Vitório
Vitório entrou no escritório com passos firmes, a mandíbula cerrada, os pensamentos em ebulição. Assim que a porta se fechou atrás de Lucila, o silêncio do ambiente o envolveu com um peso quase físico.
A madeira escura das estantes, os livros alinhados com perfeição, o cheiro de couro papel e lírios brancos, tudo ali era familiar, e evocava lembranças de quando trabalhava até adormecer sobre a mesa de carvalho branco.
Mas nada disso hoje, conseguia acalmar o que ardia dentro dele.
A imagem daquele menino na cama de sua esposa não saía de sua cabeça. Ele nem sequer sabia o nome da criança, só sabia que o impacto que sentiu ao vê-lo foi inexplicável.
E também havia aquela coincidência estranha e intrigante. Os olhos dele....eram muito parecidos com os seus.
A mente lógica de Vitório tentou encontrar uma explicação racional para a sensação de estar se afogando em águas profundas, que o dominava desde que viu aquele garotinho despertar, febril, chamando por sua esposa como se sua vida dependesse dela.
Era só uma criança.
Um menino em situação de rua, talvez perdido, assustado. Mas a verdade cruel era que ao vê-lo ali, frágil e dependente de Lucila, seu coração deu um salto estranho no peito, como se fosse reconhecê-lo. Como se houvesse algo mais do que semelhança física entre eles. Algo...físico que os ligava.
Vitório passou a mão pelos cabelos, caminhando até o bar e servindo-se de um gole de água mineral para não ceder ao impulso de virar a garrafa de uísque. Lucila sabia que ele só bebia em grandes quantidades quando estava nervoso.
E não queria que ela pensasse coisas sem sentido.
Ele não podia se anestesiar agora, não com essa tempestade de perguntas se acumulando dentro de si, e se transformando nesse nó em sua garganta.
Quem era aquele menino?
Por que Lucila não contou sobre ele imediatamente?
Por que diabos ele se sentia... tão estranho com relação a ele?
A resposta racional era simples. Aquela criança estava sob o teto dele, na cama da mulher com quem ainda estava casado. Era natural se preocupar com todas as implicâncias dessa situação, era o seu dever.
Mas lá no fundo, Vitório se sentia incomodado. Porque coisas que não tem explicação plausível, como o que estava sentindo por causa do olhar daquele menino, eram perigosas. E ele aprendeu isso da maneira mais dolorosa.
Aquilo era como familiaridade, instintivo e primitivo.
Ele se virou, os olhos seguindo Lucila, que andava de um lado para o outro do escritório com os dedos entrelaçados nervosamente. Seu lindo rosto estava tenso, a expressão nublada pela preocupação.

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