilhação. As cortinas esvoaçavam com a brisa da sacada.
Lucila continuava ali, de pé, sentindo a pele queimar sob o toque recente de Vitório. O peso das palavras dele ainda ecoava dentro dela como se alguém tivesse berrado dentro de seu coração.
“Nunca vai acontecer.”
A frase se repetia, como uma canção fúnebre, soando em sua mente.
Ela tinha reunido tudo o que tinha, a coragem, esperança, e o que sabia sobre ser atraente. Mas agora... agora se sentia como uma idiota. Uma menina ingênua que confundiu a formalidade de um contrato, com afeto. Educação com carinho, e gentileza com desejo.



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