POV: ROCCO
Saí do bar sentindo o vento frio da noite bater direto no meu rosto. Ajustei o casaco sobre os ombros, dei alguns passos curtos pela calçada e caminhei até o carro estacionado logo à frente.
Abri a porta, entrei no veículo e fechei. O silêncio da cabine abafou todo o ruído da rua por alguns instantes. Apoiei as duas mãos no volante, soltando o ar devagar pela boca, sentindo o peito pesado com a conversa que recém tinha tido com o Arthur.
Pressionei o botão de partida. O motor roncou forte, os faróis se acenderam iluminando o muro à minha frente e a central multimídia conectou automaticamente ao meu telefone, preenchendo o painel com uma luz azulada.
Engatei a marcha, tirei o carro da vaga e comecei a rodar devagar pelas ruas silenciosas de Porto Alegre. A iluminação dos postes passava rápido pelo para-brisa, criando sombras no painel do veículo.
A voz do Luan Santana começou a sair limpa e alta pelos alto-falantes, cortando o barulho do motor e preenchendo todo o ambiente:
(Quero que prometa, que se comprometa / A ir procurar outro amor em outro planeta / Pra que eu não te veja sentada na mesa / Rindo à toa enquanto outra boca te beija, ai, ai, ai...)
Apertei os dedos no couro do volante com tanta força que os nós das minhas mãos ficaram brancos. Só de ouvir aqueles versos, uma pontada violenta de ciúme atravessou o meu peito. Imaginar a Sky sentada em uma mesa de bar, rindo para outro homem, deixando qualquer outro cara encostar na pele dela ou beijar aquela boca teimosa... me dava vontade de socar o painel do carro.
Não existia a menor possibilidade de eu deixar isso acontecer. Essa ruiva era minha. Ela podia surtar, podia tentar comer cacto, podia mandar Pix de um centavo ou criar a desculpa que quisesse, mas eu nunca assistiria a outro homem ocupar o meu lugar na vida dela.
(Vou engolir meu coração pra me amar por dentro / Que nós dois sabemos que tanto sofrimento / É perda de tempo, é perda de tempo...)
Parei o carro em um sinal vermelho na avenida deserta. Fiquei encarando a luz vermelha no topo do poste, ouvindo o ritmo da música ecoar no espaço fechado do veículo.
Nós dois tínhamos perdido tempo demais. Sofrido tempo demais. Foram semanas longe, separados por um oceano de distância, presos em orgulho, medos bobos e mal-entendidos que só serviram para massacrar a gente por dentro. Eu passei dias e noites sufocado em Londres, encarando o teto do meu quarto, tentando convencer a mim mesmo de que conseguia viver sem o barulho dela, sem o cheiro dela e sem o jeito atrevido que ela usava para me peitar.
Mentira. Uma mentira absurda que desmoronou no segundo em que ouvi a voz dela bêbada pelo telefone.
(Vou transformar decepção em novo começo / O passado é um erro, o presente é só acerto / O amor eu te prometo...)
O sinal abriu. Acelerei o carro, sentindo o veículo ganhar velocidade na pista molhada pelo orvalho da noite.
A minha vida inteira tinha sido construída sobre erros do passado. Cobranças da família, expectativas de um império que não fui eu quem escolheu erguer, e aquela palhaçada daquele noivado de fachada com a Jussara para cobrir rombos burocráticos. Tudo isso só me trouxe decepção e peso nas costas. Mas acabou. Na próxima terça-feira eu resolveria tudo com a Jussara, assinaria os papéis necessários e colocaria um ponto final definitivo naquela mentira.
O presente agora era só acerto. Eu ia consertar cada besteira que fiz, cada palavra atravessada que disse e cada centímetro de distância que deixei criar entre nós. Eu prometi amor para ela naquela ligação de madrugada, e eu ia cumprir cada letra dessa promessa.
(Também vou procurar outro amor em outro planeta / Guardo seu ciúme em qualquer gaveta / Primeiro a gente peita, depois a gente aceita / Que amores vem, amores vão / Cê vai pro céu, volta pro chão...)
Soltei um riso fraco, balançando a cabeça sozinho na escuridão do veículo.
A gente peitou tudo desde o início. A Sky não era o tipo de mulher que se curvava ou baixava a cabeça para mim. Desde o primeiro dia em que pisou na minha frente, ela me encarou nos olhos, respondeu à altura, me provocou e brigou por cada espaço. A gente bateu de frente até a vida derrubar todos os meus muros e me jogar no chão, me fazendo aceitar que eu estava completamente rendido por ela.
(E quando tá pra se afogar no mar da vida / Vem alguém, vem alguém... e se torna ilha...)
Diminuí a velocidade quando entrei na rua do meu prédio. Puxei o ar bem fundo, sentindo o peito inflar.
A letra daquela música parecia ter sido escrita para o momento exato em que eu estava vivendo. Eu estava afundando naquele mar de obrigações em Londres, sufocado pelas dívidas do passado e pela responsabilidade de manter tudo de pé, até que aquela ruiva doida apareceu. A Sky se tornou a minha ilha. O meu chão firme no meio do oceano de problemas. O meu porto seguro.

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