Ao cair da tarde, o jantar na antiga mansão da família Souza transcorria sob uma atmosfera de falsa normalidade. Érica servia Afonso com uma dedicação excessiva, enchendo seu prato e ajeitando o guardanapo com mimos que fizeram o estômago de Yasmin revirar de náusea. Aquele teatro doméstico era quase insuportável.
Percebendo a expressão de desgosto da filha mais velha, Afonso não demonstrou qualquer preocupação ou intenção de consolá-la. Pelo contrário, seu tom foi severo ao quebrar o silêncio.
— Não quero que se repita outro escândalo envolvendo familiares no hospital. — Advertiu ele, com a voz ríspida, sem largar os talheres. — Como primogênita da família Souza, você deveria ter a mesma estabilidade e bom senso do seu irmão. Se tivesse me ouvido anos atrás e não tivesse insistido em casar com aquele estudante estrangeiro, sua vida estaria muito diferente hoje, tal qual a da sua irmã.
A comparação feriu Yasmin. Soraia, a outra irmã, havia acatado as ordens de Afonso e se casado com um funcionário do alto escalão do governo. Hoje, desfrutava de uma vida confortável e prestigiada. Yasmin, por sua vez, já havia se arrependido amargamente do impulso que a levou ao primeiro casamento, culminando em um divórcio doloroso. Mas, naquele momento, tudo o que ela ansiava era um pouco de acolhimento paterno. Entretanto, ao invés de apoio, recebia apenas cobranças e o desenterrar de erros passados. Com a traição de Érica e César ainda fresca em sua mente, seu coração, já gelado, terminou de congelar.
— É verdade, a Soraia casou bem. — Retrucou Yasmin, com um sorriso amargo nos lábios. — Ela tem a família do marido para dar respaldo para ela, por isso a filha dela nunca precisaria se sujeitar a um casamento com alguém de quinta categoria. Já eu... sou como "água derramada", não é? Sem um marido influente para me proteger, não consigo sequer evitar que minha própria filha seja sacrificada.
O autodepreciação ácida de Yasmin fez a expressão de Afonso se fechar ainda mais. Antes que o patriarca pudesse explodir, César, sentado ao lado, interveio com aquele tom apaziguador que lhe era peculiar.
— Yasmin, para que todo esse nervosismo? O papai só quer o seu bem. — Disse ele, trocando um olhar rápido com Érica. — Além do mais, embora o Tomás não seja grande coisa, a família Lopes tem o Adonis no comando. Você acha mesmo que ele deixaria a Rita passar necessidade? Pense bem: assim que a Rita der um herdeiro aos Lopes, ela praticamente vai mandar naquela casa.
Se fosse em outros tempos, Yasmin talvez tivesse engolido aquela pílula dourada e se consolado com a ilusão. Mas, depois de ter testemunhado a cena grotesca entre o irmão e a madrasta durante o dia, aquelas palavras soaram como um insulto à sua inteligência.
— O casamento não é com a sua filha, então é fácil opinar, não é? — Disparou ela, soltando um riso frio. — Por que está tão empenhado nisso?
César travou por um instante, surpreso com a agressividade repentina, e buscou apoio visual em Érica antes de responder:
— Yasmin, que jeito é esse de falar? Eu também sou tio da Rita, sangue do meu sangue.
— Sangue? — Yasmin o encarou com um olhar carregado de significado oculto. — A história está cheia de parentes que se apunhalam pelas costas. O título de "tio" não garante caráter a ninguém.
Sem esperar pela réplica, ela largou os talheres ruidosamente sobre o prato, levantou-se e abandonou o jantar pela metade, algo inédito em sua vida.
Érica observou as costas de Yasmin se afastarem, os olhos estreitos de desconfiança. Aquela mudança brusca de comportamento era alarmante. Será que ela havia descoberto algo? Dissimulada, ela se virou para Afonso, assumindo sua voz mansa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Mulher que Fez o CEO Mais Frio Chorar na TV
Quero ler o livro completo como faço?...
Ler o livro a partir do capitulo 561...
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