"Lorena"
A Marcelina me encarou como se não tivesse entendido a minha pergunta, frinzindo as sobrancelhas e pensando em como responder.
- Lina, já aconteceu alguma coisa entre vocês? - Eu fui mais direta e ela se remexeu na cadeira.
- Ai, que pergunta, Lô! Nunca aconteceu nada. E não rola nada. Eu só sirvo as bebidas. Já vi aquele safado com todas as garotas da Infernal... todas menos você. Cada semana uma diferente rebola no colo dele. - A Marcelina brincou com um ponto inexistente na toalha de mesa e deu uma risadinha de satisfação. - Ele só não ficou com ninguém da boate desde que você passou a atendê-los e mandá-los para casa tropeçando de bêbados.
- Então, já que te incomoda as garotas rebolarem no colo dele, faça com ele continue saindo tropeçando de bêbado. - Eu a instiguei e ela riu.
- Nao seja boba, Lorena! - Ela respondeu meio sem graça.
- Mas ele nunca tentou nada? - Eu insisti.
- Não. Ele é educado e tudo mais, sempre me quer conversar comigo, me faz sentar e é atencioso, mas nunca fez nenhuma proposta. Até porque ele sabe que eu não faço o que as outras fazem. - Ela explicou. - Mas de onde saiu essa pergunta?
- Nada demais, eu só ouvi ele e o Érick conversando. Ele proibiu os amigos de chegarem perto de você. Mas do jeito que eles falaram, pareceu que ele queria mais do que os beijinhos no rosto que o Érick disse que são tudo o que ele consegue de você. - Eu expliquei e ela deu uma risada que não chegou aos olhos.
- Ele quer o que todos os homens naquela boate querem com as mulheres que trabalham lá, Lô. Mas você e eu não somos como elas. - Ela arrematou. - Agora foco no seu gostosão. Abre aquela mala e tira aquela lingerie que eu vi outro dia, aquela que você não teve coragem de usar ainda e parece caríssima.
Antes que eu pudesse processar o conselho "picante" da Marcelina, o Dr. Mariano chegou. O semblante dele estava sério, pastas de arquivos debaixo do braço. Os cabelos da minha nuca se arrepiaram, eu começava a achar que não teria um minuto de paz mais essa semana.
- Lorena, precisamos conversar. O advogado que está "cutucando" o seu processo... ele é um tubarão. Começou a "pedir", nos bastidores, quebras de sigilo que eu nem sabia que eram possíveis para esse caso.
Eu respirei fundo, sentindo o peso da minha nova realidade.
- Mariano, eu sei quem está por trás dele. É o Érick. Érick Albelini. O homem para quem eu trazbalho de babá.
Mas a paz durou pouco. Eu senti uma sombra se projetar sobre mim e, antes que eu pudesse me afastar, o professor de educação física, logo quem o Érick tanto detestava, parou ao meu lado com um sorriso galanteador. Eu ainda precisava tirar esse do meu pé. É, as coisas não estavam fáceis pra mim.
- Lorena? Não esperava encontrá-la tão cedo por aqui. Estava justamente pensando em te esperar. Me desculpar pela cena daquele dia. Acho que o Sr. Albelini foi um tanto invasivo, mas eu não quis te causar nenhum desconforto. - Ele se aproximou e eu dei um passo para trás.
- Professor, não precisa se desculpar.
- Sabe, eu gostaria de te convidar para um café. E você saber, eu precisei pegar o seu número na diretoria... eu posso te ligar, para marcarmos algo no fim de semana? - Ele deu mais um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal e me deixando desconfortável.
Eu ia responder quando o som de um motor potente e o cantar de pneus me fizeram pular. O SUV preto do Érick parou bruscamente a poucos metros de nós. Não era o sedã com o motorista. Era o próprio Érick exalando a sua aura de poder. Ele saltou do carro com a elegância que poucos homens têm, ajustando o paletó enquanto os seus olhos fixavam no professor como se quisesse esmagá-lo.
- Professor Renato! Outra vez? O senhor está sendo um tanto inconveniente, não acha? - O Érick lançou um sorriso frio ao professor. - Acho que a Srta. Valente não está interessada em café, Professor. - A voz do Érick ecoou, fria e mortal, enquanto ele passava o braço pela minha cintura com uma força possessiva que me fez perder o fôlego. - Ela já tem compromissos muito mais... urgentes comigo. E os dias de folga dela não estão livres para o senhor. - O Érick sorriu para mim e deu um beijo no meu rosto. - Oi, querida!

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