No café, ele a observou abertamente, do outro lado da mesa comprida. Com o tablete em uma mão e uma xícara de café na outra, ele não disse uma palavra. Mas seu olhar sobre ela, de alguma forma, só deixou seus nervos ainda mais trêmulos.
A distância aumentou, mesmo com ele insistindo para que fizessem as refeições juntos.
Vitório continuava com aquele olhar indecifrável, mas havia tanta dureza em sua expressão, como se este casamento fosse para ele um martírio, como se ela tivesse obrigado esse homem a se casar com ela.
Lucila olhou para as borboletas sobrevoando suas flores.
“De certo modo, eu o obriguei a se casar comigo, já que foi eu quem o escolheu.”
As lembranças daquele tempo, ainda estavam tão vívidas em sua mente, como se tivessem acontecido ontem.
Não havia passeios e nem piqueniques nos campos de oliveiras. Sua viagem de lua mel foi praticamente uma visita a outro quarto, em outro país. A viagem de volta foi totalmente silenciosa, e ela permanecia se perguntando como foi pensar em fazer uma coisa daquelas.
Se oferecer daquela maneira....
Imaginava o quanto Vitório achou aquilo repugnante. Certamente foi por isso que ele mudou tão drasticamente, se tornando ainda mais sério, mas distante.
Quando chegaram em casa ele pouco conversou com ela, mas mesmo quando dividiam a refeição como ele insistia que acontecesse; havia uma distância quase intransponível entre eles.
Lucila não teve mais coragem de tentar se aproximar. Seu coração quase parava quando ele chegava do trabalho, e muitas vezes ela só se sentava à mesa do jantar em silêncio e o observava comer, brincando com a comida.
Mila, sua companhia fiel, começou a se preocupar com a visível perda de peso dela. E em uma ocasião em que Amanda a visitou, a empregada acabou delatando Lucila.
A preocupação de Mila e de sua mãe era um exagero, pensou Lucila. Mas a perda de peso não parou mais. E seu apetite tinha praticamente desaparecido.
Amanda e Hermes ficaram preocupados quando Lucila começou a realmente se sentir mal, e acabou ficando internada por três dias por problemas digestivos. Eles chamaram Vitório para uma conversa.
Depois daquela conversa, ele disse que não precisavam mais comer juntos, se aquilo a incomodava tanto.
Lucila só deixou as lágrimas escorrerem, e suas mãos disseram “Tudo bem” em libras. Afinal, se nem isso ele queria mais fazer com ela, o que poderia fazer?
Pedir? Suplicar? Implorar para que não a deixasse ainda mais sozinha?
Não, ela tentou uma vez, e o resultado foi esse enorme abismo entre eles. Lucila agora sabia que era só uma garota tola iludida com a ideia de um romance que nunca aconteceria.
Vitório deixou claro que não pretendia ter uma relação de marido e mulher com ela, e que só estava fazendo aquilo pelo acordo comercial entre as duas famílias. Ele sobressaltou o fato de que nem mesmo podiam se comunicar direito várias vezes, porque ele não sabia linguagem de sinais, e para coroar a situação, pontuou que para ele, ela era só uma menina.
“Eu não sei o que você pretende com esse casamento, mas quero deixar uma coisa clara. Não empregue seus esforços nessa relação, eu já disse a você que esse matrimônio só existe no papel. Você é uma menina para mim, e isso não me atrai. Nunca vai acontecer nada entre nós, nem que você perca seu tempo cozinhando o dia todo.”
Ela levou o copo aos lábios de novo.
Depois daquilo ele passou a voltar para casa cada vez menos. Chegando ao ponto de não aparecer por uma semana inteira, nos últimos anos. Ele não comparecia a eventos onde o casal deveria ir juntos, e as poucas vezes que saíram foi para acontecimentos de família, que eram inevitáveis.
Mas mesmo assim, até nesse sentido, havia coisas que ele nem mesmo comunicava a ela, para não ter que levá-la consigo.
Vitório saiu de casa há algum tempo. Ele não disse nada, só arrumou uma mala e saiu, sem uma palavra. Lucila queria saber o que estava acontecendo, e foi até a Acrópole em uma tarde, mas ele disse que conversariam em breve, e a levou direto para o seu carro, sem deixar que ela se sentasse em sua sala.
Ela esperou por ele.
Esperou por dias, por semanas.
E quando já estava perdendo as esperanças, ele marcou um jantar na casa que agora ela ocupava sozinha. Lucila preparou um jantar com esmero, com coisas que ela sabia que ele gostava. Mas Vitório nem mesmo tocou na comida, totalmente sem expressão, ele entregou a ela um envelope branco, seguido da frase “É o melhor para você”.
Eram os papéis do divorcio.

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