Lucila sentia o tempo escorrer lento e pesado ao seu redor, como se cada segundo se arrastasse tortuosamente. Sentada na beira da cama, segurando a pequena mão febril de Olavo entre as suas, ela não piscava, não conseguia nem pensar direito.
Seu corpo inteiro estava em alerta, como se qualquer movimento seu pudesse piorar a condição do menino. Sabia que pensar assim era uma besteira, mas era assim que se sentia nesse momento.
O termômetro estava sob o bracinho magro dele, e mesmo que a tela ainda não tivesse emitido o som do bip, ela sabia que a febre estava alta, bastava tocar a pele e sentir aquele calor abrasador, como se o pequeno estivesse sendo consumido de dentro para fora.
Olavo gemia, os olhos fechados, a testa franzida num misto de dor e medo.
“Vai ficar tudo bem agora, meu amor.”, ela murmurava por dentro, desejando com todo o seu coração que ele melhorasse logo. As mãos acariciando suavemente os cabelos úmidos de suor, como se aquilo pudesse transferir um pouco de paz ao corpinho atormentado.
Ela apertou os lábios com força. A cada soluço que aquele menininho dava, cada palavra desconexa que escapava entre os delírios febris, enchia Lucila de medo pelo que essa criança tinha enfrentado.
Quem havia deixado uma criança daquele jeito, sozinha, faminta, jogada sob uma tempestade?
A revolta se misturava com uma ternura avassaladora.
Olavo não era apenas uma criança indefesa, ele era, agora, parte de algo que florescia dentro dela com força. Um instinto maternal que ela nunca pensou que experimentaria dessa forma, sempre pensou que se sentiria assim quando gestasse o primeiro dela e de Vitório, mas isso não aconteceu.
E mesmo assim, a vida lhe deu a oportunidade de sentir algo tão precioso como esse sentimento que simplesmente surgiu ao ver Olavo todo molhado, vulnerável e sozinho.
Talvez fosse a semelhança com a história dela, afinal de contas passou pelo abandono e o descaso na infância antes de ser adotada. Mas talvez fosse só…natural e destinado a acontecer.
Lucila nunca havia se sentido tão convicta de algo em sua vida; ela não deixaria esse menino desamparado nunca mais.
Se os pais fossem encontrados e se provassem aptos, ela saberia recuar, como deveria ser. Mas, se não fossem... se Olavo estivesse mesmo sozinho no mundo, ou exposto a algum tipo de perigo, ela faria o que seu coração mandava. Para os outros seria uma loucura, talvez até um capricho, mas para ela já era uma verdade irrevogável. Ela o adotaria.
Assumiria esse papel com o coração inteiro. Ofereceria ao menino tudo o que ele nunca conheceu; afeto, segurança, amor verdadeiro.
O bip do termômetro soou, cortando seus pensamentos.
Lucila retirou o aparelho e sentiu a boca secar. Trinta e nove e sete.
O pânico se apertou em seu estômago, isso era muito, a febre estava perigosamente alta.
Mila apareceu na porta com uma toalha fria e a tigela com água, seu olhar era um misto de curiosidade, e de preocupação. Nenhuma palavra foi dita, a mulher mais velha conhecia Lucila demais para precisar de explicações detalhadas, e faria qualquer coisa por uma criança.
Em poucos segundos, ela se aproximou ao lado da cama e começou a ajudar a refrescar o corpo do menino com cuidado.
Lucila permaneceu ao lado, posicionando o travesseiro, segurando a mãozinha trêmula, enquanto digitava rapidamente em seu celular, chamando um médico conhecido para vir examinar Olavo.

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