"Lorena"
O peso do olhar da Adelaide sobre mim durante o almoço foi quase insuportável, o ódio dela estava declarado, o que me deu a certeza de que o Érick tinha repetido o discurso da escola ou algo assim. Eu só conseguia pensar que os meus dias nesta casa seriam mais difíceis do que foram até agora. Por isso, assim que o Érick informou que ia para a empresa, eu passei o restante do dia evitando a Adelaide, mudando o meu percurso com a Alice pela casa sempre que avistava a governanta.
Sinceramente, eu tive vontade de ir visitar a mãe do Érick de novo, eu me sentia tão bem na casa dela, mas isso não seria educado. Talvez eu devesse pedir ao Érick autorização para sair com a Alice quando ela tivesse as tardes livres, nós poderíamos ir ao cinema ou dar um passeio agradável em um parque.
- Lolô, por que você está tão séria? - A Alice perguntou enquanto fazia o lanche da tarde no balcão da cozinha. - Você está preocupada. É porque eu falei na frente do Tio Beto sobre os chocolates?
- Tio Beto? - Eu a encarei sem compreender do que ela falava. Quem diabos era "Tio Beto"?
- Sim, Lolô, o tio que me leva para a escola. - Ela explicou e eu sorri, eu não tinha idéia de que ela chamava o motorista de "tio" e a história dos chocolates tinha fugido completamente da minha mente. - Não fica preocupada, ele é muito legal. - Ela olhou de um lado para o outro e baixou a voz para um sussurro. - Ele sempre me dá chocolate escondido da Sra. Adelaide.
- Ah! Olha! E eu preocupada que ele fosse me entregar para o bicho-papão! - Eu sorri para a Alice, que me retribuiu com a sua risadinha de criança levada.
- Eu estou muito feliz, Lolô! Você vai ficar comigo e com o papai para sempre! - A minha menina estava exultante, cheia de sorrisinhos e me enchendo de beijos.
- Ah, minha menina! Você nem imagina o quanto eu te amo! - Eu me derreti nos seus bracinhos e senti todo o afeto genuíno que ela me dava sem impor condições ou julgamentos.
Porém, mesmo com a felicidade inocente da Alice, eu sentia o olhar opressor da Adelaide me seguindo pela casa e tentava me manter o mais longe possível dela. E eu consegui isso, até o jantar.
O jantar foi mais um exercício de controle dos meus nervos, sob o olhar cortante da Adelaide e o silêncio carregado do Érick que me observava como se eu tivesse cometido um erro grave. Talvez o motorista não fosse tão bonzinho e tivesse contado dos chocolates. Fosse o que fosse, a tensão nos ombros dele, o seu silêncio e o maxilar travado apenas me diziam que era melhor que eu me mantivesse em silêncio.
- Pequena, você está muito sorridente. - O Érick comentou, a seriedade não derreteu nem com a filha. - Ao contrário da sua Lolô, que parece muito chateada.
- Ela agora é a nossa Lolô, papai. Você disse! - A Alice corrigiu o pai e eu me afundei na cadeira.
- Sim, ela é nossa. E já que é nossa, você não acha que ela deveria sentar um pouco mais perto de mim também? - O Érick falou para a filha, mas seus olhos estavam atentos a cada reação minha.
- Mudança de cadeiras, papai? Como outro dia? - A Alice perguntou animada.
- Sim. Mas agora definitivo. Acho que a nossa Lolô poderia passar a se sentar aqui, a minha direita, em frente a você. O que você acha? - Ele sugeriu.
- Hum, mas e se eu quiser me sentar perto da Lolô? - A Alice perguntou e o pai suspirou.
- Adelaide, se retire. Pode se recolher, peça a Eunice que termine o serviço do jantar. - O Érick determinou e antes que a governanta se retirasse, completou. - Aproveite que vai para a cama mais cedo e reflita na conversa agradável que tivemos hoje, Adelaide.
Estava ali a confirmação das minhas suspeitas, o Érick tinha mesmo falado com a governanta. E a cada vez que ele a enfrentava, o ódio dela por mim crescia. Assim que ela deixou a sala, ele se virou para mim de novo.
- Achei que tivéssemos concordado que esse vestido seria descartado, Lorena. - A voz dele saiu com um tom rígido, quase reprovador.
- É funcional, Érick. Eu ainda estava cuidando da Alice. É mais adequado para as atividades dela. - Eu respondi com os olhos baixos.
- Você não é mais a babá nesta casa, Lorena, aceite isso e assuma o seu lugar. Ao invés de ter medo da Adelaide, você deve se impor, Lorena! Ela está aqui para seguir as suas ordens e sabe disso.
Eu não respondi. Não ali. Não na frente da minha menina, ela já tinha enfrentado toda a tensão do dia. OP Érick esqueceria a história do uniforme e aquela idéia de que eu deveria "assumir o meu lugar" muito depressa, não valia a pena me desgastar com aquilo. Felizmente ele também não insistiu.
Depois do jantar eu levei a Alice para o quarto e a preparei para dormir, escovei os seus cabelos enquanto ela me convencia a assistir um desenho com ela ao invés de contar uma história porque o desenho demorava "um pouquinho mai". Claro que ela me convenceu e nós assistimos ao desenho abraçadas na cama dela, até que ela pegou no sono.
Quando eu entrei no meu quarto escuro, o silêncio finalmente pareceu me abraçar e eu me encostei na porta, sentindo toda a exaustão daquele dia que foi longo demais. Eu soltei o grampo que prendia o meu cabelo na lateral, sentindo o peso do dia nos ombros. Eu estava pronta para deslizar pela porta e deixar o meu corpo repousar ali no chão mesmo, mas o brilho da luz do abajur sendo aceso me fez congelar.

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