(FLASHBACK — HÁ 9 ANOS)
POV: CHRISTIAN
O primeiro impacto acertou o lado esquerdo da minha mandíbula. Minha cabeça bateu contra o chão de cimento batido atrás do ginásio, e o gosto de ferro do sangue inundou a minha boca imediatamente. Tentei encolher as pernas, protegendo o estômago, mas uma botina de couro estalou direto contra as minhas costelas, me tirando todo o ar dos pulmões.
— Você não devia estar aqui, seu lixo — a voz do Maurício ecoou por cima de mim, seguida por mais um chute que pegou na minha coxa. — Esse colégio não é lugar para morto de fome.
Outro chute acertou a boca do meu estômago.
— Pega a sua bolsa de estudos e esvazia o armário antes que a gente quebre o resto dos seus dentes — Luan esbravejou enquanto chutava o meu rosto.
Prendi os braços em volta da minha cabeça, encolhendo o corpo inteiro na tentativa de absorver os impactos físicos. A dor se espalhava em pontadas quentes pelo meu tórax, mas a humilhação doía muito mais. Eu odiava cada segundo naquele colégio de playboys.
Eu odiava o fato de estar ali apenas por uma bolsa de estudos por mérito, sendo a minha única chance real de mudar o meu destino miserável.
— Para com isso! Para com isso agora, seus covardes! — um grito agudo cortou o barulho dos chutes.
Abri uma fresta dos olhos, limpando o sangue que escorria da minha testa. Uma menina magrela, de pernas compridas e olhos verdes enormes, vinha correndo na nossa direção. Parecia uma siriema desengonçada. Ela não hesitou. Pegou impulso no chão e acertou uma voadora direto no peito do Maurício, fazendo o brutamontes tombar para trás e bater as costas no latão de lixo.
— Sai daqui, maluca! — Luan gritou. — Vai embora, sua lunática!
A menina não parou. Ela avançou contra o segundo rapaz e deu vários chutes na canela dele. O GRATO soltou um gemido agudo, tentando empurrar ela para trás.
Ela rosnou mostrando os dentes, parecendo um chihuahua.
— Maluca!!!! — Maurício disse, gemendo ainda no chão.
— Vem! Vem mais um se vocês quiserem apanhar também! — ela berrou, empurrando o terceiro menino pelo peito, o corpo miúdo dela tremendo inteiramente de raiva.
Maurício se levantou do chão, limpando o uniforme sujo, e olhou para ela com uma careta de desdém.
— Olha só se não é a garota que vive no mundo da lua — Maurício desdenhou, soltando uma risada sem graça para tentar recuperar a postura na frente dos amigos. — Você é maluca, Bittencourt.
— Eu vou contar tudo para a diretora agora mesmo! — ela rebateu, erguendo o queixo com uma autoridade absurda, sem recuar um único milímetro. — Sumam daqui antes que eu conte para o meu pai.
Os meninos se entreolharam. Maurício cuspiu no chão, apontou na minha direção e deu as costas.
— Vamos embora. Deixa esse monte de estrume aí jogado — ele ditou, caminhando rápido em direção ao pátio principal junto com o resto do grupo.
Fiquei caído de lado, com a mão na costela dolorida, observando os quatro se afastarem em direção ao pátio até sumirem de vista. A menina limpou as palmas das mãos na saia do uniforme e caminhou até mim. Os olhos verdes dela pareciam gigantescos naquelas feições miúdas.
— Você tá bem? — ela perguntou, estendendo a mão pequena na minha direção.
Apoiei o meu peso no braço dela e me forcei a levantar, sentindo uma pontada aguda no estômago. Assim que fiquei de pé, curvei o meu corpo miúdo e magricelo, sentindo cada osso da minha estrutura fina protestar. Eu era apenas um garoto negro, de pele mais clara, mas mesmo assism preto, fraco demais perto daqueles agressores.
— Estou — resmunguei, limpando o canto da boca com as costas da mão e encarando o sangue avermelhado nos meus dedos.
— Você não pode ficar deixando os meninos fazerem tudo isso com você — ela disparou, criando uma barreira e me dando um sermão com total seriedade. — Quando você deita no chão, as pessoas rolam por cima. Tem que revidar.
Deixamos a área de chão batido de trás do ginásio e entramos no prédio da escola. Caminhei devagar ao lado dela pelo corredor interno, sentindo o meu corpo inteiro latejar.
— Por que eles correram de você? — perguntei baixo, intrigado com a facilidade com que ela desandou os playboys do terceiro ano.
— Ah, sei lá. Acho que é porque a minha família tem muito dinheiro, por minha mãe ser a diretora da escola, ou porque eles sabem que eu sou doida — ela deu de ombros, sem dar muita importância.
— Ah, deve ser por todos esses motivos aí — disse, apontando o dedo para ela.
Gargalhei da fala dela, gargalhei tanto que fez a minha barriga doer.
— Tá rindo de quê?
— Você é engraçada.
— Eu não sou engraçada — ela disse, bufando e cruzando os braços.
— Tá bom, menina não engraçada. Qual o seu nome?
— Moon. E se for perguntar, sim, Moon como a lua — ela explicou, passando as mãos pelo cabelo que estava todo bagunçado. Os cabelos dela eram loiros claros, principalmente nas pontas, uma cor bonita que, quando o sol bateu pelas janelas do corredor, pareceu iluminar ela, a tornando a versão do Sid mais bonita que já tinha visto. — Foi ela quem escolheu o meu nome por causa disso também. E o seu?
Ela fez toda a explicação, mas eu não prestei atenção. Estava fascinado.
— Ouuu? Lua chamando você???
Sorri de novo, ela era engraçada.
— Meu nome é... — Travei por um instante. Olhei para o chão, lembrando do registro que a minha mãe biológica deixou no meu papel e de toda a desgraça que aquele nome carregava. — Felipe — menti,extirpando o peso do registro real e sustentando o olhar verde dela. — Meu nome é Felipe.
— Prazer, Felipe. Eu sou a Moon.
Ela sorriu enquanto apertava a minha mão.
— Perfeito — disse, sorrindo, enquanto na minha mente ecoava: minha Moon, minha Lua.
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