"Érick"
Aquela mulher não parava de me surpreender, por baixo do exterior doméstico e afável que ela transparecia durante o dia, havia uma mulher ousada e provocante que me desconcertava e derrubava todas as minhas barreiras. Aquele jogo de poder que ela fazia comigo, como se o tomasse e entregasse quando bem queria era viciante e me deixava completamente louco por ela. Como ela conseguia ser tão sexy e vibrante era um enigma para mim e me deixava rendido aos seus pés.
Eu a possuí ali mesmo, sobre a madeira fria da mesa onde eu costumava assinar contratos e tomar decisões importantes. Não houve delicadeza, eu a reivindiquei, tomei o poder e a possuí, a fiz minha, pouco me importando com o resto do mundo fora dasquele escritório. E ela se entregou sem nenhuma resistência, sem nenhuma condição, apenas me aceitou.
Quando o silêncio finalmente se instalou, interrompido apenas pela nossa respiração descompassada, eu a puxei de volta para a poltrona de couro. A acomodando no meu colo, a pele dela brilhando sob a luz do abajur, o vestido sedutor agora apenas um emaranhado de tecido amassado em sua cintura.
- Você é um vício perigoso, Lô. - Eu murmurei, meus dedos traçando círculos lentos na curva do seu quadril. - Você me deixa cego.
Por um segundo, um déjà vu me atingiu. O peso de um corpo no meu colo, o cheiro de perigo, o couro da poltrona... a semelhança com aquela noite na Infernal foi tão nítida que o meu coração errou uma batida. A forma como Lorena me dominou ao se sentar na minha poltrona, a audácia no olhar... Não. É impossível.
Eu balancei a cabeça, descartando o pensamento absurdo. Aquela idéiaera só o fantasma da outra que o Julian insistia em trazer de volta para a minha vida. A Lorena era a luz, desejo, algo que me aquecia de dentro pra fora e me fazia sentir vivo. A outra era o abismo de uma obsessão, um fogo que me queimava e me enlouquecia. Compará-las era um insulto à mulher que agora descansava a cabeça no meu ombro.
- E a mala? - Eu perguntei, tentando dissipar a sombra da outra nos meus pensamentos. - O que mais você trouxe para me enlouquecer?
- Você terá que descobrir aos poucos, Érick. - Ela ronronou, a voz carregada de uma preguiça deliciosa, que me fazia querer ficar ali com ela para sempre. - Cada peça terá que ser merecida. E você não é exatamente um "bom menino".
Eu ri baixo, apertando-a contra mim.
- Ah, Lô, eu achei que você tinha gostado da mordida do bicho-papão.
- Acontece que eu gostei tanto que quero ver o que mais o meu monstro pode fazer por mim. - Ela me provocou e eu a apertei e dei um beijo no topo da sua cabeça.
- Durma comigo esta noite. No meu quarto. Prometo que te mostro mais uns truques. - Eu pedi com um sorriso.
- É arriscado demais, Érick. A Alice acorda cedo, a Adelaide está sempre à espreita...
- Eu não me importo, Lô. - Eu segurei o queixo dela, forçando-a a me olhar. - A Alice te ama. A nossa menina vai achar essa nova configuração de amizade muito divertida.
- Tão divertida que vai querer dormir entre nós. Todos os dias. - Ele ergueu a cabeça e me encarou com aquele sorriso de quem conhecia bem a garotinha cheia de vontades que eu tinha em casa.
- É, isso pode acontecer. Mas eu passei o dia querendo você por perto, louco para te tocar...
- Preciso lembrar dos seus subterfúgios para ter abraços e beijos durante as refeições? - Ela perguntou toda engraçadinha e sem querer me deu o argumento que eu precisava.
- Bom dia, pequena! - Eu falei enquanto me abaixava para pegar a minha filha no colo, antes que a Lorena desmaiasse de nervosismo. - Lembra que no café de ontem você falou para a Lolô ia me ajudar a acordar melhor?
Eu lancei um olhar cúmplice para Lorena, que ainda parecia estar em choque e procurando um lugar para se esconder.
- Ah, sim, papai! Ela ia te acordar com beijos. - A Alice respondeu de imediato.
- Exatamente, ela veio fazer comigo o mesmo que faz com você, me dar um beijo de bom dia para o bicho-papão não acordar de mau humor e assustar todo mundo. Funcionou perfeitamente, não acha?
A Alice abriu um sorriso radiante, a dúvida desaparecendo instantaneamente sob a minha lógica impecável.
- Funcionou, papai! Você está até rindo!
- Pois é. A sua Lolô realmente é uma fada. - Eu dei um beijo nela e senti seus bracinhos me dando um leve aperto. - Agora, vá para o seu quarto começar a se arrumar, que nós vamos ter um café da manhã especial hoje, afinal, não tem ninguém de mau humor nessa casa.
A Alice correu pelo corredor, e eu me virei para a Lorena, que ainda segurava os sapatos como se fossem armas de defesa. Eu dei uma olhadinha para trás, só para confirmar que a Alice já tinha desaparecido pela porta do seu quarto e então eu dei um beijo rápido na minha fada.
- De nada! - Eu sussurrei, piscando para ela enquanto fechava a porta novamente, deixando-a sozinha com seu coração disparado e as lembranças da nossa noite secreta no seu corpo.

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