POV/ SKY
— Isso não tem a menor graça, Nathan Beaumont — Sakura sibilou, cruzando os braços com força.
— Mas não era para ser engraçado, gatinha. Era para ser triste mesmo — ele piscou, totalmente sarcástico. — Você continua insuportável.
— E você continua um idiota, palhaço com piadas de quinta categoria — ela devolveu, mordendo o lábio de raiva.
— Chega. Eu não tenho tempo para as infantilidades e gracinhas de vocês dois aqui fora — a voz grossa e cortante do Christian congelou o ambiente, fazendo a Moon se encolher de susto ao meu lado.
— É você a Sky? — ele perguntou para mim.
— Sim, e essa é a Moon — apontei para a minha irmã que estava encolhendo-se ao meu lado.
— Oi, Moon... — ele disse para ela em um tom suave. — Moon como a lua?
— Sim, e Sky como céu.
— Um prazer conhecer você — ele disse, olhando para ela intensamente. — Quer dizer, conhecer vocês duas — ele sorriu, um sorriso perfeitamente alinhado.
— Ah, o prazer é nosso, senhor. E me desculpa mais uma vez — Moon disse, sorrindo sem graça.
— Eu preciso ir agora — Christian quebrou o silêncio, ajeitando o punho do paletó caro e fixando os olhos castanhos na minha irmã por mais um segundo antes de suavizar o tom de voz. — Mas a gente se vê depois, Moon... Vejo todos vocês. Boa sorte.
A Moon engoliu em seco, apenas acenando com a cabeça enquanto torcia os dedos na barra da blusa, visivelmente nervosa perto dele. Christian girou o corpo e fez um sinal curto para o Nathan ir junto.
— Vamos, Nathan. O dever nos chama — Christian ordenou, recuperando a postura de gelo.
O Nathan bufou, mas antes de acompanhá-lo virou-se para a Sakura e mostrou a língua de um jeito infantil. A Sakura respondeu na mesma hora, travando o maxilar e fazendo uma careta feia de ódio para ele.
Olhei para o lado e senti o meu estômago revirar em uma onda de náusea instantânea. O Sérgio Lacerda e o Paulo Gouveia vinham caminhando juntos pelo corredor do auditório, acompanhados por uma mulher elegante que eu acreditava ser dona da Garcia Construtora.
O Lacerda ajeitava a pasta embaixo do braço com aquele sorrisinho de deboche que eu conhecia desde a minha adolescência. Ele cutucou Paulo, que olhou na minha direção com um semblante extremamente irritado, o que fez minhas pernas bambearem e o meu coração acelerar.
Dois dos homens que destruíram minha família.
Eu tentei me mexer. Tentei dar um passo em direção ao auditório para fugir do campo de visão do Paulo Gouveia e do Sérgio Lacerda, mas não tive tempo. O Paulo notou a minha movimentação e deu passos longos na minha direção, travando o meu caminho enquanto o Lacerda soltava aquela risada ruidosa e nojenta.
— Olha só quem temos aqui, se não é a nossa grande traidora — Paulo Gouveia disparou, parando a menos de um metro de mim. A voz dele era mansa e sonsa, mas os olhos castanhos brilhavam com uma irritação extrema.
— Traidora coisa nenhuma! — a Moon explodiu ao meu lado, o rosto vermelho de fúria. — O único traidor aqui é o seu filho safado e a piranha da Sofia!
O Paulo Gouveia ignorou solenemente a Moon. Ele sequer olhou para a cara dela, mantendo os olhos fixos em mim, tratando a minha irmã e a Sakura como se elas fossem fantasmas ali no corredor. Ele virou o rosto levemente para o Lacerda e os dois começaram a conversar entre si, falando de mim na terceira pessoa, como se eu não estivesse bem na frente deles.
A Sakura me olhou fixamente, percebendo o meu estado de ruína. A Moon, sem conseguir segurar o segredo por mais tempo, acabou explicando por alto para a Sakura o tamanho do problema técnico: o rolo do passado de 2015, a falência do meu pai e o fato de o Paulo ter bloqueado o dinheiro do home-care para me forçar a assinar o distrato do terreno.
A Sakura ouviu tudo em silêncio, o rosto mudando de expressão, visivelmente chocada com o tamanho daquela podridão financeira. Ela não falou nada sobre regras ou contratos; apenas deu um passo à frente, abriu os braços e me puxou para um abraço apertado e protetor.
— Vai dar tudo certo, Sky. Vai dar tudo certo, me ouviu? — Sakura repetiu perto do meu ouvido, com uma convicção firme. — A Zênite vai passar dessa fase.
— Eu preciso disso, Sakura... — sussurrei contra o ombro dela, a voz falhando pelo choro contido. — Eu preciso passar. É a única chance que eu tenho de trazer o nome Bittencourt de volta à vida e tirar o meu pai das mãos daquele canalha.
Afastei-me devagar, limpando o rosto com o dorso da mão e encarando o meu reflexo no espelho. Encarei o rabo de cavalo apertado e apertei o próprio blazer.
Fechei os olhos e, por um segundo, o conselho do Rocco invadiu a minha mente de forma nítida: "Quando a merda tá muito grande, eu evito pensar nisso. Eu resolvo o que dá para resolver na hora, e o que eu não dou conta de arrumar, eu deixa para lá."
Bufei, soltando o ar pesado. Era bizarro e irritante perceber que, mesmo no meio do meu pior momento de vulnerabilidade técnica, a imagem daquele arrogante continuava invadindo a minha cabeça contra a minha própria vontade. Senti falta da petulância dele para me reerguer na marra.
Ajeitei a postura, olhei para a Moon e para a Sakura e destranquei a porta do banheiro.
— Vamos voltar — ordenei, sentindo o estômago ainda dar nós, mas com o trator Bittencourt com o motor ligado de novo. — Temos um resultado para receber.
Os problemas da semana que vem e a audiência judicial eu deixaria para pensar na semana que vem. Eu ia resolver o que eu podia resolver hoje. E tudo dependia daquele resultado dentro do auditório.

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