"Juliana"
A Dona Heloísa Albelini cruzou a porta da minha sala com passos rápidos e estrondosos. Ela vestia um terno de alfaiataria escuro impecável, os cabelos milimetricamente alinhados e os olhos azuis faiscando com uma ferocidade intimidadora. Não era a "senhora dócil do chá" que estava diante de nós.
- D-Dona Heloísa? O que a senhora está fazendo aqui? - O Andrey gaguejou, levantando-se da cadeira num salto de susto.
- Eu soube que o Érick esteve no escritório. - Ela respondeu e eu olhei para a Amália que tinha um sorrisinho desafiador.
- É filho dela, ela estava preocupada, muito preocupada. Eu a avisei assim que vi o Sr. Albelini. - A Amália explicou. - Eu tenho filhos, ficou preocupadíssima quando eles demoram a voltar da creche.
- Criatura, você tem gatos! Pet não é filho. - O Andrey revirou os olhos e ela bufou.
- Viu, Sra. Albelini?! Dois mal criados! - A Amália resmungou. - Vou buscar um chá para a senhora.
A D. Heloísa deu um sorriso complacente para a recepcionista, que saiu batendo os saltos pelo corredor. A matriarca Albelini caminhou com aquela elegância natural, puxou a cadeira em minha frente e se sentou.
- Ela tem razão, vocês dois são impacientes com ela. - A D. Heloísa nos advertiu sutilmente. - Ela me ligou e fez muito bem. Eu estou aqui porque se o Érick passou pelo escritório ele deixou algo para vocês e eu quero saber o que é. Há cinco dias eu não sei nada do meu filho e a última coisa que eu sei dele é que ele saiu de casa irritado depois de ser provocado de novo por aquela mulher intratável. Então me digam, o que está acontecendo e onde está o meu filho.
- D. Heloísa, eu estava indo até a sua casa agora mesmo. - Eu voltei a me sentar. - O Érick viajou, não sabemos para onde ou quando ele vai voltar. Ele deixou diretrizes específicas sobre tudo, deixou a guarda temporária da Alice para a senhora e também este envelope. Creio que ele vai tenha deixado mais informações para a senhora do que deixou para nós.
Ela pegou o envelope lacrado que o filho havia deixado, rasgou o papel de forma apressada e leu rapidamente. Quando ela ergueu os olhos do papel eu vi a preocupação misturada com incredulidade.
- O meu filho foi um estúpido completo ao longo de tudo isso, Julian. - A Dona Heloísa sentenciou, a sua voz saindo num tom baixo e extremamente sério. Ela jogou a carta sobre a mesa. - O Érick foi até a vila no sábado de manhã. Ele viu a Lorena chegando com um homem, pela forma como ele descreveu, provavelmente o filho da Débora. Ele viu que ela está grávida e entrou em colapso ao tirar conclusões erradas. Ele acha que ela seguiu em frente e você sabia. Ele fugiu para lidar com o coração partido.
O meu coração pulou uma batida. O chão sumiu debaixo dos meus sapatos. Aquilo era um desastre de magnitudes impensadas. Eu tinha milhões de coisas para me preocupar, mas naquele momento foi tudo reduzido a como o meu amigo deveria estar arrasado. Mas o Andrey me arrancou dos meus pensamentos.
- A Lorena está grávida? - O Andrey perguntou de repente e a D. Heloísa e eu o encaramos. O Andrey ainda não sabia. Ele não sabia de muita coisa.
- Acho que isso aqui vai ser uma longa reunião. - A D. Heloísa suspirou. - Andrey, querido, eu preciso te colocar à par de umas coisinhas que nem o meu filho sabe.
A D. Heloísa começou a falar. Ela escolheu começar a história pelo dia em que eu descobri que ela havia pago as dívidas da Lorena. À medida que ela ia falando, eu ia complementando os detalhes. Ela contou sobre a organização para ajudar mulheres, sobre como descobriu a Lorena, sobre ter encoberto o rastro dela na boate, sobre como a colocou dentro da casa do Érick. O Andrey nos encarava de olhos arregalados, o queixo caindo a cada informação.
- E o Érick não sabe nada disso? Ele nem tem ideia de que a senhora é a Fonte? - O Andrey perguntou e ela fez que não. - Me permite perguntar por que, D. Heloísa, criar uma organização e proteger mulheres que trabalham na noite?
Eu fiz que não, mas a forma como os olhos da D. Heloísa dispararam para mim me fez perceber que a bomba maior estava prestes a explodir.
A Dona Heloísa abriu a sua bolsa, puxou um token de autenticação internacional criptografado e o bateu em cima da mesa de cristal com um estalo ruidoso que fez as xícaras tilintarem.
- Só mais uma coisinha, mas essa nem o Julian sabe. - A D. Heloísa sorriu. - Esqueçam essa pasta de instruções ridícula do Érick mandando não confiar no Balthazar De La Vega. Eu sou o sócio oculto internacional do Grupo Albelini. O Balthazar é o meu funcionário privado e opera sob o meu monitoramento estrito desde... já faz muito tempo. Fui eu quem comprou as ações para blindar o patrimônio do meu filho e para proteger a Lorena. Eu não sabia se o plano do Érick funcionaria muito bem e se alguém de fora comprasse ações ou se alguém do antigo Conselho decidisse pagar para ver, o Érick estaria em maus lençóis com as jogadas de risco que estava fazendo. Eu quis garantir e comecei a procurar outros conselheiros menos expressivos e fazer ofertas irrecusáveis.
- Minha nossa! Acho que estou tendo um mau súbito. - O Andrey confessou dramático. - Todo esse tempo, D. Heloísa, era a senhora. E nós como cachorros correndo atrás do próprio rabo.
- É, D. Heloísa, dessa vez foi longe demais. - Eu comentei e ela me olhou como quem não estava nem aí para a minha opinião.
- Deixem que eu lembre uma coisa a vocês. Eu estava viajando de férias com a minha neta quando a confusão entre o Érick e a Lorena aconteceu. EU planejava entregar as ações a eles como presente de casamento. Mas, o meu filho fez o que fez, jogou a Lorena na rua. Eu não fiquei feliz com aquilo e vi que o Érick estava se destruindo. Eu achei melhor manter em segredo e usar as ações para intervir quando necessário. No entanto, se ele soubesse que a sócia era eu, seriaz um problema a mais e ele não aceitaria os meus questionamentos como aceitou do Balthazar, simplesmente porque eu sou a mãe dele e deveria apoiá-lo e não questioná-lo. É o que ele pensa. E funcionou bem assim, vejam a situação dessa Victória, se sou eu, a mãe, questionando o trabalho dessa mulher, ele me descartaria como descartou vocês dois, no entanto, um estranho, ele teria que ouvir e considerar de forma profissional.
- Não foi muito profissional mandá-lo assinar o contrato com o consultor na Infernal. - O Andrey riu.
- Vocês homens fazem isso o tempo todo, Andrey! Decidem o trabalho enquanto bebem. Eu só o fiz encarar o que ele estava perdendo. - A D. Heloísa deu de ombros. - Bom, de qualquer forma, as coisas agora mudaram. Vocês dois podem jogar as orientações do Érick na trituradora agora mesmo. Eu estou assumindo a presidência executiva da holding e todos os problemas que o meu filho deixou para trás. - A matriarca deu o ultimato definitivo sem deixar brecha para questionamentos. - Quero uma atualização de tudo. Agora nós vamos jogar com as minhas regras e Simão, Verônica e Victória que se preparem.

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