"Érick"
Entrar na minha casa depois do dia no chalé foi como mergulhar em um balde de água gelada. O olhar da Adelaide na porta era uma inspeção completa e ela não conseguia esconder o julgamento. Eu não disse nada até que Alice subisse para tomar banho com a Lorena.
- Adelaide, ao meu escritório. Agora. - Meu tom não aceitava discussões. Em poucos segundos de volta em casa a minha governanta me fez perder a paciência.
No escritório, eu não me sentei. Olhei para a mulher que cuidava da minha casa há anos e vi apenas a amargura que ela tentava despejar na Lorena. Eu não entendia porque ela havia implicado tanto com a Lorena.
- Adelaide, você sempre foi da minha confiança, sempre foi eficiente e manteve esta casa funcionando durante todos esses anos em que trabalhja comigo.
- Sim, senhor, é o meu trabalho manter a casa em ordem e eu faço o melhor que posso. - A resposta mecânica dela chegou a ser irritante.
- Então me diz, o que está acontecendo? Eu fui claro sobre como a Srta. Valente deveria ser tratada nesta casa, mas eu não fui ouvido. Eu tomei conhecimento das suas insinuações e o seu veneno. - Eu dei um passo à frente, deixando claro para ela quem mandava ali.
- Ah, claro. Aquela senhorita já foi fazer fofoca. - A Adelaide empertigou-se. - Sr. Albelini, essa mulher não é adequada para esta casa.
A forma como a Adelaide falou me irritou profundamente, pois a frase dela estava carregada de intenções que não me agradavam.
- Cuidado, Adelaide, para não ultrapassar um limite perigoso! Quem decide quem é adequado para esta casa ou não sou eu. Inclusive, eu posso decidir que você não é mais adequado como minha governanta. A Lorena vai ficar exatamente onde está e se você for desagradável ou pelo menos olhar torto para ela de novo, quem não será adequada para esta casa é você. Fui claro? - Minhas palavras cortavam como lâminas de gelo, minha irritação com a Adelaide foi além do que eu previa.
- Sim, senhor, claríssimo. - Ela abaixou a cabeça.
- Muito bem. Que fique claro, Adelaide, a Lorena é muito mais do que babá da Alice, ela é importante para a minha filha e é a guardiã dela. Então, não se meta com a Lorena.
- Sim, senhor.
- Considere este o seu primeiro e único aviso formal. Se eu ouvir mais uma palavra sobre ela ser "entretenimento" ou "passagem", ou qualquer outra coisa que a diminua ou que a torne fofoca entre os meus empregados, você estará na rua antes de conseguir implorar clemência. Fui claro?
Ela empalideceu, as mãos entrelaçadas com força.
- Sim, Sr. Albelini. Me desculpe, eu só pensei no bem da menina... - Ela começou a dar uma desculpa que não me convencia e me irritava mais por ser uma mentira.
- O bem da minha filha é a Lorena quem faz. Saia e não se meta com elas. - Eu ordenei e ela saiu do escritório.
Eu me sentei atrás da minha mesa e fechei os olhos, na minha mente a imagem da Lorena nos meus braços hoje no nosso refúgio, sem o medo nos olhos, sem tentar esconder de mim aquele brilho... essa era a minha maior vitória, ter conseguido que ela se revelasse para mim, ter conseguido que ela me desse uma chance. Mas enquanto eu me recordava do nosso dia de paz, uma decisão se solidificava na minha mente: eu precisava acabar com a Scarlat, tirar a capetinha de uma vez da minha mente.
Aquela mulher da boate era um vício sombrio, uma distração que me deixou curioso quando ninguém mais me despertava interesse, mas agora eu tinha a Lorena e eu só conseguia pensar nela. Agora que eu tinha a verdade nos meus braços e a Scarlat era um fantasma que eu precisava exorcizar. Eu ia voltar à Infernal uma última vez, apenas para deixar claro que o jogo acabou. Eu ia me livrar da capetinha para poder ser o homem que a Lorena merecia.
Durante o jantar a Alice me pegou sorrindo de maneira incomum e me deixou em uma situação difícil, sem saber como explixar para a minha filha que eu estava feliz e a culpa era da babá dela. Mas a Lorena veio em meu socorro e a distraiu com algo sobre a tarde que ela passou com a avó.
Mais tarde, o silêncio da casa me atraiu para o corredor. Eu não conseguia dormir sem sentir o cheiro dela. Eu imaginei que a Alice já estivesse num sono profundo no seu próprio quarto, depois que a Lorena a convenceu que já não tinha mais medo. Eu entrei no quarto da Lorena com o cuidado de um invasor, encontrando-a ainda acordada, lendo sob a luz fraca do abajur. O sorriso que ela me deu foi o incentivo para a minha audácia. Eu me sentei na beirada da cama e a puxei para um beijo que prometia mais do que um simples "boa noite".

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