Quando a notícia chegou até ela, Luana largou tudo e correu para o necrotério do hospital.
Mal cruzou a porta, avistou Agatha sentada ao lado da câmara fria, o rosto drenado de cor, tão pálido quanto os azulejos brancos ao redor. Os médicos tentavam convencê-la a se levantar, a sair dali, mas ela permanecia imóvel, como se tivesse se fundido ao chão gelado.
— Doutora Luana. — Chamou um dos médicos, a voz carregada de compaixão. — Ela é sua família... talvez a senhora consiga fazê-la ouvir razão.
Ele recuou com delicadeza, deixando-a sozinha.
Luana avançou devagar, cada passo mais pesado que o anterior. Quando finalmente parou diante da maca e seus olhos pousaram naquele rosto, o mesmo que por tantos anos lhe despertava amor e amargura em medidas iguais, sentiu o chão ceder sob os pés.
Ela já tinha visto a morte de perto inúmeras vezes. Na rotina do hospital, os corpos sem vida faziam parte do cotidiano, fossem vítimas de doenças, de acidentes ou de reanimações que não haviam dado certo.
Mas ver ali alguém do seu próprio sangue, alguém de sua memória e história, era uma dor que não se comparava a nada.
O peito de Luana começou a tremer em ondas irregulares. Ela respirou fundo uma, duas, três vezes, tentando conter o que subia pela garganta, mas as lágrimas vieram antes das palavras, grossas e silenciosas, escorregando pelo rosto sem pedir licença.
— Mãe... — A voz saiu quebrada, quase inaudível. — O que aconteceu? Isso não é verdade, é? O pai fez isso para me assustar, para me fazer desistir do divórcio... Foi isso, não foi?
Ela deu mais um passo à frente, os olhos brilhando de súplica desesperada.
— Fala comigo, mãe, por favor... me diz que é mentira!
O choro angustiado de Luana pareceu atravessar a névoa em que Agatha estava submersa. A mulher levantou o rosto devagar, os lábios rachados se movendo com esforço, e quando finalmente falou, a voz saiu rouca, esvaziada.
— É verdade...
Luana ficou paralisada. Nenhum som, nenhum movimento. Apenas o olhar fixo naquele corpo estendido à sua frente, como se ainda esperasse que ele fosse se levantar e dizer que tudo não passava de um engano.
Por longos segundos, permaneceu imóvel, até que a respiração voltou a se estabilizar e a dor começou a se recolher para dentro, fria e densa.
— O que aconteceu, mãe? — Luana perguntou então, a voz agora firme, quase clínica.
Agatha não respondeu, apenas fitava o vazio, perdida em algum lugar distante.
Luana se inclinou, segurando os ombros da mãe com força suficiente para trazê-la de volta.
— Mãe, pelo amor de Deus, me conta o que houve!
— Foi... foi a Vanessa. — Murmurou Agatha enfim, com o rosto sombrio. E então começou a contar tudo, aos poucos, descrevendo cada detalhe, cada palavra trocada e cada segundo que antecedera o fim.
Luana ouviu em silêncio, o rosto inexpressivo, os olhos fixos em algum ponto além das paredes. Quando Agatha terminou, ela não disse nada. Apenas continuou ali, parada, absorvendo tudo como quem engole veneno.
Depois, devagar, se levantou e se virou em direção à porta.
Assustada, Agatha esticou o braço e segurou o pulso da filha com força.
— Luana, não vai. A gente não tem provas. Não tem como enfrentar ela agora.
Luana se desvencilhou com calma, o olhar frio, cortante, carregado de uma determinação que arrepiava.
— As provas vão aparecer. — Ela respondeu, com a voz baixa, mas firme como aço.
Sem olhar para trás, saiu do necrotério, levando consigo uma dor que já não cabia em lágrimas.
...


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