Pensar em lobos gerava uma sensação esquisita dentro de Rhys. Ele, teoricamente, não sabia muito de nada, como se a memória dele tivesse sido destroçada. Ele sabia o que algumas coisas eram, mas não todas. Claro que o pior era não saber sobre si mesmo além de um nome.
— Lobos?
— Sim. Estamos no meio da floresta, é normal ter lobos por aqui — Harold falou. — Hugh não era um caçador, ele apenas coletava frutas e ervas, para vender, sabe? Um dia, ele saiu e não voltou mais. O corpo foi encontrado não muito longe, todo… bom, num estado horrível.
O idoso suspirou e sentou-se ao lado de Rhys.
— Nós humanos somos muito frágeis, comparados com esses animais. Ah, não me olhe assim. Eu os acho fascinantes. E sejamos sinceros, aqui é a casa deles. Nós que invadimos.
— E por que não moram em outro lugar, então? — Rhys perguntou, sem qualquer maldade.
— Porque a cidade também é perigosa. Os lobos são os próprios humanos. Aqui, apesar do perigo da natureza, é melhor do que estar cercado de estranhos, em um mundo caótico. Cidades são complicadas.
Rhys não tinha ideia do que era uma cidade. Ele realmente não se lembrava.
— Mas não é onde humanos vivem?
— Sim. Mas alguns humanos ainda vivem assim, como nós, mais afastados. Eu trabalhei por muito tempo em uma cidade grande. Para mim, viver aqui é bem melhor. O atendimento médico é mais difícil, a cidade tem algumas vantagens. Mas a paz… ah, a paz é incomparável!
Rhys apenas assentiu, absorvendo cada palavra. Ele queria tanto se lembrar! Será que também vinha de uma cidade? Ou morava como Harold e a viúva ao lado?
Ele era um homem grande, apesar de estar abatido. Segundo Harold, Rhys era do tipo grandalhão, e que daria um ótimo lenhador. Mas as mãos não eram cheias de calos, como os trabalhores desse tipo que ele conheceu eram.
“ — Você tem cara de quem não é daqui, mesmo,” — Harold havia dito. Ele suspeitava que Rhys era um aventureiro da cidade grande e que acabou sofrendo um acidente e se perdendo. Porém, aqueles ferimentos…
Harold e Macy continuaram a conversar. Ela tinha os cabelos castanhos, mas com um fundo avermelhado e isso fez alguma coisa dentro de Rhys se mexer. Não havia nada no rosto dela que lhe chamasse a atenção, mas os cabelos… Será que ele conhecia alguém com cabelos como aquele?
— Aqui, coma — Harold falou. Rhys já conseguia segurar a própria vasilha de comida.
— Ele se recuperou bem rápido, não é? — Macy comentou e Harold assentiu com a cabeça.
— Sim! Ele é bem forte.
Os efeitos do wolfsbane passando, bem como a falta da interferência da prata, faziam com que Rhys conseguisse alcançar um pouco do potencial de cura de um lobisomem.
Uivos foram ouvidos, ao longe, e o peito de Rhys se contraiu.

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