VICTOR BALTIMOR.
Meu coração disparou. O enfermeiro nem piscou. Antes que eu abrisse a boca, o enfermeiro foi mais rápido:
— É só um remédio para dor de cabeça. O senhor Baltimor comentou que estava com um incômodo.
Ela me olhou na mesma hora, preocupada.
— Amor, você está com muita dor?
Depois voltou-se para o enfermeiro, preocupada.
— Isso é normal?
Antes que ele abrisse a boca, eu respondi:
— Não é nada demais, meu amor. Acho que exagerei nos exercícios e acabei não comendo direito. Fiquei com dor de cabeça. Sempre acontecia isso quando eu me esforçava demais e não me alimentava quando estava na correria do dia a dia.
Ela ainda me observou por alguns segundos, desconfiada… mas acabou acreditando e cedendo. Eu havia conseguido despistar.
Suspirei aliviado.
— Se piorar, você me fala.
— Falo, prometo. — falei para tranquilizá-la. Mas eu não falaria, não queria preocupá-la.
Suspirei sozinho ao lembrar daquela situação enquanto observava os funcionários retirando minhas coisas daquele quarto improvisado que eu detestava. E sorri por estar deixando esse quarto.
Aquilo nunca foi meu lugar. Serviu, sim. Mas parecia um quarto de hospital. Sem identidade, sem vida, sem privacidade. Gente entrando e saindo a qualquer momento, como se fosse um espaço público. A equipe médica entrava sem ao menos bater.
Aquilo me irritava profundamente. Meus funcionários me conheciam bem, então era raro entrarem aqui, e quando um vinha, sempre batia e esperava eu autorizar a entrada.
Agora era diferente, não quero mais lembrar desse período. Agora eu estava voltando para o meu quarto. Para o meu espaço.
Elisa subia as escadas ao meu lado, com Melissa nos braços. Eu estava ansioso para chegar lá… mas, após dez degraus, meu corpo já começava a cobrar. Eu sentia os dias que passei deitado numa cama e sentado naquela cadeira.
Respirei mais fundo. E, quando lembrei que ainda havia outro lance de escadas, me irritei.
— Droga… — murmurei baixo.
Devia ter escolhido um quarto mais próximo. Eu poderia ter escolhido um quarto no segundo andar, perto delas. Mas não. Fiz questão de ir para o meu. Agora não podia retroceder. Pegaria mal. Agora tinha que aguentar. Continuei.
Quando finalmente chegamos, eu estava exausto. Sentei-me na cama e Elisa, sem dizer nada, colocou Melissa ao meu lado. Minha filha ficou ali, pequena, tranquila… e aquilo, por si só, já fez tudo valer a pena. Eu até me esqueci do esforço e da irritação. Elisa me auxiliou a me acomodar na cama. Meu corpo praticamente afundou no colchão.
— Você está bem? — Elisa perguntou, me observando com atenção, com aquele olhar que sempre enxergava mais do que eu dizia.
— Estou. — respondi.
E estava mesmo. Dentro do possível. Bem, de certa forma, era verdade. Eu estava melhor. Muito melhor.



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