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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 109

"Érick"

O cheiro de couro e café forte no meu escritório da empresa não conseguia dissipar o rastro da Lorena que ainda parecia impregnado em minha pele. Eu olhei para a poltrona à minha frente, e por um segundo, o relance de uma visão me distraiu: a Lorena, na penumbra do meu quarto, vestida apenas com aquele tule rosa transparente que eu levei o fim de semana inteiro para conquistar o direito de ver. A pele dela sob o tecido, o contraste do rosa pálido com a sua entrega visceral...

Eu balancei a cabeça, forçando as lembraças do fim de semana para o fundo do meu cérebro e tentando focar a minha atenção nos contratos em minha frente. O fim de semana foi um delírio necessário, absurdamente sexy e viciante, mas a segunda feira não perdoava. Eu tinha que trabalhar e não podia deixar que os tubarões ao meu redor sentissem o cheiro do meu novo ponto fraco ou eles causariam problemas.

Eu mal tinha voltado para os papéis sobre a minha mesa quando fui interrompido. A batida na porta foi curta. O Julian entrou, e eu percebi imediatamente que ele não tinha dormido bem. Havia uma rigidez em sua postura que não condizia com o tom relaxado da mensagem de sábado.

- O relatório, Érick. - Ele colocou um envelope pardo sobre a minha mesa. - Como eu adiantei, a holding que está pagando as dívidas da Lorena é um "blind trust", um fundo cego. É praticamente impossível se chegar ao proprietário, que provavelmente não é apenas um, nem nós conseguimos esse acesso. Mas, o que nós conseguimos é suficiente para nos tranquilizar.

- Como pode ser suficiente? - Eu o encarei, ele não entendia que a segurança da Lorena era uma questão vital?

- Essa holding gerencia investimentos que alimentam uma rede de instituições de apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade. O pagamento das dívidas da Lorena foi processado como um "caso de reparação" e as decisões são tomadas por um conselho totalmente isento e acima de qualquer suspeita que não toma conhecimento do nome do beneficiário para decidir, apenas da situação. E eles também não sabem que são os proprietários e nem os proprietários sabem em quê o dinheiro é investido. São como doadores anônimos.

Eu abri o envelope, folheando as páginas. Tudo parecia... limpo demais. Organizado demais. Perfeito demais.

- E quem seleciona esses casos, Julian? Quem deu o nome da Lorena para esse fundo? - Eu questionei, aquilo parecia bom demais e na minha experiência nada que era bom demais era de graça.

O Julian desviou o olhar por um milésimo de segundo, um gesto que em qualquer outra pessoa eu chamaria de hesitação, mas que nele parecia apenas cansaço.

- O sistema é automatizado, baseado em registros judiciais de despejo, insolvência e violência doméstica. Eles buscam perfis como o dela: mulheres traídas por parceiros que deixaram dívidas, obrigações e dificuldades diversas.

Eu fechei o envelope. Algo ainda me incomodava, mas antes que eu pudesse cavar mais fundo, a porta foi aberta sem cerimônia. Simão, o membro mais antigo e incômodo do Conselho, entrou com a expressão de quem carregava o peso do mundo... ou o prazer de destruí-lo. Rapidamente eu guardei os papéis que o Julian me entregou em uma das gavetas da minha mesa.

- Não, Albelini. - Ele deu um sorrisinho cínico. - Se fosse fácil assim o Conselho nem se incomodaria. Eles querem que seua situação seja sólida... e que essa mulher tenha um "currículo" sem máculas. Entende? O passado dela não pode ter um grão de areia fora do lugar. Mas acho que isso não vai ser problema, eu soube que o seu advogado está conseguindo provar que ela não cometeu aquela fraude.

- Você está muito bem informado. - Eu respondi sem nenhuma alteração de voz ou em minha expressão.

- Eu preciso ser. Nós somos uma empresa de investimentos Érick, precisamos ser sólidos e confiáveis. E você é o rostinho bonito que nos representa, portanto... O jantar do Conselho está chegando. Apresente a sua noiva, uma dama impecável, com o passado cristalino e nos convença de que o seu casamento manterá a empresa segura. Mostre ao conselho que a sua "babá" não é um ponto fraco ou uma distração.

O silêncio que se seguiu foi cortante. Eu olhei para o Julian, que permanecia imóvel em minha frente. Eu queria a Lorena, sim. Eu a queria em todos os sentidos possíveis. Mas ser forçado pelo Conselho a transformá-la em uma Albelini sob pressão era o tipo de jogo que eu detestava jogar.

E o pior: eu sabia que, se Lorena sentisse que estava sendo usada para "acalmar acionistas", ela fugiria antes mesmo de eu conseguir colocar o anel em seu dedo.

Com a missão dada pelo Conselho cumprida, o Simão sorriu e se retirou com aquele ar prepotente. Eu odiei a forma como ele se referiu a Lorena. Eu odiei a ousadia com que ele me desafiou. Eu odiei que ele pensasse que podia decidir a ruma da minha empresa e da minha vida.

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