"Heloísa"
A minha casa era um refúgio de paz, mas tudo ficava melhor para mim às sextas feiras, quando a minha neta vinha passar um tempo comigo. E neste momento, a Alice estava sentada à minha frente enquanto tomávamos o chá da tarde. No entanto, hoje, o meu pensamento não abandonava a casa do meu filho.
- Vovó, o papai estava com cara de quem ia dar um beijo de cinema na Lolô quando a gente saiu. - A Alice comentou com uma risadinha, soprando o seu chá de camomila. - Você acha que eles vão se casar logo?
- Casamento é um passo sério, querida. Precisa de tempo. E precisa que o seu pai aceite os sentimentos que ele está descobrindo. - Eu sorri, observando a astúcia da minha neta. Com aquela carinha de anjo, ela era um radar que captava tudo. - Me diga, Alice, a Lorena pareceu aliviada quando eu cheguei com as roupas, não pareceu?
- Ela ficou com cara de quem ganhou um presente de fada madrinha. - A Alice riu. - Vovó, eu estou fazendo tudo direitinho como combinamos. Desde o primeiro dia. E eu vou continuar fazendo a Lolô se arrumar como uma princesa.
- Isso mesmo, querida. Eu vou continuar te ensinando uns truques com maquiagens e roupas, e a sua Lolô nunca vai resistir aos seus pedidos. - Eu sorri.
- E o papai nunca vai resistir a Lolô! - A risadinha esperta da Alice era o que denunciava a sua esperteza e inteligência. Mas ela ficou séria de repente. - Mas a Sra. Adelaide ficou com cara de quem chupou limão azedo. Eu não gosto do jeito que ela olha para a Lolô, vovó. Parece que ela quer fazer mal para a Lolô.
Eu coloquei a xícara de porcelana sobre o pires e sorri para a minha neta.
- A Adelaide é uma mulher de tempos antigos, Alice. Ela não entende que o mundo gira. Mas não se preocupe, eu estou de olho e estou cuidando para que tudo o que ela pudesse usar contra a sua Lolô começasse a desaparecer.
- Mas o que ela poderia ter contra a Lolô, vovó? A Lolô é a pessoa mais linda e carinhosa que eu conheço. - A Alice inclinou a cabeça.
- Eu sei, querida. - Eu olhei para o horizonte, pensando nas providências que eu tinha tomado. - A Lorena precisa estar com a mente tranquila para enfrentar o que vem por aí. Se ela não tiver que se preocupar com alguns detalhes, ela poderá se focar no que realmente importa: o seu pai.
- Ela faz o papai feliz. E ela gosta de mim, vovó. Do mesmo jeito que eu gosto dela. Eu quero tanto que a Lolô seja a minha mamãe!
A Alice deu um sorrisinho doce que apertou o meu coração. Ela merecia uma figura materna e o meu filho merecia ser feliz. Eu não estaria por perto zelando deles para sempre.
- Vamos ter paciência, querida. Aprensa, a paciência é uma grande virtude. - Eu falei para ela que deu uma risadinha.
- Sabe, vovó, o papai nunca desconfiou que foi a senhora que mandou a Lolô lá pra casa. Eu só não entendi como você conseguiu fazer desaparecer a babá que a Sra. Adelaide tinha encontrado. - A Alice me olhou com os olhinhos espertos.
- Ssshhh. Esse é o nosso segredo, Alice. - Eu pisquei para ela. - Eles não podem saber. O seu pai é muito orgulhoso e a Lorena é teimosa demais para aceitar ajuda direta. Às vezes, os adultos precisam de uma fada madrinha invisível para realizar os seus sonhos principalmente o seu pai.
A Alice inclinou a cabeça, seus olhos brilhando com uma inteligência que ela costumava esconder sob os sorrisinhos para não assustar a Lorena.
- Eu cuido dos abraços, vovó. E o papai cuida de assustar os monstros. Mas sabe de uma coisa? Às vezes a Lolô chora baixinho quando acha que eu estou dormindo. Eu acho que ela tem medo que o papai a mande embora. Ele não vai fazer isso, não é, vovó?
Senti um aperto no peito. Eu sabia que a Lorena carregava nuances que o meu filho, com aquele seu jeito arrogante de ver tudo preto ou branco, ainda não tinha aprendido a enxergar. O Érick achava que o dinheiro e o sobrenome Albelini eram um escudo inquebrável e que ele poderia simplesmente abrir as suas asas e proteger a Lorena, mas ele não entendia que não era bem assim.
- O seu pai não vai mandá-la embora, Alice. Nós vamos garantir isso. - Eu peguei o meu celular e verifiquei uma notificação de confirmação que tinha acabado de chegar e sorri.
- Vovó? - A Alice me chamou, sua voz agora um sussurro cúmplice. - A Lolô não sabe que o Tio Beto é o nosso guardião secreto. Você não acha que a gente pode contar que ela pode confiar nele?
- Melhor não, Alice. - Eu pisquei para ela. - Vamos manter nosso plano em segredoe os nossos ajudantes tambérm. A missão agora é deixar o seu pai e a Lolô sozinhos o máximo possível. O seu pai precisa aprender que o amor exige mais do que comandos, exige entrega e dedicação. Por isso, estou pensando... o que você acha de passar o fim de semana inteiro aqui comigo? A gente diz para o seu pai te buscar só no domingo à tarde e convida ele e a Lolô para um lanche.
- Isso! Eles vão poder dar muitos beijos e abraços. - A Alice se empolgou.
Eu observei minha neta e soube que os Albelini estavam em boas mãos. A Alice tinha a inteligência do pai, entendia muito mais do que deixava transparecer, mas era muito mais diplomática que o Érick, ela era o elo que mantinha aquela estrutura de pé. E eu? Eu fazia o que era possível. Eu só esperava que, quando a verdade finalmente viesse à tona, porque em algum momento viria, a Lorena entendesse que eu não era sua inimiga.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite