POV: ROCCO
O dia seguinte passou arrastado, carregado de uma rotina burocrática que exigia minha atenção enquanto a minha cabeça continuava totalmente distante.
Passei horas na mesa do escritório do quarto, assinando documentos digitais, revisando plantas e tentando resolver pendências acumuladas da empresa.
Peguei o celular em dezenas de momentos diferentes. Abri a conversa com a Sky, digitei frases longas, apaguei cada uma delas e fechei o aplicativo sem enviar nada.
Tentei acessar o sistema de câmeras internas da sede da Blackwood para conseguir ver a imagem dela em tempo real, mas o trabalho estava sendo em campo, fora da empresa.
Para minha sorte, o Christian me enviou um lote de fotos pelo aplicativo. Eram registros do expediente na área da arquitetura.
Em uma das fotos, a Sky estava inclinada sobre a bancada, com um lápis preso no cabelo ruivo e uma expressão concentrada enquanto apontava para uma maquete. Em outra, ela aparecia rindo de alguma besteira que a Moon tinha dito. Fiquei minutos encarando aquela imagem iluminada pela tela do telefone. Sentir o meu peito aliviar um pouco a dor ao ver o rosto dela foi inevitável.
Mas quando aproximei o zoom no rosto da ruiva, percebi um detalhe que me incomodou: o sorriso dela se limitava aos lábios. Os olhos não acompanhavam a curva da boca. Havia um fundo cansado ali. Torci, com um egoísmo silencioso no fundo da alma, para que aquela falta de brilho fosse, nem que fosse um pouco, por causa da minha ausência.
Liguei para o Diego no final da tarde.
— Diego, quero que você alinhe com as equipes a data da próxima entrega de projetos do concurso — ordenei assim que ele atendeu. — Deixa bem claro para todo mundo que eu mesmo vou supervisionar e avaliar cada trabalho assim que pisar no Brasil.
— Pode deixar, chefe. Vou avisar o pessoal e a Sakura — o Diego respondeu.
Desliguei a chamada e encostei a cabeça no encosto da cadeira. Eu precisava encerrar aquela porra de concurso o mais rápido possível. Enquanto aquela disputa estivesse aberta, eu não podia me aproximar da Sky, não podia me envolver abertamente com ela e nem tentar qualquer coisa. Se ela ganhasse o contrato por mérito próprio e ela tinha capacidade de sobra para isso, o mercado inteiro apontaria o dedo dizendo que eu tinha beneficiado a minha mulher. Isso destruiria a reputação profissional dela, e eu jamais me perdoaria por sujar o nome daquela ruiva.
Antes que eu pudesse fechar os arquivos no computador, a porta do escritório se abriu e a minha avó Helena entrou no cômodo. Ela caminhou com a postura ereta de sempre, vestindo um conjunto de alfaiataria impecável, e se sentou na poltrona da frente.
— Precisamos alinhar os detalhes de amanhã, Rocco — ela começou, ajeitando as mãos sobre o colo. — Você sabe muito bem que a Blackwood é sua e que você a gerencia como bem entende. No entanto, a nossa família é detentora de um conglomerado de construtoras e empresas de infraestrutura pelo mundo, e nós pretendemos vender essa fatia do patrimônio em breve.
Ela fez uma pausa, cravando os olhos azuis nos meus.
— O seu noivado com a Jussara é a peça-chave para essa transação. A fusão da imagem das nossas famílias vai elevar o valor das ações a um patamar absurdo antes da venda. Portanto, eu exijo que você se comporte amanhã. Faça o que precisa ser feito e nos dê orgulho, exatamente como o seu pai dava quando estava no seu lugar.
A menção ao meu pai bateu como um soco no meu peito. A sensação de ser jogado contra o fantasma dele, de ser eternamente medido pela sombra de um homem que morreu há dez anos, fez a minha garganta secar de raiva. Sempre a mesma comparação. Sempre o mesmo peso insuportável de nunca ser o suficiente por mim mesmo.
Apesar do ódio que queimava na minha nuca, engoli a seco. Eu já tinha decidido que iria até o fim com aquela palhaçada. Se aquele noivado de fachada servisse para vender essas empresas, se fizesse o meu avô olhar para mim ao menos uma vez sem decepção e se garantisse a independência da Jussara para que nós dois fôssemos livres depois, que assim fosse.
Afinal, no momento atual, o que eu tinha com a Sky?
Nada. Ela não tinha me mandado uma única mensagem, não dava espaço para eu entrar na vida dela e agia como se eu não existisse.
Consegui arrancar apenas uma concessão da Jussara antes da organização da festa: nenhuma nota para a imprensa por enquanto.
Convenci a mulher a manter o anúncio fora dos jornais e das redes sociais. Eu precisava olhar nos olhos da Sky e contar a verdade com a minha própria boca antes que ela lesse aquilo em um portal de fofocas. A ideia de ver a ruiva sabendo do meu noivado pela internet me causava um medo visceral.
Para completar o cenário de chantagem, o meu avô continuava obrigado a usar aquele medidor cardíaco preso ao peito por mais uma semana inteira, me lembrando a todo segundo do risco que eu corria se saísse do roteiro.
A noite foi um desastre. Passei horas me revirando na cama, afundado em pesadelos desconexos com o acidente de carro, com o rosto da Sky chorando e com a voz da minha avó cobrando resultados.
Acordei cedo com o barulho dos funcionários decorando o jardim da mansão para o jantar de noivado. A sensação de estar sendo conduzido para o meu próprio velório me acompanhou durante todo o dia.
Quando a noite caiu, fui obrigado a vestir um terno branco sob medida. Encarar o meu reflexo no espelho com aquela roupa clara me deu uma náusea seca. Eu parecia um ator pronto para encenar uma farsa caríssima.
A Jussara surgiu no hall principal vestindo um vestido longo escuro que destacava a pele negra retinta dela. Ela estava exuberante, impecável e dominava o ambiente com uma facilidade impressionante.
O jantar foi a pior tortura da minha vida.


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