"Érick"
A porta mal tinha parado de vibrar após a saída do Simão e eu encarei o Julian. Desde que o Simão abriu a boca tudo o que eu queria saber era como Conselho estava tão bem informado da minha vida pessoal. Eu tinha dado ordens muito claras ao Andrey sobre eventuiais "vazamentos" de imagem daquele dia da escola em que enfrentei aquelas hienas para proteger a Lorena.
- O Andrey...? - Eu nem precisei terminar a pergunta.
O Andrey entrou, sem bater, com aquela expressão de quem tinha acabado de atravessar um campo de batalha. E ainda não eram dez da manhã. Ele jogou um tablet sobre a minha mesa, exibindo uma série de e-mails criptografados.
- Puta que pariu! Esse urubu do Simão chegou antes de mim. - O Andrey entrou sem cerimônia nenhuma e completamente perturbado. - Érick, eu cerquei tudo. Ninguém publicou nada. Mas hoje, quem mandou isso para o Conselho não queria apenas fofoca. Queria o seu pescoço em uma bandeja de prata.
- Não diga? - Eu o encarei. - E quem quer o meu pescoço, Andrey? Eu não consigo imaginar como alguém como eu, tão simpático e inofensivo pode ter um inimigo. - Eu o encarei e ele estremeceu.
- Simpático e inofensivo. - O Julian começou a rir.
- Um inimigo... - O Andrey bufou. - Está de sacanagem, Albelini?
- Sacanagem é muito melhor que isso, Andrey! - Eu respondi com um sorriso cínico. - Eu quero um nome, porra!
- Olha, Andrey, ele está até fazendo piadinha! Foda-se o Conselho, Érick, nós queremos saber é o que a Lolô tem que te deixa assim, tão calminho. - O Julian brincou.
- Julian, entenda uma coisa, o que ela tem não é da sua conta. E se continuar chamando a minha mulher com tanta intimidade...
- Eu vivi para ver isso, Érick Albelini com ciúmes! - O Julian falou com aquele ar debochado. - Acostume-se, Albelini, a Lolô é uma de nós! Ela comeu pizza da caixa e tomou cerveja no gargalo com a gente, ela agora é da irmandade.
- Irmandade é o caralho, Julian! - Eu respondi fingindo irritação, mas o Julian trouxe para a minha mente a noite deliciosa de sexta e eu já estava sorrindo. Mas eu me recompus rapidamente e me virei de novo para o Andrey. - Um nome, Andrey, quem foi que enviou isso para o Conselho?
- Um nome? Albelini, dizem que colecionar é explorar uma paixão por um tema específico. Eu coleciono selos. O Julian posteres de mulheres semi-nuas. - O Andrey falou como se estivesse explicando para a Alice.
- Não são mulheres semi-nuas, idiota, são pin-ups, mulheres voluptuosas, sexys, que simbolizam um erotismo ingênuo e vintage! É cultura pop, palhaço! - O Julian corrigiu o Andrey.
- Ele se ofende quando falamos da coleçãozinha dele. - O Andrey revirou os olhos. - Mas enfim, o fato é que você, meu amigo, tem uma paixão especial por colecionar inimigos! Eu teria no mínimo uns trinta nomes para você.
- E o que você vai fazer, Érick? Seria mais fácil ceder à pressão, você está com uma deusa e ser casado com a Lolô não é nenhum fardo, mas você não cede, não é? Vai dobrar a aposta e quebrar banca? - O Andrey avaliou a minha expressão.
- Eu vou fazer as duas coisas. - Eu me levantei, pegando meu paletó. - Julian tente descobrir por que o Conselho está tão Exigente ultimamente. Andrey, sufoque a Verônica Albuquerque em tantos problemas que ela não tenha tempo para se lembrar de mim. Vamos para a minha casa. Se o Conselho quer um patriarca, eu vou mostrar a eles o que acontece quando um Albelini decide proteger o que é dele.
- Você não está pensando...? - O Julian sabia exatamente o que eu estava pensando. - Érick, isso não é tão simples. O impacto no mercado...
- Julian, se nós três fizermos uma frente forte e coesa, o mercado entenderá que estamos consolidando o Grupo Albelini. - Eu o encarei.
- É arriscadao. E talvez a gente nem consigo. - Ele pensou um momento. - Foda-se! Nós não transformamos o Grupo Albelini sendo sensatos e mantendo uma administração conservadora.
- É isso aí! Nos encontramos na minha casa. Sejam rápidos. - Eu falei já chegando à porta, mas ainda ouvi o Andrey reclamando.
- Por que eu nunca entendo como vocês dois resolvem as coisas sem falar nada? - O Andrey reclamou como uma criança e eu saí rindo, enquanto o Julian dizia que o explicaria na minha casa.
Eu precisava chegar até a Lorena. Precisava garantir que ela estivesse segura entre aquelas paredes até que eu conseguisse eliminar o problema do Conselho. E precisava que meus dois homens de confiança me ajudassem a traçar a estratégia, antes do jantar do Conselho dali a uns dias. Isso tinha que dar certo, não importava o tipo de favor que eu tivesse que cobrar.

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