"Lorena"
"Eu só não quero nenhum de vocês perto dela." As palavras do Érick ecoavam em minha mente, a defesa apaixonada que ele fez da outra... a outra que também era eu. Mas ele não sabia, assim como não sabia porque não queria os outros perto dela. O sentimento de posse dele sobre ela era pingava em cada palavra. E aquelas palavras foram como chicotadas em mim.
O Andrey não era como Érick. O Érick buscava uma conexão, uma fuga, o Andrey era só um conquistador, ele buscava um troféu, um objeto de exibição. Se ele pressionasse o Barão com dinheiro suficiente, o segredo da capetinha cairia por terra. E se ele descobrisse que a intocável Scarlat era a babá do melhor amigo... eu não estaria apenas desempregada. Eu estaria morta para o mundo de Érick.
Eu fechei os olhos e, por um segundo, não era a babá da Alice que estava ali. Era a mulher de peruca escarlate, sentindo o hálito do Érick no pescoço enquanto ele despejava notas de cem no seu decote. Eu me sentei na cama e ergui a cabeça, vendo o meu reflexo no espelho no canto, mas não era eu... era ela que me encarava com um sorrindo frio. Eu começava a odiar a Scarlat.
Não importava! O que importava ali era o fato de que ele não tinha tirado a Scarlat da cabeça. O pânico me subiu pela garganta como bile. E se eu não fosse o suficiente? Se ser a Lorena não bastasse? Se a tarde doce de domingo não fosse o que ele precisava?
A ironia era um gosto amargo na boca. Eu queria voltar e entrar naquele quarto, sacudir Érick pelos ombros e gritar que a mulher que ele queria afastar do Andrey era a mesma que agora estava desesperada de medo de perdê-lo. Mas a imagem do olhar possessivo de Érick na boate me paralisava. Ele não olhava a Lorena como ele olhava a Scarlat. Se ele descobrisse que a "pureza" da mulher que cuidava da sua filha era apenas o reverso de uma mesma medalha que também carregava a "luxúria" que o tirava do eixo na boate, ele a perdoaria ou a destruiria por ter feito dele um tolo?
Eu precisei de cinco segundos para recalcular a rota. Confessar agora? Impossível. A voz do Érick ao proibir que tocassem na outra não era de amor, era de um dono zelando por sua propriedade mais valiosa. Se eu contasse a verdade agora, eu perderia o homem pelo qual eu me apaixonei e ganharia o desprezo total dele. E ele com certeza me afastaria da Alice.
- Estratégia, Lorena. Pensa. - Eu sussurrei para mim mesma, engolindo o nó que se formava na minha garganta.
Eu precisava falar com a Marcelina e a Dalva. Elas eram as únicas que podiam me ajudar... as únicas que sedmpre me ajudaram. Nós precisávamos criar uma cortina de fumaça, fazer a Scarlat "desaparecer" de vez, antes que o dinheiro do Andrey falasse mais alto que a lealdade do Barão.
Eu abri a porta do meu quarto disposta a descer e esperar para falar com o Érick, pedir permissão para sair no horário de trabalho, mas o destino tinha outros planos. A Adelaide estava parada no topo da escada. O uniforme impecável, o coque tão apertado que parecia puxar suas pálpebras, e aquele sorriso... um corte fino e cruel nos lábios. Ela caminhou em minha direção e parou bem na minha frente.
- Eu te vi entrando no quarto do patrão. À luz do dia, Srta. Valente, para que todos vejam... é um tanto audacioso, não acha? - A voz dela era puro veneno destilado.
Eu senti o sangue fugir do rosto, mas não baixei a guarda. A Adelaide era um cão de guarda esperando uma brecha para morder e não seria hoje, eu já tinha problemas demais.
- Eu estava tratando de assuntos da Alice com o Sr. Albelini, Adelaide. Algo que não lhe diz respeito. - Eu respondi com a voz o mais segura que consegui.
Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância. O cheiro de lavanda e soberba que emanava dela me revirou o estômago. Eu estava começando a entender a Alice e a seletividade dos cheiros.
- O que me diz respeito é o decoro desta casa. E você não combina com esta casa. Aproveite o sol enquanto ele brilha, Lorena. Eu conheço o Sr. Albelini há tempo suficiente para saber que em breve esse bom tempo passa. E eu conheço mulheres como você o suficiente para saber que toda essa imagem imaculada e... doce, esconde algo. E eu vou descobrir...
Meu coração errou a batida. A Adelaide estava atirando no escuro e eu sabia, mas se ela também começasse a procurar eue staria perdida em tempo recorde. Antes que eu pudesse responder, o som da porta do quarto do Érick se abrindo se fez ouvir e a risada do Julian tomou conta do corredor.
- A Lili me disse que eu posso te chamar de Lolô e que você é a pessoa mais legal do mundo. - O Julian sorriu gentilmente. - Como assim você chegou e me roubou o lugar de pessoa mais legal?
- Aprenda, Juju, o poder de uma mulher é infinito! - Eu sorri para ele que me olhou surpreso.
- Ah, não Lolô... Juju não! Me senti com dez anos de novo. - Ele reclamou e o Érick estava rindo. Mas o Julian queria provocar o amigo. - Talvez eu precise de uma babá, tem alguma amiga para me apresentar?
- Sai daqui, Julian! - O Érick tirou o braço do amigo dos meus ombros. - Vai para a empresa, te encontro lá em uma hora.
- Você não precisa de tanto tempo assim, Albelini. - O Julian sorriu, era uma provocação clara. Ele deu um beijo no meu rosto, deixando o Érick de boca aberta com o seu atrevimento e se afastou.
O Érick não esperou que o amigo sumisse de vista. Ele chegou mais perto, as mãos grandes circulando minha cintura e me puxando para o calor do seu corpo.
- Finalmente esse chato foi embora. - Ele falou enquanto abria a porta do meu quarto e me empurrava para dentro, me prendendo contra ela. - Onde estávamos antes daquela interrupção irritante?
Eu fechei os olhos, sentindo o cheiro que emanava dele. Eu queria me perder ali, mas a imagem do Andrey na boate e o olhar de desprezo da Adelaide estavam me assombrando.

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