POV/ ROCCO
Quase engasguei com o meu próprio ar. Ajeitei o corpo no banco, cravando os meus olhos verdes no reflexo do meu avô pelo retrovisor. O velho mantinha a cara fechada, a mão apoiada sobre o medidor cardíaco no peito, com uma expressão séria. Fiquei encarando aquela imagem, tentando decifrar a todo custo se Heitor Blackwood era o maior ator da história do Reino Unido ou se o coração dele estava realmente se despedaçando por dentro. Eu não fazia a menor ideia, e essa dúvida era a minha pior algema.
A viagem pareceu durar uma eternidade, mas quando o carro finalmente cruzou os portões de ferro da propriedade e estacionou na garagem da mansão, a minha paciência simplesmente acabou.
Eu nem esperei o motorista dar a volta para abrir a minha porta. Bati a maçaneta com força, saí em disparada pelo piso de cascalho, passei pelo hall de entrada como um furacão e ignorei qualquer cumprimento dos empregados. Subi os lances de escada de dois em dois degraus, cruzei o corredor do segundo andar e me enfiei direto para o interior do meu quarto principal.
Caminhei até a mesa de apoio perto da cama, peguei o carregador na gaveta, conectei a fonte na tomada e espetei o cabo na entrada do telefone celular. No mesmo instante, uma pequena luz vermelha acendeu no topo da tela, indicando que a energia estava finalmente entrando no aparelho.
Larguei o telefone sobre a madeira, arranquei a minha camisa pela cabeça e fui direto para o banheiro da suíte. Liguei o registro do chuveiro no modo mais frio e me enfiei debaixo da água gelada. Precisei de cinco minutos de jato forte para lavar a poeira da estrada, acalmar o suor frio do meu pescoço e tentar baixar a frequência cardíaca que estava fazendo as minhas costelas tremerem.
Desliguei a água, passei a toalha pelo corpo sem paciência e vesti apenas uma calça de moletom cinza que estava dobrada no armário. Fiquei com o peito nu, jogando a toalha molhada sobre os ombros para secar o cabelo bagunçado enquanto caminhava de volta para o quarto com passos rápidos.
Parei na frente da mesa e encarei o visor do aparelho.
Um bipe curto ecoou pelo quarto silencioso e a tela ganhou vida, mostrando a porcentagem da carga: apenas dois por cento.
Peguei o telefone com as mãos trêmulas, sentindo o peito subir e descer em uma respiração desordenada. A ansiedade estava me sufocando por dentro. Desbloqueiei a tela com o polegar e abri o aplicativo de mensagens no mesmo segundo, com a vista turva e o coração batendo na garganta.
Eu precisava desesperadamente saber se a Sky tinha deixado alguma mensagem para mim.
A tela do celular acendeu de uma vez, e uma chuva violenta de notificações começou a pipocar na parte superior do visor. O aparelho não parava de vibrar na minha mão.
Mensagens do Christian cobrando retornos sobre reuniões. Recados do Diego sobre a Sakura e o suporte técnico. Notificações do Nathan, e-mails acumulados da diretoria da Blackwood, relatórios de obras e atualizações do conselho.
Passei o polegar pela tela de forma febril, filtrando cada nome, cada linha, cada notificação que subia no aplicativo.
Nada.
Nenhuma mensagem da Sky. Nenhum áudio gravado. Nenhuma ligação perdida. Absolutamente nada.
A decepção bateu contra o meu peito como um peso morto. Uma sensação amarga de vazio se espalhou pelo meu estômago. Ela não tinha se dado ao trabalho de enviar uma única palavra durante todas aquelas três semanas.
Joguei o telefone de qualquer jeito sobre o colchão, virei o corpo de costas na cama e cobri o rosto com as duas mãos, encarando a escuridão atrás das minhas pálpebras enquanto a minha respiração vinha pesada.
Duas batidas secas na madeira da porta cortaram o silêncio do quarto.
— Pode entrar — soltei com a voz rouca, sem me mexer, imaginando que fosse a minha avó Helena vindo fazer mais uma das suas cobranças sociais.
A porta se abriu devagar. O som de passos leves no piso de madeira me fez afastar as mãos do rosto.
Era a Jussara. Ela trazia as mãos cruzadas na frente do corpo e me encarava com uma tranquilidade calculada.
— Oi — ela disse, parando no meio do quarto. — Parece que você não tá com a cara muito boa.
Passei a mão com força pelos olhos, sentindo a pele do rosto quente, e sentei na borda da cama com o corpo tenso.
— Sai daqui, Jussara — soltei seco, sem esconder a aversão na minha voz. — O que você quer?
Ela deu mais dois passos para dentro e encostou as costas na porta fechada.
— Daqui a três dias vai ser o nosso jantar oficial de noivado, Rocco. Eu só vim para a gente conversar e alinhar o nosso comportamento.
— Não tem nada para alinhar.

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