VICTOR BALTIMOR.
O salão da coletiva estava exatamente como eu previa: lotado, abafado, carregado de expectativa e malícia. Câmeras alinhadas, microfones apontados, jornalistas se espremendo nas cadeiras, olhos famintos por sangue. Não por verdade. Verdade raramente era interessante para esse bando. Eles queriam escândalo. Queriam me ver tropeçar.
Caminhei até o púlpito com a postura firme de quem já enfrentou coisa pior. Pablo seguiu alguns passos atrás, atento, observando cada movimento. Antes mesmo de começar, meus olhos percorreram a plateia. Bastaram alguns segundos para identificar os infiltrados. Eu os conhecia bem demais. Repórteres que orbitavam Afonso há anos. Rostos conhecidos, sorrisos cínicos. E também recebi o relatório de Pablo com todos que estão trabalhando com Afonso para me derrubar.
Perfeito. Estavam todos exatamente onde eu queria.
— Boa tarde — comecei, e o burburinho cessou gradualmente. — Convidei todos vocês para esclarecer, de uma vez por todas, os rumores que vêm sendo espalhados sobre minha vida pessoal.
Flash explodiram.
— Senhor primeiro-ministro, quem é Elisa River? — alguém gritou antes mesmo de eu continuar.
— Elisa River é minha namorada — respondi, sem hesitar. — E é a mãe da minha filha, Melissa.
O salão entrou em ebulição. Vozes se sobrepunham, perguntas eram lançadas sem ordem. Levantei a mão, exigindo silêncio.
— Um de cada vez.
Uma repórter da primeira fila se levantou.
— Está dizendo que teve uma filha? Há quanto tempo o senhor conhece a senhorita River?
— Sim. E a conheci há dois anos.
— Dois anos? — Outro interrompeu. — E só agora ela aparece? Por que as escondeu?
— Elisa é uma mulher reservada, tímida — expliquei. — Quando descobriu quem eu era, não quis nada comigo. Precisou de muito esforço da minha parte para convencê-la sequer a sair comigo.
Alguns sorrisos surgiram. Outros olhares desconfiados.
— Difícil imaginar o senhor tendo que conquistar alguém — ironizou um jornalista.
Inclinei levemente a cabeça.
— Pois foi exatamente assim. Elisa é teimosa. Independente. E deixou claro que só sairia comigo se não virasse manchete no dia seguinte. Ela não queria um namorado famoso.
— E o senhor concordou? — perguntou uma repórter.
— Garanti que respeitaria isso — continuei. — E vendo as manchetes que nos trouxe aqui hoje, ela estava certa. Por isso as mantive em segredo, longe do meu mundo, por proteção.
— Onde conheceu a senhorita River?
— Foi por acaso quando visitava meu irmão. Eu quase a atropelei. E ela me xingou muito. — Comentei sorrindo e eles riram juntos.
— E o primeiro encontro?
— Nosso primeiro encontro aconteceu no jardim de uma das minhas casas, sob a luz da lua. Ali demos nosso primeiro beijo. Lentamente, fomos nos apaixonando. E acabamos nos entregando um ao outro.
O salão ficou estranhamente silencioso por alguns segundos. Eu havia conseguido convencer esses bando de urubus.
— E sua filha? — questionou outro. — Como isso aconteceu?
— Ora, sério que está me perguntando isso? Não quer que eu explique como os bebê, são concebidos, não é mesmo? — falei sorrindo e todos riram e continuei.
— O amor que nos uniu foi mais forte que a razão — respondi. — Passamos do limite uma única vez. Dessa entrega nasceu Melissa. Fruto do nosso amor.
Um murmúrio percorreu a plateia.
— Mas isso não contraria o conservadorismo que o partido do senhor defende? — insistiu um jornalista. — Um filho fora do casamento?
Senti a tensão percorrer meu corpo por um instante. Não porque estivesse desprevenido, mas porque aquela pergunta tinha peso. Era o tipo de acusação que derruba governos. Levantei a mão novamente.
— Silêncio.
Demorou, mas consegui.
— Não sei de onde o senhor tirou essa mentira — respondi, com firmeza. — Mas posso afirmar que não é verdade. Sou vítima de uma perseguição sistemática há meses. E hoje, finalmente, posso provar.
Fiz um gesto discreto para Pablo.
— Se olharem para o telão.
As luzes diminuíram. A tela atrás de mim se acendeu. Imagens começaram a ser exibidas. Afonso, em encontros discretos com alguns dos repórteres presentes ali. Vídeos. Fotos. Em seguida, áudios começaram a ecoar pelo salão. Conversas claras, combinando pautas, inventando rumores, planejando ataques. O caos foi imediato na sala.
— Isso é mentira! — Afonso se levantou num salto, o rosto lívido. — É uma armação!
Alguns repórteres se levantaram às pressas e correram para a saída, como ratos deixando um navio afundando. Tarde demais. As portas se abriram e policiais entraram.
— Senhor Afonso Martone — disse um deles —, o senhor está preso por desrespeitar uma ordem judicial de manter distância mínima de um quilômetro do senhor Victor Baltimor, além de responder por perseguição, calúnia e difamação.
— O quê? Eu sou senador! — Afonso gritou, sendo algemado. — Isso é um absurdo!
— O senhor prestará esclarecimentos na delegacia — respondeu o policial, impassível.
Afonso tentou se soltar, se debatendo.
— Victor! — gritou, fora de si. — Eu vou acabar com você!
Câmeras registravam tudo. Os jornalistas estavam em frenesi. O furo do ano estava diante deles. Elisa e Melissa já não importavam. O espetáculo agora era outro. Eu apenas observei, em silêncio. Afonso não deveria ter mexido comigo.

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