POV: SKY BITTENCOURT
Abri os olhos devagar. O teto alto da cobertura do Rocco foi a primeira coisa que tomou a minha vista nas primeiras linhas da manhã. Tateei o colchão ao meu lado, mas a corrente de metal não estava mais prendendo o meu pulso. A cama estava vazia e o lençol já estava frio daquele lado. Ele tinha levantado havia tempo.
Olhei para o criado-mudo e encontrei um pedaço de papel cortado com a caligrafia firme dele: "Tome banho. Tem roupa limpa no closet."
Me levantei com o corpo pesado, sentindo um incômodo esquisito no peito. No espelho da suíte, a minha imagem estava um desastre completo. O rímel da noite anterior tinha borrado todo embaixo dos meus olhos por causa do choro silencioso, me deixando com uma aparência quase fantasmagórica.
Entrei no box, tomei um banho morno demorado, lavei o rosto até tirar todos os restos de maquiagem e vesti as roupas limpas que ele tinha deixado separadas para mim.
Saí do quarto seguindo o cheiro forte de café fresco que vinha do corredor. Rocco estava na cozinha, vestindo apenas uma calça de moletom cinza que ficava baixa no quadril, exibindo a linha marcada do abdômen. Ele terminava de arrumar a mesa do café da manhã, os músculos das costas se movendo com lentidão conforme ele organizava as xícaras.
— Bom dia — ele disse, girando o corpo assim que ouviu o barulho dos meus passos.
— Bom dia.
— Como você dormiu? — ele me encarou, apoiando as mãos na borda da bancada.
Bem até demais, pensei com amargura. Ultimos dias eu não sabia o que era fechar os olhos e apagar sem ter um único pesadelo com cobradores ou processos.
— Mais ou menos — menti, desviando o olhar para os pratos.
Ele soltou uma risada baixa, aquele som rouco que sempre balançava os meus sentidos.
— Está com fome? Senta aí.
Me aproximei e me encostei na banqueta. O pior era que eu realmente estava com fome. Ultimamente, o meu estômago vivia completamente fechado por causa do estresse do hospital e das contas, mas bastava eu ficar perto dele para o meu corpo reagir de outra forma.
Perto do Rocco, eu sentia fome. Sentia frio. Sentia raiva. Eu me sentia viva.
E essa era a parte mais difícil de administrar: como eu ia conseguir odiar ou esquecer um homem que era o único capaz de me fazer lembrar que eu ainda tinha sangue correndo nas veias e que tinha um coração?
Um coração que batia por ele. E só por ele.
Começamos a comer em total silêncio. Dei um gole descuidado no café preto, mas o líquido estava fervendo. Dei um sobressalto na cadeira, sentindo a minha garganta queimar de imediato.
— Está quente — ele avisou, estendendo um guardanapo na minha direção, os olhos verdes semicerrados em puro divertimento.
Limpei os lábios com força, irritada com a minha própria falta de atenção. Pousei a xícara na mesa e tomei coragem para fazer a pergunta que estava travada na minha garganta.
— Então... é isso? Essa foi a nossa primeira sessão?
— Sim. Por enquanto.
— Você não quis fazer... aquelas coisas? — apertei os dedos ao redor do tecido do guardanapo, encarando-o. — Me amarrar, usar os chicotes, bater... nada?
Rocco largou os talheres sobre o prato e fixou o olhar diretamente no meu rosto. A seriedade que tomou a expressão dele me fez prender a respiração.
— Eu quero fazer absolutamente tudo isso com você, Sky. Você sabe disso. Mas achei que ontem não seria o momento certo. Tem tanta coisa acontecendo. Então eu só fiz o que eu mais queria: ter você ao meu lado.
Fiquei completamente sem resposta. A honestidade daquela fala doeu de um jeito torto dentro de mim. Terminei o meu café o mais rápido que os meus músculos permitiram, me despedi com um aceno tensso e saí dali correndo antes que a minha armadura desabasse de vez.
Peguei um táxi na avenida de volta para o meu bairro.
No caminho, o Rocco me avisou por mensagem que um projeto da Prefeitura estava enfrentando problemas sérios e que a próxima etapa do concurso do Horizon Resort provavelmente seria adiada por algumas semanas, mas que ele agendaria a nossa próxima sessão antes disso.
Ele também deixou claro que estaria no hospital para levar o meu pai para casa no dia da alta. Eu respondi dizendo que não precisava do favor, mas ele rebateu de forma ríspida, dizendo que faria isso de qualquer forma.
Passei na padaria da esquina, comprei alguns pães frescos e subi para o apartamento. Deixei as coisas na mesa e me sentei, esperando a Moon acordar para tentarmos tomar café juntas.
O rádio da cozinha estava ligado baixinho em cima do balcão, tocando uma melodia melancólica da banda Artemas. A letra parecia cortar o ar, ecoando direto na minha mente.

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