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A vida dupla da babá: Santa de dia, Scarlat à noite romance Capítulo 59

"Lorena"

Eu ainda estava sentada no sofá da Dalva, olhando para os rostos perplexos dela e da Marcelina depois de me ouvirem contar sobre a minha semana na casa do Albelini.

- Vocês não vão dizer nada? - Eu perguntei já custando a suportar aquele silêncio. Eu já tinha culpa demais sobre mim e ainda precisava lidar com a Scarlat frente a frente com o Érick.

- E você disse que ela não tinha como se enrolar em mais problema, Dalvinha. - A Marcelina falou para a Dalva ainda chocada, sem tirar os olhos de mim.

- É, eu sabia disso, mas eu acho que ela não sabia, foi lá e fez. Acabou arranjando mais um dos grandes. - A Dalva estava com a mão no rosto como se estivesse abobalhada.

- Como eu saio disso, Dalvinha? - Eu perguntei para aquela mulher que tinha se tornado mais que uma amiga, era quase uma mãe para mim.

- Só tem um jeito, Lorena, contando a verdade antes que ele descubra. Você já foi enganada, sabe como dói. - A Dalva tinha toda razão, mas eu não tinha nenhuma coragem.

- Quer saber, eu não contaria. Faz a Scarlat terminar com ele, Lô. E depois foge dele e dos amigos sempre que aparecerem na Infernal. - A Marcelina deu de ombros com seu jeito simplista.

- Eu acho que é melhor deixar a Infernal, Lina. - Eu esfreguei os olhos, cansada de tanto pensar e não chegar a lugar nenhum.

- Se o Barão te deixar sair. Você faz dinheiro naquele lugar, Lô. O Barão não vai querer te perder. - A Marcelina me alertou.

- Isso eu posso resolver, treinar uma nova Scarlat... sei lá. Você é muito melhor que eu. Mas eu preciso daquele dinheiro também. - Eu estava em uma situação delicada demais.

- Lorena, você não faz nada errado na boate, só serve as mesas. Conta a verdade para esse moço e explica que precisa do dinheiro. - A Dalva sugeriu.

- O problema, Dalvinha, é que ele acha que a Scarlat faz as coisas erradas e a prova disso está nesse envelope. - Eu apontei para o envelope de dinheiro ao meu lado.

- Olha, Lô, minha opinião pra você é a seguinte, vai lá, incorpora a Scarlat, termina com o gostosão, devolve esse dinheiro que queima na sua mão como se fosse o fogo do inferno, e amanhã decide se vai sair da boate ou não. E depois decide se conta a verdade para o gostosão ou não. Mas nós precisamos ir para não nos atrasar. - A Marcelina falou com a segurança de quem vê o problema de fora.

Acontece que a Marcelina tinha razão, a primeira coisa a ser feita era a Scarlat terminar com o Érick e devolver o dinheiro. Aquilo era realmente o fogo do inferno. Eu a encarei por um momento, peguei o envelope e a minha bolsa e me despedi da Dalva.

No camarim da boate, eu encarava o reflexo no espelho e sentia uma náusea profunda. A mulher que me devolvia o olhar, de peruca vermelha vibrante, olhos marcados pelo preto e lábios pintados de forma provocante, parecia uma estranha. Uma impostora que estava roubando a minha chance de ser feliz.

Esta manhã eu estava nos braços de Érick no escritório da mansão, sentindo o calor do seu beijo. Agora, eu estava vestindo o couro e a renda da Scarlat, me preparando para perder para mim mesma. Como eu tinha conseguido complicar tanto a minha vida?

- Ele é a maior, mas não é a única. Está na hora de fazer os outros aumentarem a conta. - Eu encarei o Barão que parecia muito confuso com a minha rebeldia. - Ai, Barão! Não é bom para a casa que eu atenda o mesmo cliente toda semana. Entregue isso ao Albelini, espere ele ir embora, porque ele vai, e depois anuncie nos outros camarotes que a Scarlat e a Pandora estão livres. Faça um leilão silencioso, quem pagar mais para ser servido por nós, terá a honra. - Eu os olhos do Barão brilharem com os cifrões e estendi o envelope, sentindo um nó na garganta que ameaçava me sufocar. - Diga ao Albelini que eu fui embora. Diga que eu me cansei do jogo dele. Diga o que quiser, mas não deixe que ele venha atrás de mim.

- Scarlat, se eu fizer isso, ele vai quebrar este lugar! - Ainda havia um certo receio no Barão. Talvez o Érick quebrasse o lugar na semana anterior, mas hoje não e eu sabia porque.

- Ele não vai. - Eu garanti a ele, pensando no homem que me abraçou essa manhã. - Ele vai ficar furioso por um minuto, mas só porque quem está terminando com isso sou eu e não ele, mas depois... depois ele vai se sentir o homem mais livre do mundo.

- Mas se ele vai fazer o que você quer, pra quê ferir o orgulho do homem? - O Barão choramingou.

- Porque é assim que a Scarlat faz! - Eu virei as costas antes que o Barão pudesse falar qualquer coisa mais. - Mas nada de anunciar a Scarlat e a Pandora no camarote dos amigos dele, Barão.

Eu corri para a fresta da cortina pesada atrás do palco que dava para o salão principal e me escondi nas sombras. Dali, eu tinha uma visão privilegiada do "Trono". Ele estava lá, imponente, olhando de cima.

Eu vi o Barão entrar no camarote, vi o Érick se levantar, a postura tensa, os olhos buscando a mulher de peruca vermelha que ele esperava encontrar. Eu vi o momento exato em que o Barão estendeu o envelope. E, enquanto ele abria o bilhete, o tempo pareceu congelar. Até que o copo que estava na mão dele espatifou na parede e ele amassou o brilhete. O meu coração parou. Mas como eu imaginei, não demorou muito para que ele colocasse o envelope no bolso e sair da boate a passos firmes.

Pronto! A Scarlat estava morta!

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