POV/ SKY
O Gouveia ajeitou o paletó com as mãos trêmulas, deu meia-volta sem dizer mais nenhuma palavra e sumiu pelo corredor da saída.
Eu me escorei na parede, tentando fazer o ar voltar para os meus pulmões. O Rocco se virou para mim, mas antes que dissesse qualquer coisa, a Moon apareceu no fundo do corredor. Logo atrás dela, o médico responsável pela equipe da UTI surgiu com uma prancheta na mão.
— Família do Senhor Bittencourt? — o médico chamou, nos guiando para uma sala de atendimento reservada.
Sentamos nas cadeiras de plástico e o meu coração voltou a bater na garganta de ansiedade.
— Conseguimos realizar a tomografia e os exames de contraste agora de manhã — o médico começou, direto e sério. — A situação é complexa. Devido às substâncias químicas que foram injetadas no organismo dele por um período prolongado, o fígado sofreu uma falência parcial por causa da toxicidade. Ele vai precisar de uma cirurgia de urgência no órgão para sobreviver. Além disso, precisamos fazer o procedimento neurológico para religar os nervos e tentar fazer com que ele recupere os movimentos com a fisioterapia.
— Meu Deus... — a Moon soltou um soluço abafado ao meu lado.
— Existe chance dele voltar a andar? — perguntei, sentindo um arrepio violento tomar conta do meu corpo inteiro.
— Existe a chance, mas o risco da cirurgia é altíssimo por conta do estado debilitado dele. E nós temos um problema de tempo. O único especialista do Estado capaz de realizar esses dois procedimentos combinados com sucesso tem uma vaga na agenda para o próximo SÁBADO. Se não fizermos no sábado, o quadro dele vai se estabilizar em um nível crônico e ele vai para o isolamento definitivo da UTI, onde não poderemos mais operar.
Engoli em seco, sentindo a minha cabeça zunir.
— E qual é o problema, doutor? Faça a cirurgia no sábado, por favor — pedi, desesperada.
O médico soltou um suspiro pesado, olhando para a prancheta.
— Esse especialista não atende pelo plano de saúde padrão e nem pelo sistema público. Os honorários dele e da equipe cirúrgica para um caso de alta complexidade como esse ficam em CENTO E CINQUENTA MIL REAIS. Precisamos do depósito de garantia até sexta-feira para confirmar a mesa cirúrgica do sábado.
Cento e cinquenta mil reais... Cento e cinquenta mil reais... Cento e cinquenta mil reais.
A frase ecoou na minha mente como uma bomba de efeito retardado. Meu cérebro simplesmente parou de funcionar. Minhas mãos congelaram tanto que precisei escondê-las debaixo das minhas coxas para que ninguém visse o tamanho do meu tremor.
Eu estava custando a juntar dez mil reais destruindo o restinho do meu orgulho e da minha dignidade naquela sala vermelha no subsolo do clube. Dez mil reais que eu achei que seriam a minha salvação. E agora, o mundo estava me cobrando quinze vezes mais do que isso em menos de uma semana.
A conta da linha do tempo do terror fechou na minha cabeça, quase me fazendo ter uma crise de pânico silenciosa ali mesmo na cadeira: QUINTA-FEIRA: Eu tinha a próxima sessão com o Dom Hades no subsolo, onde eu pretendia implorar de joelhos por uma antecipação de dinheiro para tentar pagar um advogado. SEXTA-FEIRA: Era o dia da audiência judicial decisiva contra o Gouveia, onde eu corria o risco de ser presa. SÁBADO: Eu precisava conseguir cento e cinquenta mil reais ou meu pai morria.
O Rocco me puxou para cima, me tirando daquela cadeira sem pedir licença, enquanto dava os últimos comandos para a Moon sobre os papéis e os contatos.
Eu andava feito um zumbi pelos corredores do hospital, sem forças nem para reclamar do aperto dos dedos dele na minha pele. Entramos na Mercedes e ele deu a partida. Eu estava totalmente anestesiada pela dor e pelo medo, encarando o painel digital com a mente zunindo a mil por hora.
O Rocco dirigigiu por alguns minutos até parar o carro no estacionamento de um restaurante reservado e discreto. Ele me puxou para dentro, escolheu uma mesa bem nos fundos e pediu o almoço para nós dois. Quando os pratos chegaram, eu continuei estática, sem fazer menção de tocar nos talheres.
— Come, Bittencourt — ele mandou, com o tom sério, empurrando o prato na minha direção.
— Estou sem fome, Blackwood.
— Você vai engolir essa comida porque não quero você caindo desmaiada no meio da rua de fraqueza. Come logo. — Ele me encarou com o semblante muito sério por alguns segundos e depois soltou um suspiro pesado, suavizando a voz: — Por favor. Come.
Olhei para ele, estreitando os olhos, mas a firmeza protetora dele acabou me vencendo. Dei algumas garfadas forçadas na comida, embora tudo estivesse com gosto de poeira e cinzas na minha boca.
Eu não conseguia enxergar mais nada na minha frente a não ser o valor de cento e cinquenta mil reais piscando sem parar na minha mente.

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