"Lorena"
Na manhã seguinte, a realidade voltou a bater à minha porta. Eu levei a Alice para a escola e o trajeto de volta foi um monólogo interno de coragem. Eu não podia mais carregar a mentira da Scarlat. Eu não podia mais olhar para o Érick sem dizer a verdade. Eu precisava contar para o Érick. Agora. Antes que o "nós" que construímos no domingo se tornasse apenas mais uma lembrança dolorosa.
- Eu vou contar. Agora. - Eu falei para mim mesma, decidida, assim que saí do carro de volta à mansão.
Eu procurei por ele no escritório e no jardim. Mas ele não estava. No entanto, o carro dele estava na garagem. Eu fui direto para o quarto dele. Bati, mas não esperei a resposta, abri a porta devagar e entrei. Eu o encontrei saindo do banho, com aquela toalha enrolada na cintura e gotas de água ainda escorrendo pelo peito. O sorriso que ele abriu para mim ao me ver ali foi como se tivesse acendido estrelas no céu. O impacto visual me fez esquecer metade do meu discurso ensaiado.
- Lô? - Ele falou com a voz suave, vindo em minha direção com aquele olhar predatório e doce. - Já sentiu saudade?
- Não tem como não sentir. - Eu respondi hipnotizada pela visão do homem lindo à minha frente, já erguendo a mão para tocá-lo. Mas antes que eu me perdesse de vez, eu fechei os olhos e falei: - Érick, eu preciso falar uma coisa... - Eu comecei, mas a voz falhou quando ele me segurou pela cintura e me jogou na cama, prendendo meu corpo sob o dele.
- Tem certeza que quer falar, Lorena. Estamos só nós dois, você não prefere gemer pra mim enquanto eu me perco nesse seu corpo gostoso? - Ele sussurrou, mergulhando no meu pescoço.
Eu tentei resistir, tentei manter o foco na minha confissão, mas quando ele me tocava eu esquecia até o meu nome, o toque dele era como um incêndio que consumia a minha razão e o transformava o meu juízo em cinzas. Eu estava prestes a concordar com ele e me perder novamente quando o som seco de batidas na porta nos congelou.
- Sr. Albelini? - Era a voz ríspida da Adelaide. - Desculpe interromper, mas o Sr. Julian está na sala de estar. Ele disse que é urgente e que não sai daqui sem falar com o senhor.
- Merda! - O Érick praguejou baixo, encostando a testa na minha com um suspiro de frustração. - Eu vou demitir essa mulher e proibir a entrada do Julian nessa casa. - Ele brincou, me fazendo sorrir. - É sério, Lô. O Julian não sabe o que é timing. - Ele resmungou, me dando um último beijo casto e saindo de cima de mim.
- Diz pra ele que eu desço em cinco minutos, Adelaide. - Ele respondeu alto, sua voz de trovão que fazia o meu baixo ventre contrair. Depois me puxou pela cintura enquanto eu tentava desamassar o vestido. - O que você acha de ficar aqui na minha cama me esperando... nua... eu resolvo isso com o Julian e volto para terminarmos essa conversa? - Ele perguntou me dando um beijo rápido. - Talvez eu até te dê tempo para você me dizer o que queria, entre um gemido e outro.
- Você é um tarado! - Eu brinquei e ele riu.
- Para de se fingir de santa, você gosta do meu corpo no seu. - Ele me deu um beijo no pescoço e só então eu notei a marca dos meus dentes no seu ombro. Eu toquei com a ponta dos dedos.
- Me desculpe por isso. - Eu sussurrei e ele olhou para onde os meus dedos estavam.
- Não desculpo. Eu gostei. E se eu te desculpar por isso, também vou ter que pedir desculpas e eu não sou muito fã de pedir desculpas. - Ele declarou e puxou a alça do meu vestido para o lado, mas não encontrou o que procurava, então olhou do outro lado. - Eu tenho certeza que eu deixei uma marca aqui. - Ele passou a ponta do dedo pelo meu ombro e eu ri.
- É deixou. E um chupão no meu pescoço também. - Eu declarei e ele me olhou confuso. - É o poder da maquiagem, meu amor. - Eu expliquei docemente, rindo da expressão dele.
Ele ergueu a sobrancelha como se compreendesse de algo. O meu sangue gelou. A maquiagem da Scarlat.
- Repete. - Ele falou sério e eu o encarei em pânico. - Eu ouvi, Lorena... meu amor. Eu ouvi e gostei muito. Repete. - Foi só então que eu me dei conta do que eu tinha dito e como eu tinha dito.
- Meu amor. - Eu repeti. Os olhos azuis dele me encaravam com... adoração.
- Isso! - Ele sibilou. - Você é minha, Lorena, eu... - Ele ia dizer algo mais, mas o momento foi interrompido pela abertura abrupta da porta.
- Ah, não, Érick, que porra de banho de princesa é esse? - O Julian entrou no quarto como um furacão, mas estacou a meio caminho. - Eita... caralho!
- O Andrei que não se atreva! - O rosnado do Érick saiu baixo, perigoso. - Eu encerrei o assunto Scarlat, mas ela não é um objeto para ser passado adiante.
- Por que esse incômodo, cara? - A dúvida do Julian afligiu o meu coração.
- Porque eu não quero e ponto. Assim como você não quer nenhum de nós rondando a Pandora e você nunca conseguiu dela mais do que uns beijinhos no rosto. - O Érick retrucou e aquela informação era totalmente nova pra mim.
- Você mesmo disse que ela foi uma fantasia. Se você tem a Lorena agora, por que se importa se o Andrey vai gastar fortunas com a outra? - A voz do Julian tinha uma confusão genuína e a pergunta dele pareceu ser gravada na minha mente a ferro e fogo.
Houve um silêncio tenso. Eu conseguia imaginar o Érick andando de um lado para o outro, lutando com algo que ele não conseguia nomear.
- Eu não sei, porra! - Ele rosnou para o amigo. - Eu só não quero nenhum de vocês perto dela. É uma questão de... dignidade. Avise ao Andrey para ficar longe, ou ele vai descobrir que eu ainda sou o dono de metade daquelas ações que ele tanto preza.
O Julian soltou uma risada incrédula e o meu coração despencou das nuvens.
- Você está protegendo a garçonete da boate enquanto está apaixonado pela babá santa? Você é um caso perdido, Albelini.
Eu não consegui mais ouvir. Saí dali quase correndo em direção ao meu quarto, com a sensação de que o chão estava desaparecendo sob meus pés. O Érick estava protegendo a Scarlat sem nem saber por quê. Ele ainda sentia algo daquela obsessão por ela, e isso era o prego final no meu caixão. Como eu poderia contar a verdade agora, sabendo que ele defendia a honra de uma mulher que ele mesmo chamou de "vício"?
Eu me joguei na cama, sentindo o peso do segredo dobrar. Eu não queria ouvir tudo aquilo. Eu só queria encontrar o melhor momento para contar a verdade e agora eu não sabia se deveria contar.

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