POV: SKY BITTENCOURT
Os dias passaram correndo em um borrão de cafeína, pranchetas e noites em claro. Quando me dei conta, o sábado da grande apuração do concurso tinha chegado. Meu estômago estava dando nós terríveis desde que o sol nasceu. Uma dor de barriga persistente de nervosismo me castigava, e eu apertava a mão contra o abdômen a cada cinco minutos, tentando conter o desconforto. Era o dia da apuração da curadoria. Eles avaliariam as apresentações para eliminar uma das quatro equipes finalistas, deixando apenas três na próxima etapa da disputa.
Trabalhamos muito e conseguimos entregar o trabalho no prazo certo. Graças a Deus e à ajuda de todos.
Para piorar o meu psicológico, meu pai continuava internado. Ele estava estabilizado, precisando apenas fazer os últimos exames técnicos — uma tomografia e uma ressonância magnética do corpo inteiro para os médicos decidirem o que fazer —, mas estávamos paradas aguardando a bendita fila do SUS abrir uma vaga para rodar os procedimentos.
Eu e Moon fomos as primeiras a chegar na sede da Blackwood. Com o suor frio umedecendo as minhas palmas e sem ter conseguido preencher nem duas horas de sono na noite anterior, eu parecia uma assombração andando de um lado para o outro no saguão. Mordi a parte interna da bochecha com força, sentindo o gosto metálico do sangue na boca só para tentar focar em algo que não fosse o meu pânico.
Aos poucos, os outros competidores foram chegando.
O Alex se aproximou, me avaliando com o seu habitual olhar clínico e um semblante visivelmente cansado de quem também sentia a pressão do dia.
— Você está bem, Sky? — ele perguntou, com os braços abertos.
Apenas o abracei forte, afundando o rosto no ombro dele para buscar algum chão no meio daquele desespero. Senti o tecido do paletó dele e apertei os olhos. Ele segurou meus braços e me desejou toda a sorte do mundo, mas o momento foi cortado pela voz ríspida da Sofia chamando por ele lá de dentro.
— Tenho que ir, amiga — Alex murmurou, revirando os olhos e limpando uma gota de suor na testa. — Um dia eu ainda mato essa piranha afogada, juro. Depois vou na sua casa para a gente conversar com calma, tá?
— Está bem, boa sorte, amigo — sussurrei, ajeitando o blazer. Eu vestia uma calça social escura, uma blusinha discreta por baixo do blazer e tinha prendido o meu cabelo ruivo em um rabo de cavalo bem firme, tentando parecer o mais corporativa e profissional possível.
Logo em seguida, vi o Gael caminhar na minha direção. Ele tentou abrir um sorriso gentil, mas dava para ver a tensão nos olhos dele. Ele me puxou para um abraço de urso, tentando aproximar os lábios para me dar um beijão na boca no meio do corredor. Desviei o rosto no último milésimo de segundo, permitindo apenas que ele colasse um beijo demorado na minha bochecha.
Eu gostava do Gael, mas a minha cabeça estava em pane completa. Pensar no meu pai e o fato de ele ter colapsado daquele jeito, naquele dia, não saía da minha mente.
Os líderes das equipes remanescentes começaram a se acomodar nas cadeiras do auditório. O clima na antessala era pesado, com todo mundo tenso, trocando olhares desconfiados. Sentei-me ao lado do Gael e tentei focar na curadoria que estava começando. O Rocco não estava na banca de jurados e nem faria parte da apuração direta; ele só seria informado do resultado final na sala da presidência.
Não tínhamos nos visto e nem nos falado mais. Ele disse que me daria espaço para trabalhar. Ele, Diego e Nathan tiveram que deixar a finalização do projeto por conta nossa. Não podiam mais interferir.
Eu tinha o número dele salvo porque o Nathan tinha me passado, mas nunca tive coragem de ligar, e ele também manteve a distância técnica dele. Nem sabia se ele tinha o meu número.
Mas digamos assim... não que eu quisesse admitir, mas também não era como se eu conseguisse controlar. Eu estava com saudades dele.
Saudades é uma palavra muito forte. Sei lá, é... senti falta da petulância dele.
Não é a palavra... é tipo, sei lá... droga. — Sacudi a cabeça e passei a mão pelos cabelos tentando espantar esses pensamentos. Por que eu estava tão tensa, indecisa, pensando nele e no meio de um momento muito importante?
Merda!!
— Foco, Sky. Foco — disse a mim mesma, tentando espantar esses malditos pensamentos gostosos e cheios de testosterona.
E o pior era perceber que, mesmo num dia de vida ou morte para a minha carreira, eu continuava pensando nele. Aquele engenheiro arrogante estava ocupando espaço demais na minha mente. Para completar o meu combo de pânico em dose dupla, o sábado também era o dia da minha sessão agendada com o Dom Hades no subsolo do Ambrosia Club. Eu estava apavorada, sentindo meu coração acelerar na garganta. A única coisa que me mantinha sã era o fato de o Nathan e o Diego terem garantido que o nosso projeto técnico tinha ficado bom até o último momento em que nos ajudaram.
O Diego não pôde se envolver na banca porque a Sakura estava na nossa equipe, então o Nathan era o único ali trabalhando sem ligações diretas com ninguém. Tecnicamente, né?
A ansiedade me venceu. Levantei da cadeira e comecei a marchar de um lado para o outro na antessala, passando a mão pela testa úmida.
— Sky, senta. Pelo amor de Deus, Sky, senta. Desse jeito você vai abrir um buraco no piso — a Moon pedia, cutucando as próprias cutículas e me acompanhando com os olhos aflitos.
Moon levantou num tranco para tentar me segurar, mas ao girar o corpo com pressa, ela esbarrou direto contra uma verdadeira parede de músculos que vinha caminhando pelo corredor. Ela perdeu o equilíbrio e ia desabar direto no chão, mas duas mãos grandes e firmes a seguraram pelos braços com precisão, impedindo a queda.

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