“Corajoso não é quem não tem medo. É quem tem medo e segue em frente assim mesmo.” — (Clarice Lispector)
(...)
O dia escorreu em tarefas úteis — aquelas que te mantêm funcionando quando por dentro tudo está desmoronando.
No meio da tarde, uma sombra de éter atravessou meu nariz. O cheiro veio do nada, fantasma químico que não deveria estar ali. Meu corpo quase tropeçou num corredor que de repente parecia antigo, conhecido, perigoso
Parei. Apoiei a mão na parede.
“Respira. Pelo diafragma. Devagar.”
Atenção, não medo. O passado, hoje, fica no caderno. Não aqui. Não agora.
...
No fim do expediente, a equipe foi embora em ondas. Vozes se despedindo, passos se afastando, portas se fechando até sobrar só o silêncio e eu.
Eu precisava de ar. Ar de verdade, não esse reciclado de escritório que sufoca mais do que ajuda.
Decidi caminhar as duas quadras até a esquina para levar um documento que um fornecedor tinha esquecido. Poderia mandar por motoboy — seria mais rápido, mais seguro, mais sensato. Mas eu queria esticar as pernas até onde o mundo ainda parece rua de verdade, onde as coisas ainda fazem sentido.
Eram só duas quadras. O que poderia acontecer em duas quadras?
Mandei mensagem curta pro grupo:
[R.: “Saindo 10 min, a pé. Duas quadras.”]
[Rafael: “Perímetro ok. Linha aberta.”]
[Joana: “Painel armado.”]
Desci.
O sol se derramava num dourado melancólico sobre a cidade — aquela luz de fim de tarde que deixa tudo mais bonito e mais triste ao mesmo tempo. As barracas de rua desmontavam com ruídos metálicos. Crianças transformavam tampinhas de garrafa em bolas oficiais de campeonato. A cidade fazia aquele barulho que costuma me acalmar quando a cabeça acende mais do que deve.
Virei a primeira esquina.
O sedã preto não estava no mesmo ponto da manhã — estava noutro, com a mesma paciência estudada de predador que sabe esperar. Não parei. “Olha pros lados e anda. Sempre anda.”
Foi quando ouvi:
— Menina…
A voz veio de uma senhora sentada num banco de cimento rachado. Vestido florido gasto pelo tempo e pela lavagem, coque improvisado preso com grampos que brilhavam ao sol. Olhos muito escuros e muito vivos — os únicos que pareciam ainda prestar atenção de verdade no mundo.
Parei a uma distância segura. Aquela que a rua ensina a manter com estranhos.
— A senhora falou comigo? — perguntei, a voz saindo mais cautelosa do que pretendia.
Os olhos dela me mediram devagar, como quem relê uma página antiga que marcou a vida e não consegue esquecer.
— Sim — ela disse, e havia algo de assombrado naquele olhar.
— É que você me lembrou alguém.
Meu coração deu um pulo estranho. “Cuidado.”
— Uma moça que levaram — continuou a velha, a voz baixa mas firme.
— Grávida. Assustada. Tinha seu jeito, seu porte. Os mesmos olhos grandes, a mesma boca bem desenhada. Mas ela estava diferente — o corpo inchado, o rosto marcado pelo medo que ninguém consegue esconder.
Ela fez uma pausa, estudando minha reação.
— Se não era você, era alguém muito parecida com você.
A palavra “levaram” não fez som alto, mas abriu uma porta por dentro do meu peito. Uma porta que eu tinha certeza de ter trancado.
— Levaram... como assim? — minha voz saiu mais fraca do que eu queria.
— Todo mundo me chama de Dona Lúcia — ela respondeu. — Moro ali na esquina, no prédio verde. Se um dia precisar conversar, é só aparecer. Vai com Deus, menina. E olha pros lados quando andar. Sempre olha pros lados.
...
Voltei caminhando devagar, processando o encontro. Cada palavra dela ecoava na minha cabeça como sino tocando para funeral.
Levaram. Grávida. Assustada. Carro preto. Mulheres entrando grávidas e saindo vazias.
O sedã preto tinha sumido do local onde estava, mas eu sentia aquela presença invisível — como quando você sabe que alguém está te observando mesmo sem ver ninguém. Como quando você sabe que está sendo caçada.
Não olhei para trás.
No bolso do instinto, guardei mais um aviso. Mais uma peça do quebra-cabeça que eu não sabia que estava montando.
Ou que estava sendo montado ao meu redor.
O sedã tinha sumido, mas a sensação de ser observada continuava grudada na pele.
Quando cheguei ao escritório, minha mente já estava à frente — na reunião da noite passada, nos documentos, nas respostas que talvez estivessem finalmente ao alcance.
Mas as palavras de Dona Lúcia martelavam:
“Mulheres entrando grávidas e saindo vazias.”
E a certeza fria que se instalou no meu peito:
Uma delas fui eu.
Não era mais questão de “e se”. Era questão de quando. E por quê.
E o que fizeram com o que tiraram de mim.
E mais... foram eles que tiraram a minha memória também?

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