POV: ROCCO
Ela levou a mão ao peito, fazendo uma cara de choque absoluto.
— Eu acordo cedo, faço café, queimo a ponta dos meus dedos na frigideira...
— E quase transforma a cobertura em zona de evacuação por intoxicação de fumaça.
— ...e é essa a sua reação?
— Você esqueceu da parte em que tentou cometer homicídio culposo contra o meu estômago logo pela manhã.
Ela pegou o pano de prato da bancada e jogou direto na minha cara.
O pano acertou em cheio o meu rosto.
Tirei o tecido devagar, sentindo o cheiro de queimado impregnado nele. Olhei para o pano. Depois para ela. Depois para o prato com o carvão vegetal.
— Se você jogar outro pano em mim, Sky...
Ela ergueu uma sobrancelha, desafiadora.
— O quê? Vai fazer o quê, grandão?
Peguei outro pedaço daquela placa dura com a ponta dos dedos.
— Eu faço você mastigar isso aqui junto comigo.
Ela arregalou os olhos castanhos.
— Isso é ameaça à integridade física!
— É legítima defesa culinária.
— Seu brutamontes ingrato!
Ela começou a rir, jogando a cabeça para trás.
Mastiguei mais um pedaço microscópico da torrada apenas para provar que eu era um homem de princípios firmes. Ou de pouca sanidade mental. Ainda estava avaliando o estrago no meu estômago.
— Você tá fazendo esse banquete todo para ensaiar para quando a gente morar junto de vez?
A Sky soltou uma gargalhada alta.
— Eu? Cozinhar para você todos os dias? Nem amarrada, meu querido! Com a fortuna que você tem acumulada no banco, a gente vai contratar uma equipe inteira de alta gastronomia.
— Sensato. Apoio integralmente.
— Isso aqui hoje foi um ato exclusivo de caridade humanitária porque você deu um trabalho colossal ontem à noite.
Franzi a testa, sentindo a cabeça latejar de novo.
— Eu dei trabalho?
— Muito. Um trabalho monumental.
Cruzei os braços sobre o peito.
— Eu me lembro perfeitamente de ter mantido uma postura impecável.
Ela ficou me encarando em silêncio por três segundos. Depois começou a rir tanto que precisou apoiar a mão na bancada.
— Você? Postura impecável?
— Exatamente.
Ela deu a volta na ilha da cozinha e parou bem na minha frente, colocando as mãos na cintura com um sorriso vitorioso.
— Rocco, você me proporcionou um catálogo completo de primeiras vezes inesquecíveis ontem.
Franzi o cenho, desconfiado.
— Dei?
— Deu — ela começou a contar nos dedos, se divertindo com a minha desgraça. — Primeira vez que você tentou mijar no abajur de cristal italiano achando que era um vaso sanitário moderno com iluminação embutida.
Pisquei devagar, sentindo o sangue gelar.
— Eu tentei fazer isso?
— Tentou. E quase abriu a braguilha na sala.
— Tem certeza absoluta?
— Absoluta. Eu precisei correr e te puxar pelo cós da calça.

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