"Érick"
Eu odiava deixar assuntos inacabados e odiava mais ainda que o assunto inacabado fosse a Lorena, justamente quando eu estava prestes a arrancar aquele vestido dela. Depois do inferno que foi aquela manhã, tudo o que eu queria era passar o resto da tarde perdido no corpo dela. E o Albuquerque interrompeu isso!
Para piorar, aquele verme sorrateiro tinha se atrevido a ir atrás dela, se atreveu a tentar manchar a sua imagem. Como se já não bastasse o que a desocupada da muher dele tinha feito com a minha filha, agora eles queriam mexer com a minha mulher. Sim, minha! A Lorena era minha.
Com ódio por ter sido interrompido ainda pulsando pelo meu corpo e a raiva cega por ele estar ameaçando a minha mulher, eu estava mais do que decidido a esmaga-lo como um inseto que estava me incomodando mais do que deveria. Eu abri a porta do escritório com um solavanco e o clique da fechadura ecoou no silêncio do corredor.
Mas assim que eu coloquei o pé fora, eu dei de cara com Adelaide. Ela estava ali, a centímetros da madeira, com a postura rígida de quem acabara de se afastar às pressas e nem conseguia disfarçar. Seus olhos, sempre tão inexpressivos a traíram diante do fogo da ira que brilhava nos meus.
- Adelaide. - A minha voz saiu baixa e ameaçadora e só a menção do seu nome já era aviso o suficiente. Mas eu não estava economizando palavras. A Lorena saiu do escritório apressada e correu para as escadas, enquanto eu encarava a Adelaide. - Eu tenho te dado muitos avisos ultimamente e não sei o que tem acontecido com você, mas também não me interessa. Mas preste atenção, se eu encontrar você bisbilhotando as minhas portas novamente, não haverá tempo de serviço nesta casa que salve o seu emprego. Fui claro?
- Sr. Albelini! - Ela teve a ousadia de parecer ofendida e isso apenas requentou a minha irritação. - Não me entenda mal, senhor. Eu apenas zelo pela ordem e estou sempre atenta às necessidades de todos.
Ela dizer aquilo era um deboche com a minha cara. Como se eu fosse idiota. Eu dei mais um passo em direção a ela.
- Talvez você precise estar menos atenta, Adelaide. Para o seu próprio bem. Saia da minha frente. Agora!
Ela se virou e saiu apressada pelo corredor, mas quando ela alcançou as escadas eu já imaginava o que ela estava aprontando.
- Adelaide! - Eu chamei, alto, sem me importar com decoro. Ela estremeceu e se virou. Eu caminhei a passos largos até ela e parei bem em sua frente, a uma distância ameaçadora. - Não se atreva a ir perturbar a Lorena.
Eu não esperei por uma resposta. Passei por ela como uma tempestade, meus passos pesados contra o piso eram um prenúncio do que estava por vir. Eu vi o Albuquerque no hall de entrada. Ele estava vermelho, agitado, a gravata frouxa, claramente a beira de um ataque de nervos, enquanto dois dos meus seguranças estavam ao lado impedindo que ele invadisse a casa.
- Albelini! Você não pode fazer isso! - Ele gritou assim que me viu, vindo em minha direção com o dedo em riste. - Você retirou o capital de giro da minha empresa em uma manhã! Você está tentando me quebrar?
Eu respirei fundo, tentando me acalmar antes de subir para ver as minhas garotas. Eu precisava acalmar a Lorena, ficou claro para mim que ela estava com medo do Albuquerque. Mas ele não a atingiria. Eu não permitiria que ele tentasse tocá-la. Eu fui até o quarto da Alice. A porta estava entreaberta.
A cena lá dentro contrastava drasticamente com o caos lá embaixo. Alice estava deitada no tapete, rodeada de livros e brinquedos, e a Lorena estava deitada ao lado dela, ajudando-a a colorir um desenho. As duas riam e falavam baixinho. A luz do sol entrava pela janela, iluminando caprichasamente o centro do tapete onde elas estavam. A Lorena parecia tão serena que era difícil acreditar que, minutos atrás, ela estava tremendo apavorada em meus braços.
Eu fiquei ali, imóvel na soleira, observando as duas. Vez ou outra a Lorena dava um beijo na cabeça ou nas mãozinhas da Alice, que se pendurava em seu pescoço com carinho, as duas ser olhavam e sorriam uma para a outra com um amor genuíno. Há muito tempo eu não presenciava uma cena tão doce e tão cativante.
Meu coração se apertou porque a minha filha tinha encontrado um tipo de amor que sempre lhe fez falta e ela estava radiante com o afeto que recebia. Eu me senti destoante daquele cenário de paz que eu observava como um voyeur, mas, pela primeira vez, eu entendi por que eu lutava tanto. Eu desejava ter aquela paz, poder voltar para casa e encontrar um lar cheio de afeto e sorrisos calorosos.
- Papai! - A Alice me viu e abriu um sorriso largo. - Você veio brincar também?
A Lorena ergueu os olhos, buscando os meus. O pânico de antes tinha sumido, substituído por uma pergunta silenciosa. Eu apenas assenti levemente, deixando que o calor daquele quarto começasse a derreter o gelo da fúria que eu carregava.

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