"Érick"
Eu já podia imaginar o que tinha por trás dos óculos do Andrey, mas ver Alice tirar os óculos dele foi um momento de satisfação quase poética. Ele não podia dizer que eu não avisei para que ele ficasse longe da boate. O hematoma estava feio, um roxo vívido que gritava "eu procurei confusão no lugar errado". Eu me recostei na cadeira, sentindo o peso da minha gravata champanhe contra o peito, uma brincadeira com a Lorena e um lembrete constante da mulher perfeita que esteve entre os meus lençóis, enquanto o meu amigo colhia... o inferno que aquela capetinha significava.
- Você está machucado, Tio Andrey! O que aconteceu no seu rosto? - A Alice perguntou, a vozinha trêmula de susto.
- Não é nada demais, Lili. - Ele tentou acalmar a Alice e tirou os óculos de suas mãozinhas. - O tio só... sofreu um pequeno acidente ontem à noite.
- É, um pequeno acidente... - O Julian riu. - O seu tio resolveu lutar com um pirata mal humorado ontem à noite, pequena, por causa de uma linda donzela.
- Um pirata? - A Alice arregalou os olhos. - Aquele do shopping?
- Em um lugar muito, muito longe daqui, Lili. Mas o pirata era mais forte e bem grandão. - O Julian me lançou um olhar de "depois conversamos" e se sentou do meu outro lado da mesa encarando a Adelaide. - Adelaide, você nunca sorri?
- Sr. Beaumont, eu não sou paga para sorrir. - A Adelaide respondeu com o seu jeito amargo.
- Mal humorada como sempre. - O Julian murmurou e a Adelaide fingiu que não ouviu, mas continuou colocando as xícaras e pratos com o semblante ainda mais carregado.
- A Lolô vai dar beijos mágicos na Sra. Adelaide também, Juju, ela não vai mais ser mal humorada, igual ao papai. - E como se tivesse tido uma ideia genial, a Alice se virou para a Lorena com o rostinho iluminado. - Lolô, faz uma mágica para o tio Andrey também, para ele sarar. - A Alice pediu inocentemente e eu estreitei os olhos para o pequeno sorriso que surgiu no rosto da Lorena.
- Boa ideia, Alice! - O Andrey passou por mim e se sentou em frente a Lorena do outro lado da mesa, com aquele sorriso torto. - Acho que a sua fada madrinha pode me ajudar, Lili. O que você acha, Érick? Afinal, os beijos mágicos curam qualquer coisa.
O Andrey estava brincando com o perigo. Ele sempre foi o tipo provocador insolente, mas ele precisava entender que com a Lorena ele deveria mexer. Eu não estava nada feliz com o modo como ele olhava para ela, como se ela fosse um prêmio de consolação. O Andrey estava passando de todos os limites.
- Eu acho, Andrey... aliás, o bicho-papão recomenda fortemente que você não se aproxime da fada. Ou ele vai te dar o seu próximo olho roxo! - A minha voz saiu fria como o aço.
- Calma, papai! O Tio Andrey está machucado. - A Alice interveio, voltando-se para a Lorena. - Lolô, faz a mágica? Por favor?
A Lorena me encarou com um leve levantar das sobrancelhas, ela percebeu que eu estava a um passo de voar no pescoço de um dos meus melhores amigos. Emtão, ela se levantou com uma calma invejável.
- Para machucados feitos por piratas, Alice, o remédio é outro. - Ela disse, com um sorriso suave para o Andrey. Era apenas um sorriso gentil, mas me incomodou como se fosse um flerte. - Sr. Andrey, se me permitir, posso esconder isso para que o senhor não assuste as pessoas na rua.
- Permito se você não me chamar de senhor. Ou você não quer ser minha amiga, Lorena? - O Andrey perguntou me olhando pelo canto do olho.
Assim que entramos no escritório, eu não dei chance para o Andrey abrir a boca. Eu o queria longe da Infernal, longe da Scarlat e, principalmente, longe da ideia de envolver a Lorena em qualquer dos seus joguinhos para me provocar.
- É a última vez que eu vou te avisar, Andrey. Se você continuar indo naquele lugar e tentando trazer isso para perto da minha casa de novo, um olho roxo vai ser pouco, a nossa amizade acaba no chão, junto com a nossa sociuedade e os seus dentes. - Eu disse, o encarando, o meu rosto a centímetros do dele.
- Não se preocupe, os leões do Barão já deixaram muito claro que não é para ele voltar a boate e desistir da Scarlat. - O Julian colocou a mão entre nós e fez o Andrey se sentar. - Parece, Érick, que o que aquela capetinha fez com você, ela não faz com mais ninguém.
Eu bufei e dei a volta na mesa, me sentando na minha poltrona que agora era o meu lugar favorito.
- Se é assim, mais um motivo para que você a esqueça, Andrey. - Eu avisei outra vez. - E mais uma coisa, não gosto das suas piadinhas com a Lorena, isso acaba aqui, a trate com respeito e respeite a minha casa.
- É só uma brincadeira, Albeini. Dá pra se ver a quilômetros que a babá está apaixonada por você! E você por ela. - Ele respondeu como se soubesse de tudo.
- Você não sabe o que diz, Andrey! Mas a Lorena é diferente. Agora vamos nos ocupar do que interessa, vamos ao trabalho.
Nos minutos seguintes o Julian e o Andrey me informaram sobre a situação do Albuquerque e que o meu desligamento da empresa dele já tinha repercutido no mercado e as coisas estavam bem sérias para ele. Eu estava prestes a usar o Albuquerque de exemplo para o Andrey, como um último aviso, mas o meu celular vibrou sobre a mesa. Era o motorista. Eu atendi de imediato, sentindo um nó no estômago. O motorista só ligaria se algo estivesse fora do script.

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