VICTOR BALTIMOR.
Finalmente. Após dias que pareceram intermináveis, eu estava de pé, andando com as próprias pernas e voltando para o meu quarto.
Eu nunca pensei que caminhar até o meu próprio quarto fosse parecer uma conquista tão grande.
Cada passo que eu dava longe da cadeira de rodas carregava um peso estranho — não só físico, mas emocional. Era como se eu estivesse reaprendendo a existir dentro do meu próprio corpo.
Pode parecer algo simples para qualquer pessoa, mas, para mim, aquilo significava muito mais. Era liberdade. Era vitória. Era a prova de que eu não tinha sido derrotado.
Enquanto avançava pelo corredor, minha mente voltou para tudo que enfrentei até ali. A recuperação não foi bonita, nem rápida, não foi fácil. Muito longe disso. As sessões de fisioterapia… Deus, como odiei cada uma delas.
As sessões de fisioterapia foram um verdadeiro inferno disfarçado de progresso. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que tentei me levantar com ajuda. O fisioterapeuta ao meu lado, paciente, firme… e eu tremendo como se estivesse prestes a desabar.
No início, cada movimento parecia uma tortura. A dor nas costelas era absurda. Minhas costelas queimavam, latejavam, como se ainda estivessem sendo quebradas de novo a cada tentativa de me levantar. Cada movimento parecia rasgar algo por dentro. Houve dias em que pensei seriamente em desistir. Em aceitar que aquela cadeira seria meu destino.
Lembro de uma sessão em especial, em que essa vontade foi forte.
— Vamos, senhor Baltimor, só mais uma repetição — insistiu o fisioterapeuta.
Apoiei o peso do corpo nas pernas, sentindo uma fisgada absurda atravessar meu peito. Minha respiração falhou no meio do movimento. Eu não conseguia fazer um simples movimento para a direita e aquilo me irritou.
— Isso é ridículo… — resmunguei, com a mandíbula travada.
— Dor faz parte da recuperação. O senhor não pode desistir, tem que insistir.
— Dor, não. Isso aqui é tortura. — Reclamei, sentindo as costelas doerem. Mas continuei.
Porque desistir nunca foi uma opção para mim. Nunca desisti diante de um obstáculo, não será agora que começarei.
Além da dor nas costelas, havia a tontura constante por causa da cirurgia na cabeça. Em alguns momentos, o mundo simplesmente girava. Minha visão escurecia por segundos. Era rápido… mas suficiente para me deixar em alerta. Eu fingia que estava tudo bem. Engolia seco, respirava fundo e continuava.
E eu não contei isso a ninguém. Nem para Elisa.
Não queria preocupá-la. Já tinha feito demais ela sofrer. E, principalmente, não queria voltar para aquele hospital maldito.
Mas houve um dia em que não consegui esconder.
Eu estava no meio de um exercício simples quando tudo girou. Minha visão escureceu por alguns segundos, minhas pernas falharam e precisei me segurar para não cair. O fisioterapeuta percebeu na hora. O médico foi chamado.
— Desde quando está sentindo tontura? — perguntou o médico, enquanto me examinava.
Suspirei e resolvi contar tudo. Poderia ser algo sério.
— Há alguns dias.
Ele me analisou por alguns segundos antes de suspirar.
— Tudo bem. Mas se as tonturas piorarem, levá-lo-ei imediatamente ao hospital. E tem mais, se quiser que eu mantenha isso em sigilo, o senhor vai fazer exatamente o que eu recomendar. Lhe passarei uma medicação para essas tonturas. Acredito que seja pelo esforço físico que está fazendo e por estar abaixando a cabeça. Vamos aguardar alguns dias com a medicação para ter certeza.
— Fechado. Mas Elisa não pode saber que estou tomando essa medicação, ela é esperta e vai descobrir assim que ver o comprimido extra.
— Falarei com o enfermeiro que ficará responsável pela sua medicação e o instruirei para fazer tudo sem que a senhorita Elisa perceba.
— Ótimo, melhor assim.
E foi assim que começou. Um dos enfermeiros passou a me entregar os remédios escondidos, sem que Elisa soubesse. E aquilo não era fácil. Elisa supervisionava pessoalmente cada comprimido que eu tomava. Nada passava despercebido por ela. Nada… ou quase nada.
Eu até sorri sozinho lembrando de uma das vezes em que quase fomos pegos.
Teve um dia… Eu estava prestes a tomar o remédio quando ela entrou no quarto.
— Aqui, senhor — o enfermeiro disse baixo, me entregando o comprimido.
Eu mal tive tempo de reagir. A porta se abriu. Elisa entrou. Me pegando em flagrante.
— O que é isso? — perguntou, imediatamente, com o olhar atento. — Ainda não é o horário da medicação — ela disse, já desconfiada, olhando direto para o comprimido na minha mão. — E esse remédio não é o que você está tomando.

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